Onze anos depois de ter trocado Lisboa por Paris – com a mesma leveza de quem muda de fato, mas com o peso de um país às costas -, José Sócrates regressa ao lugar que sempre jurou não lhe estar destinado: o banco dos réus. Um ex-primeiro-ministro em tribunal não é apenas um homem em julgamento: é uma era exposta à luz impiedosa dos autos.

Aquele que se quis o rosto moderno de um socialismo civilizado – europeu, urbano, polido – exibe agora em plenário uma versão sombria e crua de si mesmo: o pregador apocalíptico que denuncia conspirações, a vítima ungida que clama vingança divina, o mártir sem causa que recusa o silêncio.

Nada disto é acidental. Sócrates domina como poucos a gramática do poder, mesmo em queda. A retórica inflamada, os gestos estudados, o tom ofendido – tudo se articula numa coreografia precisa, pensada para transformar cada acusação num libelo contra a democracia, cada prova num delírio persecutório. Para ele, não há factos – apenas inimigos.

E, contudo, os factos existem, persistentes como pedras. As escutas, as transferências, o fausto inexplicável de quem foi sempre um funcionário público – todas essas evidências compõem uma biografia paralela, escrita não nos discursos, mas nos extratos bancários.

Diante delas, Sócrates oferece um argumento quase teológico: a sua verdade. Uma verdade que se proclama imaculada mesmo quando se suja de contradições; que se quer absoluta, mesmo quando escapa a cada pergunta. No segundo dia de julgamento – segundo dia! – já erguia, com ar triunfal, um papel que supostamente desfazia anos de investigação. É a velha arte do sofista: confundir, dispersar, transformar o tribunal num palco.

A estratégia não engana quem queira ver. Em vez de responder, acusa. Em vez de explicar, vocifera. Os magistrados são verdugos, os jornalistas são infames, os antigos aliados são traidores. Para quem se crê investido de uma missão histórica, todo o mundo se torna um complot.

E, no entanto, não é só Sócrates que está em julgamento. É um certo ideal de governação que nele encontrou o seu intérprete mais audaz. Um socialismo que prometeu rigor e transparência enquanto tolerava o compadrio; que se dizia moderno enquanto cultivava a opacidade; que invocava a ética pública enquanto a confundia com lealdade pessoal.

Foi nessa escola – a magna escola socialista portuguesa – que se formaram os discípulos que hoje se contorcem de constrangimento. António Costa, o herdeiro mais ilustre, esforça-se por manter distância sem desonrar o mestre, assim como uns tantos “Pedros Nunos”. Um malabarismo moral que revela, mais do que resolve, a herança incómoda.

Porque não se trata apenas de um homem corrompido, mas de um sistema que acreditou que a legitimidade democrática bastava para absolver todos os pecados. Um sistema que confundiu escrutínio com insulto, crítica com traição, poder com direito adquirido.

Por isso este julgamento importa. Não para humilhar Sócrates – ele parece, aliás, imune a essa emoção –, mas para lembrar que a justiça democrática não é um ornamento, mas uma exigência. Que os governantes respondem perante a lei como qualquer cidadão. Que a arrogância política não é virtude, mas vício.

No final, resta a imagem inescapável: o Reitor, outrora altivo, reduzido a pregador exasperado, repetindo uma fé que já ninguém partilha. Um monumento partido, que ainda se recusa a reconhecer as fissuras.

E nós, que assistimos, não devemos enganar-nos: esta não é apenas a queda de um homem. É o espelho que nos obriga a perguntar o que permitimos, o que tolerámos, o que fingimos não ver.

A aula acabou. Mas a lição — essa, convém não a esquecer.