O teatro e a realidade cruzam-se muitas vezes, fazendo da visita de Carlos III de Inglaterra a Washington a pantomina perfeita de uma cerimónia antecipada: o representante titular de um império que nunca assumiu ser império, a discursar no templo da república que um dia se libertou desse mesmo império, a pedir-lhe que continuasse a ser o guarda-costas armado de uma arquitetura financeira e geopolítica centrada na Cidade de Londres. Foi, como alguém disse com a frontalidade que só a verdade permite, um funeral muito bonito. Um daqueles funerais em que, por respeito ao defunto, ninguém diz o que realmente pensa.

Perceber o que se passou em Washington exige recuar no tempo, não décadas, mas séculos. A Grã-Bretanha foi, ao longo dos últimos trezentos anos, a mais sofisticada máquina de poder oculto que o mundo moderno conheceu. Não o poder dos exércitos que marcham a descoberto, pois esse é o poder dos ingénuos e dos que não têm outro. O poder britânico foi sempre o poder das redes, das finanças, da narrativa, da infiltração. O poder de convencer o mundo de que a sua hegemonia era, na verdade, a ordem natural das coisas. De que o livre-comércio que defendia era universal quando era, de facto, o sistema que melhor servia o capital instalado em Londres. De que as guerras que financiava eram conflitos regionais quando eram, invariavelmente, instrumentos de uma estratégia de longo prazo.

A Rules-Based International Order, a expressão que Carlos III invocou no Congresso americano com a solenidade de quem recita uma oração, não é, nem nunca foi, uma ordem de regras universais. É a arquitetura jurídica, financeira e institucional que a Grã-Bretanha e os seus mais próximos construíram depois de 1945 para perpetuar, sob nova roupagem, o mesmo sistema de dependências e hierarquias que o velho colonialismo mantinha pela força das armas. A diferença é que agora se chama FMI, Banco Mundial, City of London, SWIFT, entre uma constelação de organizações com nomes bonitos e agendas muito precisas. A força das armas ficou subcontratada, aos americanos, pois claro.

É neste contexto que o discurso de Carlos III deveria ser tido em conta: não como um gesto diplomático cordial de um monarca constitucional sem poderes reais, mas como um sinal de socorro de um sistema que sente o chão a ceder-lhe sob os pés. Carlos invocou o Artigo 5 da NATO para manter viva a guerra na Ucrânia. Defendeu os pesos e contrapesos (checks and balances) como forma de disciplinar o executivo americano. Encerrou com aquela frase reveladora: “A Natureza é o meu Deus”, oferecendo ao culto climático a sua bênção real. Numa única alocução, o Rei tentou reanimar três pilares da ordem que servem muito bem a Londres: a dependência militar europeia, o enquadramento jurídico que limita a soberania dos estados, e a agenda verde que desindustrializa o Ocidente.

E os Democratas, esses mesmos que há quatro meses marchavam sob a bandeira “No Kings”, levantaram-se em ovação. Talvez nenhum momento desta visita tenha sido mais revelador: a esquerda americana, que se apresenta como guardiã da república contra o autoritarismo, a aplaudir de pé o representante hereditário de uma monarquia imperial. Porque no fundo, o segredo que ninguém quer mencionar, a esquerda globalista e a ordem financeira britânica partilham o mesmo adversário: o Estado-nação soberano e o povo que ousa decidir o seu próprio destino sem pedir licença a ninguém.

A história da relação britânica com os Estados Unidos é uma história de instrumentalização continuada, e quem duvidar, devemos recuar a 1861. A Grã-Bretanha apoiou a Confederação com mantimentos, com munições, com logística a partir de Toronto e com navios construídos nos seus estaleiros. Não por simpatia pelos valores sulistas, mas porque uma América dividida e enfraquecida era uma América que não ameaçaria a hegemonia britânica sobre o comércio atlântico. Lincoln sabia-o. Por isso a sua política económica, os altos impostos protecionistas, o investimento público em infraestruturas, a criação do Sistema Americano de Hamilton, tão ameaçadora para Londres quanto os seus exércitos o eram para Richmond. McKinley, décadas depois, repetiria o padrão: a América que ele queria construir era uma América que mandava em si própria, que não precisava de capital britânico para se financiar nem de mercados londrinos para vender. Ambos pagaram o preço mais elevado, que não cabe no âmbito deste artigo mas que o padrão histórico torna difícil ignorar.

Enquanto o Rei discursava, Trump telefonava a Putin, noventa minutos, provavelmente a desenhar o mundo que vem a seguir. Enquanto Carlos pedia a continuação da guerra em nome da ordem baseada em regras, o Presidente negociava o seu fim. Enquanto o representante do velho mundo tentava preservar a arquitetura que mantém a Cidade de Londres no centro do sistema financeiro global, o homem que o recebia com soldados da Guerra da Revolução Americana e uma estátua de Benjamin Franklin deixava a mensagem sem ambiguidade: a América lembra-se de onde veio. E de quem, ao longo de dois séculos, a quis impedir de ser o que é.

Carlos III não veio a Washington para estreitar laços. Veio pedir socorro. O Rei de um reino que se imagina ainda império, o representante de uma ordem que confunde a sua própria sobrevivência com a estabilidade do mundo, a implorar que o grande aliado atlântico não abandone o posto que lhe foi atribuído. Trump recebeu-o com toda a cortesia que se deve a um hóspede ilustre. E depois voltou para o telefone.

Foi, em todos os sentidos, um funeral muito bonito. Com flores, com fanfarra, com as formalidades todas. O defunto estava muito bem apresentado. Mas estava morto na mesma.

Viva La Libertad Carajo!