O ódio intenso dedicado por boa parte do aparelho e das elites do PS contra António José Seguro é um caso que merece ser estudado. Por qualquer indicador objectivo, Seguro parece ser neste momento o melhor candidato que o centro-esquerda pode apresentar às próximas eleições presidenciais mas, simultaneamente, parece ser também o candidato mais odiado no interior do próprio aparelho do PS.

Uma sondagem da Universidade Católica divulgada em Abril confirmava que António José Seguro era o candidato da área do PS melhor colocado para disputar as presidenciais, sendo que apenas o Almirante Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes apresentavam melhores resultados potenciais do que Seguro.

“O CESOP apresentou nove nomes aos participantes na sondagem e foi Gouveia e Melo quem se destacou: 62% admitiram votar no almirante, que ainda não anunciou a sua candidatura às presidenciais. Luís Marques Mendes surge em segundo lugar, com 44%, seguido de António José Seguro (33%), António Vitorino (27%), André Ventura (19%), Catarina Martins (17%), Mariana Leitão (15%), Sampaio da Nóvoa (13%) e Paulo Raimundo (8%).”

Talvez mais relevante ainda do que o resultado de António José Seguro em termos de voto potencial é, na mesma sondagem da Católica, a sua comparativamente baixa taxa de rejeição entre o eleitorado, que o coloca uma vez mais como claramente o candidato com mais possibilidades na área do PS, possivelmente por ser aquele cujo perfil maior potencial tem para apelar ao centro e até a parte do centro-direita:

“Quando questionados sobre em que nomes não votarão de certeza, Paulo Raimundo liderou a lista, com 85% dos inquiridos a recusarem votar no líder comunista. André Ventura foi o segundo mais escolhido, com 79% a responderem que não votarão de certeza no presidente do Chega. Seguiu-se Catarina Martins (77%), Mariana Leitão e Sampaio da Nóvoa (ambos com 76%), António Vitorino (64%), António José Seguro (57%), Luís Marques Mendes (51%) e Gouveia e Melo (30%).”

Mais recentemente, uma sondagem da Intercampus reforça a ideia de que Seguro será hoje, por larga margem, o mais forte candidato presidencial na área do PS:

“O socialista António José Seguro, oficialmente candidato a Belém, aparece agora em terceiro lugar (com 11%, também regista uma subida em relação ao último barómetro, onde surgia com 7,7%), ultrapassando André Ventura, que entretanto travou a anunciada candidatura a Belém, mas ainda sem uma posição fechada. (…) Desta vez, não é considerado o nome de António Vitorino na lista de candidatos à Presidência da República — que em Março recolhia 5,6% das intenções de voto —, surgindo apenas no segmento de “qual seria o melhor candidato presidencial para o PS”. António José Seguro é quem reúne mais intenções de voto (25,8%), seguindo-se Vitorino (15,3%), Ana Gomes (12,5%) e Augusto Santos Silva (8,1%).”

Aos bons dados nas sondagens, acresce a disponibilidade atempadamente manifestada por António José Seguro, assim como o seu perfil sensato e moderado. Um perfil que aliás evidenciou também depois de ter sido vítima do oportunismo político de António Costa na forma como se remeteu ao silêncio agindo de forma leal para com o líder do PS que o afastou de forma pouco edificante. Essa postura não foi no entanto suficiente para evitar que Seguro seja odiado por boa parte dos costistas, muitos dos quais tentaram aliás empurrar António Vitorino para uma candidatura. Vitorino sabiamente decidiu ter demasiado a perder para se expor numas presidenciais que dificilmente ganharia, mas nem depois do anúncio de que não seria candidato a hostilidade contra Seguro abrandou. Aliás pelo contrário: Seguro consegue reunir contra si não só o costismo, mas também a ala esquerda mais radical do PS, que sob a liderança de Pedro Nuno Santos conduziu o partido à crise existencial que agora atravessa.

Com Vitorino fora da corrida, eis que surge agora a ameaça de uma candidatura presidencial de Augusto Santos Silva. Uma candidatura que só faz sentido na lógica de tentar dividir o espaço socialista e prejudicar o mais possível as possibilidades de António José Seguro ter um bom resultado. De facto, nas actuais condições, lançar uma segunda candidatura na área do PS teria como principal efeito previsível reduzir as possibilidades de Seguro passar a uma eventual segunda volta. Um cenário que seria sempre difícil ,mas que Seguro, pelo seu perfil e pelos seus níveis comparativamente baixos de rejeição junto do eleitorado, estaria provavelmente melhor capacitado para enfrentar do que qualquer outro potencial candidato do mesmo espaço político.

De tudo isto fica a ideia de que o medo por parte do aparelho do PS não é que a candidatura de António José Seguro possa correr mal (não seria aliás a primeira vez que o candidato oficialmente apoiado pelo PS teria um resultado desolador em presidenciais) mas sim que a mesma possa correr bem. Se tal porventura acontecer – e mesmo não sendo eleito Presidente – Seguro pode ter um papel importante a desempenhar no futuro do PS e parece ser isso que boa parte das elites do PS mais temem.

O ódio dirigido contra António José Seguro parece ter como principal motivação o facto de, em vários temas importantes, ele ter tido razão antes do tempo. Acima de tudo, o PS não perdoa a António José Seguro ser diferente daquilo em que o PS, lamentavelmente, se tornou.