“Descarnado de alma / Mas mantendo a calma”

“Ao Soldado Desconfiado”, GNR (1986)

1 Quando António José Seguro apresentou a sua candidatura presidencial nas Caldas da Rainha, as elites bem pensantes do Partido Socialista fizeram aquela cara de nojo habitual perante a ousadia de quem se atrevia a enfrentar a quase unanimidade dos costistas, da ala esquerda socialista e dos seus naturais aliados do PCP, Bloco de Esquerda e Livre. Luminárias da esquerda bem pensante — como Augusto Santos Silva, Marta Temido, José Vieira da Silva e a sua filha Mariana, entre muitos outros — diminuíam Seguro e recusavam apoiá-lo.

A metáfora perfeita da tradicional soberba e arrogância destes socialistas de bem era a posição de Augusto Santos Silva. O homem que foi ministro de Guterres, de Sócrates e de Costa conseguiu a proeza de não conseguir ser eleito como deputado nas legislativas de 2024, mas dizia que Seguro “não cumpria os requisitos mínimos” para ser o candidato apoiado pelo PS. Mas que ele, Santos Silva — que tinha perdido o seu mandato para essa grande figura da política nacional chamada Manuel Magno Alves (do Chega) —, era a figura ideal para representar a área socialista nas presidenciais.

Apesar de uma boa parte dos meus colegas comentadores apoiarem estas visões pseudo-elitistas, sempre defendi que era inquestionavelmente o melhor candidato que o PS poderia apresentar ao eleitorado. Precisamente pelas razões opostas às das luminárias bem pensantes.

Além do seu passado como líder do PS e da Juventude Socialista, sempre ligado à corrente social-democrata/trabalhista que caracteriza o centro-esquerda em Portugal, Seguro era (e é ) uma das poucas personalidades socialistas que consegue dialogar com o centro-direita, como demonstrou no tempo da troika.

Aquilo que era cadastro para os socialistas que querem promover uma espécie de aliança histórica entre o PS, o PCP, o Bloco e o Livre — o que contraria toda a história do PS —, era, obviamente, um enorme ativo político num novo ciclo político, em que o país virou claramente à direita nos últimos atos eleitorais.

Obviamente que agora as luminárias mordem (bem mordida) a língua e, como bons oportunistas, escondem o seu desprezo político (e, em alguns casos, pessoal) e declaram o seu apoio público a Seguro. Até Ferro Rodrigues, esse político que também arriscaria perder com Manuel Magno Alves, deixou o seu período de reflexão para dizer que vota em Seguro.

2 Bem podemos argumentar que a vitória mais do que certa de António José Seguro (e por um score que se arrisca a ser histórico) nestas eleições presidenciais se deve em grande parte à rejeição de André Ventura. Mas a rejeição de Ventura não seria tão automática com outro candidato da área socialista.

A razão pela qual António José Seguro tem reunido apoios relevantes quer no PSD (a começar pelo candidato Luís Marques Mendes), na Iniciativa Liberal, no CDS e em muitas personalidades independentes do espaço do centro-direita tem muito a ver com a capacidade de Seguro de fazer pontes para dialogar com este espaço político.

Ao defender o diálogo com o centro-direita, Seguro defendeu um PS ao centro e recusou a esquerdização dos socialistas que veio a culminar com a geringonça de tão má memória para o país — e que explica o estado atual de terceira força política do PS no Parlamento.

É por tudo isto — e não só pela rejeição de André Ventura — que Seguro será eleito com muitos votos do centro-direita.

3 A questão que se coloca é: o que significam estes apoios do centro-direita a Seguro? Têm relevância política suficiente para influenciar o mandato de um candidato que diz que não tem amarras e que será sempre independente?

Há uma primeira resposta que pode ser dada: o apoio da direita não é um cheque em branco para Seguro.

Outras possíveis respostas não podem ser separadas de algo que é certo — mas que não será para as luminárias oportunistas que têm de morder a língua para apoiar Seguro. Ou seja, a mais do que certa vitória de António José Seguro não significa que a esquerda tenha conseguido inverter o ciclo político da direita.

Em primeiro lugar, os partidos da direita têm 157 em 230 deputados — o que significa 68% da Assembleia da República. Bem pode a esquerda argumentar que esses 68% não representam uma maioria política. É verdade — se não fosse assim, teríamos certamente um governo de coligação entre AD, Chega e IL. Mas o ponto é que essa maioria tem existido de forma circunstancial em temas relevantes, como a imigração, matérias fiscais e outras.

Por outro lado, o PSD (coligado em algumas autarquias relevantes com a IL e com o CDS) conseguiu a primeira vitória nas autárquicas desde 2013. É uma vitória politicamente muito significativa porque o PSD ganhou nos principais centros urbanos e no resto do país. Tal como é relevante que a AD e o PSD continuem a governar os Açores e a Madeira.

Olhando apenas para estas eleições presidenciais, a primeira volta demonstrou novamente que a direita continua maioritária: os três candidatos conseguiram um pouco mais de 2,8 milhões de votos, contra cerca de 2 milhões das candidaturas de António José Seguro, Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto. Se quisermos juntar os votos de Gouveia e Melo à esquerda (algo que é discutível pela origem transversal do eleitorado do almirante), mesmo assim os cinco candidatos da esquerda continuam a valer menos 160 mil votos do que os três candidatos da direita.

Por último, António José Seguro beneficiou muito da divisão do eleitorado à direita e da luta fratricida entre  Cotrim Figueiredo e Marques Mendes. Bastaria que a AD e a IL tivessem consensualizado um candidato para que provavelmente a direita tivesse conseguido duas candidaturas na segunda volta, com a exclusão de Seguro.

4 Seja o facto de a direita ser maioritária no Parlamento, nas autarquias e nas regiões autónomas, seja o facto da maioria política que o vai eleger incluir o centro-direita de forma muito significativa — tudo isso dará uma responsabilidade política a Seguro.

E uma responsabilidade política que se explica numa frase: o futuro Presidente da República terá de respeitar esses eleitores. Como Mário Soares respeitou os eleitores do centro-direita em 1986 quando os incluiu na sua maioria e no seu desígnio de ser o Presidente de todos os portugueses.

Isto é — e regressando ao presente —, o eleitorado que reforçou a maioria da AD nas legislativas de 2025 quer estabilidade mas também quer reformas. Não quer que António José Seguro seja um obstáculo ao Governo da AD. Ou que seja um líder da oposição, como uma parte do PS e da extrema-esquerda sonham.

É suposto que António José Seguro tenha um mandato semelhante ao primeiro ciclo de Mário Soares em Belém, colaborando e respeitando o seu espírito reformista do Governo.

Por outro lado, é importante que se diga que o PS tem problemas estruturais que estão longe de estar resolvidos. Os socialistas precisam de se reinventar e de novas causas para restabelecer canais de comunicação com eleitorados que deixaram de votar no PS, como a classe média urbana e os jovens.

António José Seguro terá de ter igualmente em atenção que os partidos de extrema esquerda — que têm uma influência sindical relevante mas restringida à administração pública — valem cada vez menos, e de forma estrutural.

Se somarmos os votos do PCP, do Bloco e do Livre nas últimas legislativas, chegamos a um valor de cerca de 566 mil votos. Sabe o caro leitor quanto tiveram as três candidaturas da esquerda radical (e aqui incluo o Livre) em conjunto? Cerca de 247 mil votos — quase metade dos votos das legislativas. Logo, esta área política tem cada vez menos apoio dos cidadãos e continua a sua descida ao inferno da irrelevância política.

Resumindo e concluindo: acredito que Seguro terá a perspicácia política de perceber que o país continua num ciclo político da direita e que o PS não pode (e não deverá) ser reconstruido a partir de Belém. Se tal acontecer, se os socialistas conseguirem convencer o árbitro a ajudá-los, quase que arrisco dizer que António José Seguro terá um problema sério com a sua recandidatura.

Tudo indica que a perspicácia política de Seguro virá ao de cima e esse problema não se colocará tão cedo.

Aliás, já começou no debate com André Ventura. Em vez de retirar legitimidade política a Ventura e ao Chega (como a ala esquerda do PS tem feiro), Seguro preferiu ser uma espécie de notário que reconhece o Chega como uma força parlamentar relevante e democrática. É um sinal positivo. Veremos o resultado final desta estratégia de não confrontação com a direita — que pode perfeitamente ser um resultado histórico.

Texto corrigido às 12h20