Era inevitável, não era? Mais cedo ou mais tarde, tinha de acontecer. Um dia, algum deputado português apareceria a dizer que Salazar faz muita falta a Portugal. Sabíamos disso. Só não achámos que fosse já.

Vejamos, hoje em dia, o Marquês de Pombal é uma figura histórica respeitada e apreciada pelos portugueses. Tem uma estátua na principal praça da capital, cujo centro ainda hoje é conhecido pelo seu nome. Quase 250 anos depois da sua morte, o Marquês é considerado um grande estadista, responsável pela reconstrução de Lisboa depois do terramoto de 1755 e por uma série de políticas que transformaram o país, modernizando-o. Mas isso é agora. No período logo após a sua morte era visto como um déspota que, durante quase três décadas, perseguiu os seus adversários, reprimiu qualquer crítica, um ímpio que prejudicou a Igreja e um patife que se locupletou à custa do Reino, tendo ainda beneficiado financeiramente amigos e família.

Porém, a passagem do tempo e o natural desaparecimento de quem sofreu pessoalmente ou conheceu quem tenha sofrido, trataram de suavizar as memórias mais tenebrosas, transformando-o numa figura neutra. Por exemplo, conheço Távoras e, se têm alguma embirração com o Marquês, é com o trânsito que há na rotunda.

Fatalmente, sucederá o mesmo com Salazar. Por mais repugnância que o ditador inspire agora na maioria dos portugueses, daqui a dois séculos os nossos descendentes irão vê-lo como agora vemos D. João V ou o Duque de Saldanha, mais nome de rua do que o antigo governante.

Só que “fatalmente” não é “já”. Em 2025 a lembrança de Salazar está fresca na memória colectiva. Ainda estão vivas muitas das suas vítimas, os efeitos das suas piores políticas ainda se sentem. André Ventura, na ânsia de ser o primeiro, precipitou-se. É um elogiador precoce. Ventura está numa pocilga a lamber a perna de um porco ainda vivo e a dizer “estre presunto é delicioso”. Tem calma, André. Falta tempo.

Além de apreciador público de um tirano, André Ventura revela-se um fanfarrão. Diz que Portugal precisa de 3 Salazares mas, na impossibilidade de ressuscitar e clonar o antigo Presidente do Conselho, o país pode colmatar a falha com um Ventura. Ou seja, Ventura equivale-se a três Salazares, o que deve melindrar os saudosistas do Estado Novo que quer conquistar.

Por outro lado, posso estar a ser injusto com Ventura. O líder do Chega pode não estar a ser fanfarrão, ao cotejar-se com 3 Salazares. Pelo contrário, em vez de bazófia, esta afirmação pode ser sinal de humildade. É possível que André Ventura considere necessários 3 Salazares porque desta feita o ditador não seria auxiliado pela equipa de brilhantes delfins que o foram acompanhando ao longo de 44 anos. Em vez de Marcello Caetano, Adriano Moreira, Teotónio Pereira ou Franco Nogueira, o Salazar 2.0 teria a acolitá-lo Pedro Pinto, Rita Matias, Filipe Melo ou Bruno Nunes. Com esta turma, não sei se 3 Salazares chegavam. Era um para governar e meia-dúzia só para manter os pupilos sossegados e impedi-los de fazer muita porcaria. Por isso é que André Ventura dá tantas entrevistas. Não pode contar com nenhum dos seus seguidores para o representar mantendo a qualidade. Ventura anda numa cegarrega pelos estúdios de televisão, sempre à roda. Parece aquele brinquedo dos anos 80, que as crianças enfiavam no pé e faziam andar à volta. Havia um com a mascote do “1,2,3”, a Bota Botilde. Ventura é o Botas Botilde.

Aliás, um dos grandes problemas do Chega é a qualidade dos seus quadros. E isso tem ficado patente à medida que os canais de notícias vão abrindo os painéis a deputados cada vez mais obscuros, que surpreendem pela forma desbragada e malcriada como falam, pouco habitual neste meio.

Uma curiosidade muito engraçada. Historicamente, desde Marx que a linguagem polida e os códigos de boa educação são vistos como violência simbólica, ferramentas opressivas de controlo social das classes superiores sobre as classes baixas. As regras de cortesia servem para que o proletário, que não as domina, se submeta. Daí que, durante 150 anos, a esquerda tenha incentivado o povo a não se inibir e a ignorar a cortesia, para chocar os conservadores com a sua vulgaridade, épater la bourgeoisie com o seu vernáculo e modos rudes. No fundo, a borrifar no autodomínio que a domesticação impõe. Desde hippies em 68 até metalúrgicos no PREC, passando por Black Panthers numa festa em casa de Leonard Bernstein, conviver com estes agitadores de classe baixa sempre foi bem visto. Convidar um plebeu emblemático para a mesa, tê-lo a dizer mal do patronato enquanto palita os dentes, cospe para o chão e é ordinário para as senhoras, confere autenticidade à luta. Nessa ocasião, a grosseria é política, um acto revolucionário salutar. Já não é tão giro quando o plebeu afinal vocifera contra o socialismo. Aí já não é um rebelde, é um mero labrego.

Por exemplo, Rodrigo Taxa, o deputado rosadinho, que manda calar com maus modos, se fosse de esquerda era um rapaz do campo, simples mas leal, que fala verdade do coração, sem se vergar à etiqueta burguesa que controla o volume, o vocabulário e a postura à mesa. Mas como é do Chega, então é um gebo com ar de bácoro com quem não é de bom tom interagir. O convívio com um burgesso, se a alarvidade não é progressista, não vale o sacrifício.

Tenho conhecido alguns saudosistas. Um dos aspectos do salazarismo que recordam com nostalgia é o facto de, naquele tempo, o povo saber o seu lugar. Não frequentava as escolas, as praias, os restaurantes e, se na altura existissem, os estúdios de televisão. Muito menos para levantar a voz aos senhores. Que Ventura sinta saudade de uma época em que 95% dos seus correligionários ficariam de fora é bizarro. Ou talvez não. Ele conhece-os melhor do que nós.