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Todos queremos viver mais e melhor. A longevidade é um fenómeno novo, considerando que cada vez se vive até mais tarde. Graças à medicina e às inovações tecnológicas, resistimos melhor a doenças noutros tempos fatais. Prevalece o estilo de vida, mais do que a carga genética, no sucesso da longevidade. Estudos mostram que uma pessoa sentir-se feliz pode contribuir para viver mais 18% em comparação às pessoas menos felizes com a sua vida. Os desgostos moem e matam (por exemplo, patologias de ansiedade e índices elevados de stress potenciam doenças cardíacas).

Assumir uma atitude positiva, em contraste com uma visão derrotista e pessimista, permite manter a genica para se viver bem. É importante adoptar tal postura para superar as dificuldades e crer num futuro promissor. Ter objectivos e planos a médio e longo prazo, fomenta manter um  estado desperto e de empenho. Isto reverte em sentimentos de realização e movimentos pró-activos.

Todavia, longevidade não é sinónimo de imortalidade. Para alguns é uma angústia não possuir  uma  omnipresença e omnipotência, face à vida. Mas tal desassossego deve ser internamente resolvido, pois a ambição em contornar a morte, mostram as histórias romanceadas, que não acaba bem. Lembremos a criação monstruosa de Frankenstein. Na sequência do jovem médico, curioso pela alquimia,  aspirar a descobrir a substância geradora de vida, sucedem-se perdas lamentadas, assassinatos. O conto de Honoré de Balzac, precisamente intitulado O Elixir da Longa Vida, numa versão de um Don Juan dissoluto e capaz de cometer parricídio para guardar para si o elixir da eternidade, mostra-nos como tal ambição o transforma num monstro que acaba também por colapsar.

A fórmula da vida eterna retira a possibilidade do Homem viver a sua existência no aqui e agora e de se responsabilizar nas suas escolhas. Nietzche não se detinha na ideia de viver para sempre mas em viver a intensidade do momento.  No seu entendimento, a eternidade era o eterno retorno, o movimento cíclico da humanidade… Viver a ideia de eternidade poderá somente ser integrada numa perspectiva religiosa, em que seremos eternos quando um dia unos numa vida transcendente.

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Filosofias à parte, o elixir de uma longa vida pode ser equiparado à luminescência do pavio que vai ardendo com vigor até se apagar. O alumiar realçará os contornos de uma vida inteira. A matéria que origina e alimenta essa vida será sem dúvida o amor, os bons instantes, os bons vínculos, objectivamente, e sem lamechices, falando. A capacidade de tecer e sustentar relações saudáveis nas diferentes esferas da vida é de extrema importância no processo de envelhecimento. A maturidade que se atinge no acumular de uma longa vida possibilita ultrapassar e superar os sentimentos humanos de rivalidade e inveja, evocando Melanie Klein, ilustre psicanalista pós freudiana. Afinal, só é possível aceitar bem a velhice e a percepção da longa vida passada, quando se é capaz de saborear os prazeres dos outros, o mesmo que dizer a juventude dos outros, com um sentimento de realização e obra feita, legado capaz de se passar. E tal, não implica ficar passivo a assistir, pois a continuação de uma actividade, o sentir-se ligado aos outros e a si, permite reconhecer o sentido de vida, do viver. É benéfico sempre fazer, ad eternum, uso da criatividade. E, como dizia Camus, criar é viver duas vezes.

anaeduardoribeiro@sapo.pt