Vejo, com frequência cada vez maior, pessoas profundamente perdidas. Não tanto por  ignorância genuína, mas por uma espécie de desorientação voluntária, sobretudo entre  aquelas que ocupam palcos sociais — digitais ou mediáticos — e opinam com leveza  sobre assuntos que exigem gravidade.

Ultimamente, esse fenómeno tornou-se evidente nas conversas em torno do Conclave.  Mas o problema não está apenas no desconhecimento das regras ou do simbolismo. Vai  mais fundo: muitos nem sequer sabem o que é, de facto, a Igreja Católica. Como funciona.  O que representa. E, pior ainda, não querem saber. Preferem opinar com firmeza sobre o  que nunca procuraram compreender.

Uma breve pesquisa, ou melhor, uma leitura atenta dos documentos que nos regem,  bastaria para esclarecer muitas dúvidas. Mas isso implicaria um esforço que parece, para  muitos, dispensável. E assim se vai espalhando a desinformação — não por acidente, mas  quase por militância.

Neste breve texto, pretendo esclarecer o essencial. Falar do que sabemos sobre o  Conclave. Do que devemos saber, enquanto leigos católicos — membros não de uma  democracia, mas de um Reino que é terreno mas espiritual. E ainda, afastar as categorias  inúteis com que tantos tentam politizar a fé: conservadores, progressistas… rótulos que  pouco ou nada interessam a quem caminha com Cristo.

A constituição Universi Dominici Gregis, de São João Paulo II, estabelece que, após o  falecimento do Papa, se observe um período de nove dias de luto. É esse tempo que  vivemos agora, enquanto estas linhas são escritas. Depois disso, começa o interregnum — tempo entre reinados, entre dois pontificados. Um tempo de silêncio, de espera, de  oração.

Mais tarde, com Bento XVI, surgem as Normas Nonnullas, que nos dizem que, desde a  Sé vacante, os cardeais têm no máximo vinte dias para se reunirem e elegerem um novo  papa. Sabemos já que esse Conclave começará a 7 de maio.

Mas, afinal, o que é o Conclave? A palavra vem do latim cum clavis — “com chave”. A  imagem é clara: os cardeais são fechados a chave para ouvirem a vontade do Espírito  Santo sem interferências externas. O Conclave é, portanto, mais do que um processo  eleitoral. É uma escuta. Uma obediência. Um abandono confiado à ação divina.

E é isso que tantos não entendem. Nem querem entender. Porque o que esperam é um  espetáculo político, um jogo de forças entre alas, fações, preferências ideológicas. Mas o  Espírito sopra onde quer, e não se deixa prender por esquemas humanos. A Igreja não é  uma arena. É um corpo. E o Conclave, no seu silêncio orante, é um dos momentos mais  sublimes desse corpo em discernimento.

É curioso — ou talvez apenas triste — ver o modo como certos padres, sobretudo em  Espanha e em Itália, são hoje chamados a participar em programas de comentariado, onde  lhes é pedido que opinem, que falem, que “esclareçam”. E eles vão. Com coragem,  sabendo de antemão que, se falarem a verdade, não voltarão a ser convidados. Porque há  verdades que não se toleram nos círculos onde o ruído vale mais do que a razão.

Ainda assim, alguns têm a ousadia serena de dizer o que é necessário: sim, há diferenças  de estilo, de enfoque pastoral, de prioridades humanas e contextuais. Mas a doutrina da  Igreja não muda. Nunca mudou. E não mudará.

Mesmo assim, continua-se a insistir em leituras políticas. A confundir espiritualidade com  ideologia. Diz-se — com uma confiança assente na ignorância — que o Papa Francisco  foi um papa progressista. Um revolucionário. Uma rutura. Não. O Papa Francisco foi (e  é, pois, enquanto viveu, deixou legado) um jesuíta na Cátedra de Pedro. Um homem de  fé profunda, de gestos simples, que adorou o Senhor com despojamento e ternura. Nada  disso é subversão. É tradição encarnada de outra forma.

Mas — atenção, senhores comentadores, cronistas ateus e agnósticos de ocasião,  progressistas de rótulo gasto — caso não tenham notado, Francisco foi contra o aborto,  contra o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, contra a eutanásia e contra o  sacerdócio feminino. O vosso “papa progressista” manteve firme a doutrina. Porque não  é ele quem a muda. Porque ninguém a muda. A Igreja não é um laboratório de  experiências sociais.

E agora? Agora, aqueles que tremem com a mera ideia de um novo pontificado — porque  compreendem, ainda que não confessem, o poder espiritual e a influência perene da Igreja  — começam a rezar (ou a torcer, que é o modo secular de rezar) por um papa luterano  militante, um anglicano promíscuo com pendor para a heresia folclórica, um caricatural  cortador de cabeças fascistas imaginários e de bacocos saudosistas, talvez até um  ecumenista de feira, desses que vendem doutrina a retalho e distribuem sacramentos como  quem dá brindes num festival woke. Querem uma figura moldável, politizável,  domesticável. Sonham, em vão, com um anti-Pedro.

Para os católicos, o caminho é outro. No tempo de luto e até ao dia 7 de maio, como pediu  o Papa Francisco, reza-se por ele. Reza-se pelo Papa, pela sua alma, pelo seu descanso e  pelo seu legado. E pela Sé Vacante, esse tempo sagrado de espera e de silêncio fecundo.

Depois disso, não se esqueçam dele nas orações. Mas rezem pelo Conclave. Rezem pelos  cardeais que se fecharão, cum clavis, com a chave da escuta, na busca humilde pela  vontade de Deus. Rezem para que o Espírito Santo os ilumine. Para que o próximo  sucessor de Pedro não agrade ao mundo, mas conduza a Igreja. Com firmeza. Com fé.  Com fidelidade. Com humildade.

Como disse o Cardeal Timothy Dolan, quando lhe perguntaram o que procuraria no novo  papa: “O coração caloroso de Francisco… com, hmmm, como direi?, mais clareza no  ensinamento, mais refinamento da tradição da Igreja, mais aprofundamento nos tesouros  do passado”.