Por estes dias, o alvoroço tomou conta do mundo mediático e político português. Em período de excitação democrático-partidária em curso, os poderes que são adaptam-se, os jornalistas, sob os habituais frémitos de entusiasmo, gritam e correm atrás da constante novidade e as massas dividem-se, vestindo camisolas e fazendo claque pela equipa favorita. Naturalmente, perante tal sururu, umas eleições presidenciais vêm mesmo a calhar: ao governo, que assim passa despercebido e menos tem que fazer, aos poderes que são, que mais acicatam para ainda melhor vir a reinar, e às audiências que, perante o circo montado, quanto mais não seja por mórbido prazer, não descolam os olhos do ecrã. É a festa da democracia, dizem-nos.

Mas poderia perfeitamente ser outra coisa qualquer, desde que assente em espectáculo garantido, apoio fervoroso, clubismo fidelíssimo e a leve sensação que, no fim, ganhe quem ganhar, no que concerne a vida prática e quotidiana das pessoas, tudo ficará mais ou menos na mesma. Ainda assim, a coisa anuncia-se como essencial, uma luta gloriosa, um espectáculo que ninguém pode perder — tal qual o campeonato do mundo de futebol que aí vem. Aliás, também aqui as hostilidades abrem com o sorteio dos grupos, no caso traduzido no extensíssimo calendário dos frente-a-frente, um eufemismo para frete-a-frete, onde, em 28 infindáveis ocasiões, os candidatos do gosto dos manda-chuva da TV (os outros, mais de 10, ficaram de fora) medem forças, exibem habilidades e, sem rede, em directo, cabriolam no ecrã ansiando pelo selo de aprovação popular.

No final, é um espectáculo ao nível de um combate de boxe singular onde a parte intenta esmurrar a contra-parte, mas de forma especial, sem que o golpe lhe custe algum potencial embaraço, desgosto, mágoa ou qualquer repugnância no eleitorado que, esse sim, ao contrário do adversário que apenas faz figura de corpo presente, pretende alcançar, mover, comover ou abraçar. O verdadeiro debate não é, portanto, um debate, mas sim dois comícios onde, à vez, e fingindo conversar, regatear ou rebater, cada qual, com mais ou menos engenho, procura “fazer passar a sua mensagem”. Daí que se debata pouco e esclareça menos ainda, ou seja, nada.

O equilíbrio nos próprios pés é, portanto, mais importante do que verdadeiramente contundir o adversário — é que naquele ringue estão também todos os outros concorrentes que, após os comentários dos especialistas, usarão os golpes de cada interveniente para seu proveito próprio. Ora, falar bem, asseverar, garantir, acalmar, tudo isso é importante, mas desde que não se deixe o proverbial traseiro entalado em posição demasiado fixa ou comprometedora: há que ser fluído, mas não demais; ser e não ser a favor, mas sendo em parte a favor e noutra contra; condenando “firmemente”, mas apoiando naquilo que foi “bem-feito”; no fundo, mal e bem-dizer, mas sem falar — é fino, muito fino, o arame do trapezista.

Tudo porque o presidente “de todos os portugueses” é, ou imaginava-se que deveria ser, a epítome da neutralidade, da superioridade moral e ética face à disputa e trica comezinha, ao ruído partidário, àquela arena sórdida e emporcalhada onde a política se faz, mas acima da qual alegadamente paira, como um balão cheio de si. Isto até que o fossão Marcelo o furou. Esse, Marcelo, não pairou, pelo contrário, bem agarrado ao chão, correu, saltou, esperneou, rastejou, esfocinhou, sempre esfogueado, metendo os seus hiperactivos bedelhos em tudo o que mexia, ou tremia, no mistifório político-partidário. Daí que se tenha gerado um pequeno problema: do pináculo do ideário de neutralidade liberal acabou o presidente da república no actual quadro eleitoral como capataz da choldra, ou seja, por outros termos, o mestre-de-cerimónias do espectáculo circense.

Talvez desse modo se expliquem os 28 sofríveis combates de boxe. Perante a excitação que tomou conta da máquina partidária, não há partido, agremiação ou associação que, na ânsia do protagonismo garantido por tamanha exposição mediática, não apresente o “seu” candidato, ainda que tal aparição, forçada, obrigue a recauchutar em forma de proto-presidente da república o seu maior hit passado.

Assim, (não) varia o menu das entradas, que é como quem diz daqueles que correm supostamente apenas na primeira volta. Do bloco, esse anacronismo moribundo que, em estertor de pré-extinção, continua mexendo apesar de vazio de qualquer ideia, função ou forma de vida inteligente, ressuscitou-se uma antiga actriz, falhada de profissão, mas que conduziu a agremiação durante anos, esse sim o seu único papel com algum módico sucesso, senão político, pelo menos pessoal na medida em que lhe garantiu a proverbial reforma bruxelense, remunerada apenas ao nível da mais altíssima burguesia. E assim, quanto mais não seja para justificar as faturas gastas na fina restauração da Place du Luxembourg, corre a ex-actriz — veja-se por onde já se esvai o “bloco” — achando que segurar 2 ou 3% da votação justifica tamanha pena, sacrifício e carbono emitido em tanta viagem de avião.

Por outro lado, o PCP, é perito nestas andanças, afinal anda a candidatar-se apenas para marcar território já há mais de 20 anos. Aliás, ademais de gerir o património adquirido durante o PREC, pouco mais o PCP faz por estes dias além de urinar pelos cantos dos seus domínios avisando a concorrência que por ali há dono. Feito senhor capitalista, burguês e senhorio imobiliário, sobra agora pouco tempo para a política. Daí, e dado o hábito de correr porque assim tem que ser, tornada a função numa espécie de especialização da moderníssima ultra-profissionalização partidária, torna-se irrelevante o candidato destilado do colectivo pós-marxista — é António Filipe, mas onde António fala, respira e escreve, escreve, respira e fala todo o partido. É assim no PCP, muda-se o cabeça de lista, mas perpetua-se a estrutura e, independentemente do cargo, que nem fidalgo arruinado, crê-se que a rotinada farsa dá para os gastos enquanto houver vinho velho na cave e os telhados não caírem. Já faltou mais.

O mesmo fez a IL, outrora o auto-proclamado exemplo maior da renovação política, hoje o zingamocho da militância político-partidária que, pejado de “lealdade interna”, mas em nome dos mais elevados princípios políticos — eles é que são os “verdadeiros” liberais —, se procura alçar para os mais diversos cargos. Feitas as contas, não sobra mais ninguém para justificar o espaço eleitoral que imaginam poder representar além de Cotrim. Este, naturalmente, agradece a reverência e, lá está, não se incomoda nada de, em primeira classe, na TAP e ao custo do erário público alemão, vir semanalmente vender o futuro e o progresso aos portugueses com a sapiência, modernidade e actualidade que, detendo em abundância, descortina como estando em falta nos arrabaldes portugueses. Já no arrabalde do arrabalde, fora da corte provinciana, no chamado “país real”, ninguém sabe quem ele é, correndo-se o risco de se perder tamanha contribuição para a salvação nacional num vazio de irrelevância.

Já o Livre, esse, tinha que ser diferente para manter o seu maior trunfo eleitoral na  peleja interna da esquerda portuguesa — i.e.: dizer que é diferente. Foi assim que se arriscou a apoiar Seguro, candidato do PS alegadamente independente, quando este ficou em segundo nas “primárias” desse partido, umas centenas de votos aquém de se tornar na nova incarnação de Joacine Katar-Moreira, apenas que em versão não gaga, caucasiana, masculina — tal qual o líder do partido Tavares, apenas que com gravata. Talvez fosse, portanto, demasiado exagero, vai daí que, fruto da sua enorme notoriedade, excelência política e grandes possibilidades de vitória, foi o deputado Pinto que roubou a nomeação, espalhando agora magia esquerdista pós-moderna por todos os palcos que o recebam, ainda que a primeira pergunta que lhe seja feita seja invariavelmente acerca de qual o seu nome próprio: Jorge? Ricardo? Rui? Ninguém sabe verdadeiramente.

Sobra, para mal dos nossos pecados, o menu principal, ou seja, aqueles que tencionam “passar” os grupos e ir à fase do mata-mata. Aí, a coisa fia mais fino. Primeiro, à direita, o eterno candidato Ventura que promete mudar o regime, acabar com a corrupção, pôr um fim ao desperdício e garantir o impossível: que Portugal não se torne no Bangladesh. Forte nos ensejos, fica por perceber como se propõe Ventura a alcançá-los, ainda para mais quando passa a maior parte do tempo na TV a debater adversários, a trucidar comentadores, a desfazer entrevistadores, a estilhaçar jornalistas, a “arrasar” quem quer que, a soldo mediático e audiência garantida, lhe queira fazer frente: seja um jornalista, qualquer dia o Undertaker e, quem sabe, no futuro, um elefante do jardim zoológico. No final, fica por perceber como exactamente um presidente de um partido — líder da oposição, já agora — candidato a presidente da república se propõe, em ganhando, a implementar a quarta república em Portugal — e no que consiste tal revolução. Por Ventura, apenas nele votando se desfaz o mistério, quem quiser arriscar o salto no vazio, faça o favor.

Ar mesmo revolucionário prometia o famigerado Almirante Melo: farda, voz grossa, comando forte e o utópico ideal próprio dos homens de armas que, muito para além do espesso, hermético, manto de escuridão que é o tempo, farejam e vislumbram, na gloriosa luta contra adversários e desafios transcendentais, o doce sabor da vitória — no caso, fito-sanitária, despachando injeções a todo e qualquer incauto com batimento cardíaco, fosse a favor ou contra a sua vontade. Se nessa nobre arte de distribuidor logístico se fez o senhor mestre — que é como quem diz cumpriu o que lhe era pedido —, já como político a coisa não correu tão bem: aparecendo pela direita, vendo o espaço ocupado, guinou ao centro numa espécie de reconversão da geometria rigorosa de Freitas do Amaral, isto para, vendo a coisa de novo ocupada, se acabar a fixar como o herdeiro de Mário Soares. Com tanta troca e baldroca exigia-se, ao mínimo, a argúcia política de Soares e a consistência intelectual de Freitas. Já a realidade, madrasta, revelou-nos a inversa: tem o Almirante a astúcia de Freitas e a profundidade de Soares — ou seja, mostra-se agora ao mundo como um calhau, pesadíssimo, que afunda consigo todo um projecto político que, durante mais de um ano, sonhou com o poder a partir de Belém.

Sobram, finalmente, dois bonecos que, atirando ao centro, se imaginam como os companheiros de segunda volta de Ventura e, por essa razão, futuros presidentes: à direita, Marques Mendes, o eterno administrador de dezenas de empresas, aquele que Isaltino, seu ex-amigo, sem pudor, descreveu como um facilitador de negócios. Mas, pior que isso, foi o caminho que o próprio escolheu: já desde os anos 90, aí enquanto boneco pequenino — daqueles sem direito a mão por dentro, com apenas dois paus que lhe seguravam os bracinhos enquanto exclamava “ganda nóia chefe” —, eterno acólito de Marcelo, depois como seu substituto a soprar recados e recomendar livros aos Domingos na TV, Mendes sai prejudicado por um mal maior do qual o país padece: exaustão de marcelite aguda, uma condição terrível que lhe corta as vazas, bem como qualquer fogacho de autenticidade.

À esquerda, para “salvar a democracia”, chamando a si todos os “humanistas”, “democratas” e “progressistas” — ouvindo este termo já vou a correr no final da rua —, vem Tózé, o candidato Seguro, que tem como maiores vantagens ser, por um lado, renegado pelo PS e, pelo outro, tolerado pela direita que não quer desperdiçar votos e ter que escolher numa segunda volta entre Ventura e o almirante Melo. Fiel intérprete da homilia politicamente correcta, moderada, do diálogo, do compromisso, eis concorrendo contra o sucedâneo pronto-a-vestir do marcelismo a imagem antípoda de Marcelo — assim uma espécie de candidato modelo, Seguro, tradicional, um vazio que se afirma pela negação daquilo que há. No fim, a estratégia é simples: tentar não assustar ninguém.

Esquecendo os prognósticos próprios dos cartomantes do regime, a corrida está bem aberta e, quem sabe, surpresas nos esperam ao virar da esquina. Já para quem olha de fora o circo montado, sobra apenas uma ideia: o conforto adormecido de quem sabe que, sucedendo o futuro presidente a Marcelo, qualquer um destes candidatos assegura um bem mínimo fundamental — não é Marcelo. Assim, quem quiser comprar bilhete para o circo que faça bom proveito. Já quem não quiser, que fique em casa, ou vá passear descansado, alegre e livremente alienado face ao desenlace da telenovela — afinal, tal como com o palhaço brasileiro Tiririca, “pior que está não fica”.