Para a Filipa

Há culturas em que é mais arriscado pensar. Lugares do mundo em que é mais ousada a expressão da análise e do comentário independentes, mais difícil ser comentador ou jornalista assim, escrever sem ceder na liberdade de pensamento e de posição. Sociedades em que têm um preço maior a manifestação de consciência, a intervenção cívica, deveres do intelectual, tal como Sócrates os exigia e protagonizou e Platão, na Apologia de Sócrates, os fixou para a eternidade.

Culturas, tempos e lugares em que o despertar e incitar da consciência da cidade colocam no fio da navalha do fanatismo, da estupidez e do opróbrio quem ousar praticá-los.

Refiro-me a culturas, não a regimes; a mentalidades, à sociedade; ao juízo insidioso; não à intervenção censória ou policial de um Estado tirânico. Remeto para o que lhe está antes, mais fundo, terreno propicio para as vassalagens, a submissão, as tiranias.

Sociedades da desconfiança. No nosso querido Portugal, no modus próprio dos nossos brandos costumes, continuamos num lugar e num tempo desses, que também entre nós devia ser já aberrante. Vivemos numa cultura assim, no vazio de confiança. Confiança que é condição do desenvolvimento das sociedades e do progresso humano, presos no registo persistente da tradição de inquisições recorrentes que tivemos. Um fenómeno que as redes sociais revelam hoje sem disfarce e com efeitos ainda mais devastadores

Pergunta retórica: sabendo-se o custo que se tem de pagar pela procura e a expressão sem cedências da verdade deve-se desistir? Ou resistir?

A resposta mais expressiva deu-a, entre alguns outros, também aos jornalistas e comentadores, Albert Camus, num tempo e circunstâncias incomparavelmente mais difíceis. Camus que considerava a verdade mais importante do que a liberdade. Que sofreu o estigma e o insulto por essa procura da verdade, pela liberdade de “homem revoltado”. Por não ter traído a consciência e a cidade. Como Sócrates.

Natacha Polony, em número recente da revista Marianne num texto em que assinala os 70 anos da morte de Camus, recorda como o império e o domínio soviético e a ideologia que veiculava ofereceram então aos que de má fé serviram a sua mentira medonha “a oportunidade para saciarem o apetite de poder”, impondo na França e por ela na Europa e a nós, a tirania do pensamento totalitário. Pensamento de que entre nós desastrosamente ainda sofremos os estertores. Depois dos anos 1990, com a queda do império soviético, “Camus começou a recuperar o estatuto que os zeladores de Sartre lhe haviam roubado. Mais ainda, tornou-se hoje referência desejada para um espectro intelectual de grande extensão, reivindicado ora como liberal, ora como social-democrata, de acordo com os interesses política e as conveniências ideológicas”.

E todavia, como bem diz NP, a grande singularidade de Albert Camus e da sua obra está na impossibilidade de poder ser usada, de o poderem usar, para qualquer cruzada política.

A procura da verdade que o obcecava e distinguia não deve, no entanto, como ele próprio escreveu, “impedir de fazer escolhas”, de assumir posições. Num texto de reflexão sobre o “jornalismo crítico”, publicado no jornal Combat, Camus lamenta que se queira “informar depressa, em vez de informar bem” e defende o “comentário critico político e moral sobre a actualidade” como uma das dimensões essenciais dum jornalismo que considerava dever ser exercício de humildade e de dúvida.

A enorme força dos textos de Camus que hoje plenamente se revela, a razão porque Sartre o odiava e lhe valeu estigmas e insultos foi a sua resistente desconfiança relativamente a todos os dogmas, à ilusão dos radicalismos, “a repugnância pela ambição do poder daqueles que juravam combater todos os poderes”, a recusa sem cedência do pensamento totalitário.

É esse o apelo e o desafio políticos, cívicos e morais que a obra de Camus faz hoje não menos imperativamente aos cidadãos, muito particularmente aos intelectuais e com exigência igual aos comentadores e jornalistas.

“Através do amor proclamado pelo sol mediterrânico, pelo brilho do mar [como também Portugal tem a benção de ter], Camus teme e recusa firmemente as verdades absolutas, devoradoras sempre do destino e da vida de milhões de seres humanos. Prefere as “verdades singelas”, as conquistas humanas essenciais. “Porque entre a satisfação daqueles que conseguem sempre justificar a injustiça e as certezas morais por aquilo que são puras abstrações, é o amor dos seres humanos tais quais somos, nas nossas fraquezas e humanas aspirações, é esse amor que evita podermos ficar um dia do lado dos opressores”.

A obra e o exemplo de Albert Camus ensinam-nos a optar pela felicidade real, pelo bem concreto, possíveis e… “impossíveis” aqui e agora, em vez do preço de crime e sofrimento da promessa vã, da profecia dos “amanhãs que cantam”.