Para grande consolo da pátria, Augusto Santos Silva proclamou na sua página de Facebook que afinal ainda há esperança numa sua candidatura à Presidência da República. Como não haveremos todos de rejubilar agora que volta a faiscar a centelha da esperança num amanhã melhor? Depois de lamentar a desistência mais do que previsível de António Vitorino, Santos Silva revelou o desgosto que partilha com todos os portugueses pelo facto de, entre os candidatos já anunciados, não haver quem represente o espaço político estimável que ele próprio protagoniza e esgota. Uma profunda “reflexão” pessoal persuadiu-o que tamanha tragédia só poderá ser superada se for substituída pela comédia – ou pela injúria – da sua própria candidatura, coisa que Santos Silva agora ameaça perpetrar.

Vale a pena, pois, recordar os méritos deste proto-candidato. Apoiante em tempos de outra candidatura presidencial, a de Otelo Saraiva de Carvalho, um arauto, como sabemos, dos valores liberais e do Estado de Direito. É, sem dúvida, um testemunho da constante luta de Santos Silva, desde pequenino, contra os extremismos e os radicalismos na política. No momento em que foi a doer, em que o País esteve mesmo dividido entre, de um lado, uns, em que se incluía a esmagadora maioria do povo português, que queriam seguir o percurso de uma democracia liberal europeia identificada com o Ocidente; e, do outro, uma multidão de fanáticos ideológicos que queria imitar as experiências totalitárias de opressão esquerdista; Santos Silva escolheu inequivocamente o seu lado.

Depois disso, Santos Silva juntou-se ao Partido Socialista para uma fulgurante carreira em tudo o que foi governo do PS. Com Guterres, lá se iniciou no exercício do poder executivo. Mas foi com Sócrates que encontrou o seu lugar natural. O viveiro apascentado por Guterres gerou uma abundância de calamidades nacionais. Santos Silva, e o seu grande mestre, José Sócrates, foram apenas mais duas.

Com Sócrates, Santos Silva dedicou-se ao que faz melhor. Não certamente governar em nome do interesse comum do País. Não. A sua especialidade mostrou-se na protecção do poder da seita a qualquer custo, sem princípios nem escrúpulos. Da infatigável defesa da corrupção e do abuso do poder do chefe até a arrastar o País para uma ruptura financeira catastrófica, e correspondente crise social, nada faltou para enriquecer o CV político deste homem. E foi, evidentemente, um dos rostos da demagogia mais vulgar contra a “austeridade” de que ele fora um dos principais promotores, com cara séria e sem se rir. Regressa no mesmo movimento com o PS geringonçado para fazer mais ou menos o mesmo que fez com Sócrates, mas desta vez servindo Costa e querendo, sem o conseguir, posar como estadista na chefia Ministério dos Negócios Estrangeiros. A deselegância, a defesa sectária do partido e a total ausência de reconhecimento da podridão política dos tempos de Sócrates, de que ele fora um dos principais cúmplices, deram o tom ao renascer da sua carreira política, depois de a ter falhado como comentador televisivo de horário nobre.

Como normalmente sucede no universo socialista, um trajecto tão nobre foi recompensado. Foi elevado a segunda figura do Estado português, com a presidência do Parlamento. E até nessa função, normalmente esquecível, distinguiu-se pelo seu brio habitual patente na conversão heróica em primeiro inimigo do fascismo de Ventura. Vangloriou-se dos seus novos feitos numa conversa com outros líderes políticos, depois da triste sessão de comemoração do 25 de Abril, em que Lula da Silva fora impingido ao pobre povo português como uma referência dos valores democráticos num mundo em crise. A conversa filmada pelo canal do parlamento foi depois mandada apagar pelo chefe da casa da democracia, não sem antes ameaçar perseguir os seus próprios funcionários, porque afinal a gabarolice revelara-se embaraçosa. A cereja no bolo chegou quando nas eleições de 2024, em que se candidatou como deputado, recusando-se a roubar o povo português da sua insubstituível presença, se tornou no único presidente da Assembleia da República da história da nossa democracia que não conseguiu ser reeleito.

Agora, sonha com Belém. Nos últimos anos o nosso regime democrático tem sofrido reveses internos que deixaram as suas marcas. Poucos seriam tão demolidores quanto uma presidência de Augusto Santos Silva. Do candidato da injúria, haverá maior injúria do que a sua própria candidatura à chefia do Estado?