O Jesuíno, sobrinho do Cónego Jeremias, licenciou-se em jornalismo e começou agora a trabalhar, como estagiário, na redacção de um meio de comunicação dito de referência. Antes, contudo, de se iniciar no exercício da profissão, foi pedir a bênção ao seu venerável tio e, também, alguns conselhos para a sua vida profissional.
– Como o tio sabe, já terminei o curso de jornalismo e vou agora estagiar.
– Parabéns e muitas felicidades! Do que precisas mesmo de saber é português, para escreveres e falares correctamente, o que nem sempre acontece com os jornalistas.
– E que me diz em relação às matérias – Economia, Direito, Sociologia, Psicologia, Antropologia, etc. – que estudei no curso?
– Pois olha, não ficaste perito em nenhuma delas, porque qualquer profissional dessas áreas sabe mais do que tu, que és apenas um especialista em generalidades, ou um generalista de especialidades.
– Então, como posso informar sobre esses temas?
– Basta que saibas ouvir quem sabe e tenhas a humildade de não opinar sobre o que não sabes. Os sábios sabem o que sabem e têm consciência do que não sabem; só os ignorantes é que, como não sabem nada, nem sequer são conscientes do que não sabem.
– Mas o que é mais importante para um jornalista?
– Deveria ser a verdade mas, de facto, a maioria dos media estão mais interessados em ser politicamente correctos e, por isso, em vez de informarem ou formarem, desinformam e formatam. Poucos são os jornalistas isentos e objectivos, como se vê no modo desigual como tratam as questões políticas e religiosas.
– Então, onde está a imparcialidade e objectividade dos media?
– Os meios de comunicação social não são neutros, mas expressão de um poder que, na realidade, não é democrático. Como sabes, um jornal, uma rádio ou um canal de televisão são caros e, portanto, quem os financia – seja o Governo, um partido político ou um grupo económico – quer retorno em termos económicos, sociais e políticos.
– E quem escrutina a comunicação social?
– Ninguém. Na quinta-feira passada, no Público, li esta pérola: “Há todos os dias milhares e milhares de portugueses a espumar de raiva e a enlouquecer enquanto falam com assistentes digitais”! Imagine-se: todos os dias, “milhares e milhares de portugueses” espumam de raiva e enlouquecem!!! No entanto, como os jornalistas gozam de impunidade, não são responsabilizados pelo que escrevem e ainda se acham no direito de duvidar de todos e de todos suspeitar e até acusar!
– Mas os media não são condição sine qua non da democracia?!
– Se a comunicação social fosse livre e independente, sem dúvida, mas não é o caso, nomeadamente no que respeita à Igreja.
– Talvez porque Portugal seja um país laico …
– A Constituição não o diz em lado nenhum, só a comunicação social!
– E o que entendem por laicismo?
– Ser contra a religião, sobretudo contra a católica, mas praticando um anticlericalismo soft: em geral, não dão notícias positivas sobre a Igreja, não porque as não haja – é o que mais há! –, mas para desacreditarem a instituição. Quando, no país inteiro, se organizam mais de uma dezena de marchas pela vida, nem uma palavra é dita!
– Mas também há notícias negativas sobre a Igreja, como a pedofilia …
– Sem dúvida e há que reconhecer o mérito da comunicação social em ter denunciado esse horrível drama que, infelizmente, era, por sistema, abafado. Mas os media só exploram estes crimes quando verificados na Igreja, sem se interessarem pelos abusos de menores onde mais os há: nas famílias, escolas, clubes desportivos, etc.
– Mas, pelo menos, podemo-nos alegrar por já não haver censura!
– Lá estás tu a ser ingénuo outra vez! Então não viste como a própria comunicação social se autocensura, só para ser politicamente correcta?! Aliás, não é novidade, porque, como agora, já assim era antes do 25 de Abril e durante o PREC.
– Quer exemplificar?
– Quando, há poucas semanas, houve desacatos entre duas famílias, não viste como a imprensa se acobardou de dizer a verdade, para não ser tida por racista?! É óbvio que, se um norueguês atacar uma mercearia em Chaves, é notícia a sua condição de nórdico, sem que esta menção seja xenófoba, mas essa referência seria prescindível se o assalto fosse feito por um natural da terra, seja ela Chaves ou Oslo. Se dois viseenses se envolverem numa luta em Viseu, não faz sentido referir a sua naturalidade, pois seria óbvia, mas não era esse o caso, como depois se veio a saber.
– Mas, agindo com esta discrição, não se está a impedir reacções racistas?
– É exactamente o contrário! A partir de agora, sempre que houver algum desacato, as pessoas vão pensar que estão envolvidas pessoas da etnia dessas duas famílias, o que é injusto e ofensivo. Ou seja: a omissão dessa menção é mais racista do que a sua referência, quando pertinente. Como diz a Escritura, é a verdade que nos faz livres, enquanto a mentira é a arma do diabo, que é assassino e mentiroso!
– Então, não se deve referir a identidade, ou etnia, de um alegado criminoso?
– Só não é politicamente correcto dizer-se que é nómada, imigrante ou de origem africana, mas, se for padre, podes e deves escarrapachar o seu nome e fotografia, os crimes de que é acusado, por mais inverosímeis que sejam, etc., na certeza de que nenhum jornalista, agente da autoridade, magistrado ou provedor de Justiça, se irá insurgir por essa violação dos mais elementares direitos humanos.
– Obrigado, tio, por tão bons conselhos!
– De nada, sobrinho, mas não são bons, embora úteis para que faças carreira no jornalismo e, depois, chegues a assessor de uma autarquia, do Governo ou, até, deputado! Não ganharás o Céu, mas, se seguires estas dicas, terás o mundo a teus pés.