Mariana Mortágua, na noite da última derrota eleitoral, exibiu orgulhosamente à frente das câmaras um pano monocromático no pescoço ou aos ombros, já não recordo com exatidão, que, segundo os entendidos, seria uma peça de vestuário árabe ou, pelo menos, algo que os habitantes de Gaza usariam bastante. Seja como for, esses mesmos especialistas confirmaram que o adorno era um símbolo dos palestinianos. Provavelmente não seria essa a intenção, mas a bloquista associou a derrocada do partido à estreita faixa de território que ladeia o Mediterrâneo. Talvez para compensar aquelas gentes dessa lamentável associação, a política portuguesa decidiu embarcar na Freedom Flotilla Coalition, “maior missão de solidariedade da história”, projeto marítimo que visa furar o bloqueio israelita àquele território e oferecer ajuda aos seus desafortunados habitantes: segundo o site da organizadora, Global Sumud Flotilla, to break the illegal siege on Gaza by sea, open a humanitarian corridor, and end the ongoing genocide of the Palestinian people. Mortágua será um dos três portugueses a embarcar na aventura pelas águas mornas do grande lago euro-africano. A seu lado pontificarão Sofia Aparício, de quem se diz ser atriz (tenho memória apenas de um programa de moda nos anos 90), e o ativista (pelos vistos é uma profissão) Miguel Duarte.
Miguel Duarte pertence, segundo pude ler na web, à Associação HuBB – Humans Before Borders. Nada tenho contra associações, eu próprio já fiz – provavelmente, ainda faço – parte de uma ou outra. O nome da ONG deste colunista do Público (ou ex-colunista), tal como o nome indica, revela uma certa falta de conhecimento da realidade política (pelo menos). Um dos seus lemas persevera na ideia de que uma vida humana vale mais do que qualquer fronteira. Uma vez que todos os seres humanos vivem dentro de fronteiras, resulta que a afirmação é desajustada para nós, que de há muito tempo somos designados, justamente, animais políticos. A forma como os animais sociais, mercê de milénios de evolução, optaram por viver e conviver, foi precisamente definir fronteiras entre grupos distintos para evitar disputas e violência permanentes. Se havendo fronteiras não garante – nunca garantiu – a paz, imagine-se um mundo sem elas: seria um regresso à selvajaria e aos massacres dos tempos primitivos, ao caos que caracterizava o estado natural do ser humano – a velha noção hobbesiana de que o homem é o lobo do homem.
A ideia de que uma vida vale mais do que uma fronteira equivale a defender que acabar com a fome é mais importante do que a existência de alimentos. A fronteira assegura a vida e, regra geral e por períodos longos, mantém as condições de progresso e saúde, evitando, como disse, a barbárie. Trata-se, é bom de ver para quem consulta o site, de mais uma associação com os imigrantes em vista. Faria mais sentido, contudo, afirmar sem medo que o seu raio de ação é toda a orla mediterrânea. De que forma se passa de imigrantes para a Palestina sem ninguém dar por isso? Ora, digo eu, como a sueca Greta passou de ecologista radical a palestinianista radical – num golpe de magia.
O que têm em comum estes três portugueses que se arriscam em terras de Abraão? Não será, com certeza, por amor ao patriarca, nem tão pouco ao seu filho muito amado, Isaac. Será o ódio seco e desproporcionado a Israel e aos judeus? Diretamente não, creio, mas por via EUA (não apenas Trump). Israel, aliado americano (aliás, como Portugal) na região, única democracia naquelas latitudes, simboliza acima de tudo o Ocidente, onde são respeitados os direitos humanos, há eleições livres e se vive em liberdade. Tudo o que não se passa na Palestina e nos países árabes. Mortágua, não fosse o ódio e a intolerância aos LGBT e companhia, dar-se-ia bem naquelas terras abandonadas pela civilização. (Estou a ser injusto: ser mulher, ateia e ir ao ginásio em trajes menores também não ajudariam a uma boa estada). Sem o processo democrático não seria humilhada e obrigada a prestar contas pelos seus desaires eleitorais. Quanto ao ativista, bom, confesso que recolhi tudo a que me esforcei – não me esforcei muito. Nunca nos esqueçamos: para algumas mentes, o que divide um ativista de um terrorista é uma questão de navegação à vista.
Quem ler estas linhas perceberá facilmente que não discuto diretamente os alegados genocídio e injustiça que pesa sobre o povo palestiniano. Parece-me que já foram esgrimidos suficientemente os argumentos de ambos os lados. Lidamos agora com fogos-fátuos e pombos-correio.
A Flotilha partirá de Barcelona este domingo (escrevo estas linhas precisamente nesse domingo, ainda da parte da manhã) rumo a Tunes, onde se juntarão a outras embarcações – segundo fontes oficiais participam “figuras públicas” oriundas de 44 países. Que o vento esteja de feição e que os catalães republicanos estejam de bom humor.