O corpo martirizado pela fome provocada por Israel do bebé Mohammed Zakaria al-Mutawaq em 2025 sucede-se à tragédia de Huda Ghalia, a menina palestiniana que em 2006 chorava a sua família morta pela explosão duma bomba israelita, quando fazia um pic-nic na praia, ou à agonia de Muhammad al-Durrah, o rapaz que em 2000 morreu nos braços do seu pai baleado por soldados israelitas … Em todos estes casos temos crianças no meio de um sofrimento intolerável causado, dizem-nos, pela brutalidade israelita. Estas três capas daquele que é um dos jornais mais influentes do mundo ilustram esses momentos do genocídio da razão, em que se tornou impossível continuar a defender Israel.
Todos estes casos foram seguidos de ondas de indignação internacional que levaram, eufemisticamente falando, a um maior apoio à causa palestiniana, aos refugiados palestinianos e aos territórios palestinianos (apoio esse que se traduziu invariavelmente em fortes benefícios para movimentos como o Hamas e a Jihad).
Em todos estes casos era verdade o que se via — o corpo de Mohammed Zakaria al-Mutawaq ao colo da sua mãe apresenta óbvios sinais de sofrimento; Huda Ghalia perdeu de facto a sua família numa explosão numa praia de Gaza e Muhammad al-Durrah e o pai estão cercados por balas. Mas em todos estes casos as notícias deram lugar à propaganda: as balas disparadas sobre Muhammad al-Durrah e o seu pai muito provavelmente não foram disparadas por tropas israelitas mas sim por palestinianos. Documentários e investigações têm analisado o que aconteceu naquele tiroteio, mas quando as perguntas começaram a ser feitas já tinha começado a segunda intifada, já se imprimiam selos com a imagem da criança agonizante e até se vieram a pintar murais em que os soldados de Israel apontam directamente para a cabeça do pai e do filho.
O mesmo se passa com a origem da bomba que matou a família de Huda Ghalia: num primeiro momento a culpa de Israel era óbvia e inquestionável. Quando começaram a chegar os relatórios a questionar essa versão já era tarde para contrariar a narrativa mediática da orfã-mártir (Huda Ghalia voltou agora a ser notícia, com a sua morte às mãos dos soldados israelitas a ser anunciada para depois ser desmentida). E chegando ao caso mais recente, o do bebé Mohammed Zakaria al-Mutawaq, é indiscutível que sofre de uma doença genética que se agravou com a situação vivida em Gaza, mas as marcas do seu corpo não são o resultado da fome, como muitos quiseram acreditar e sobretudo impor que se acreditasse. (Bastava olhar para as mãos da mãe que segura Mohammed Zakaria al-Mutawaq ou para a criança que noutras fotos surge ao seu lado e que Israel afirma ser seu irmão para perceber a manipulação com o genocídio pela fome que está a ter lugar).
Cada uma destas imagens invariavelmente repetida à exaustão gera um efeito também ele invariável: o sofrimento de cada uma destas crianças-mártir começa e acaba em Israel e por Israel. Já não há Hamas, nem Jihad, nem sequer essa entidade fantástica que é o Ministério da Saúde do governo de Gaza. Resta apenas aquela massa humana esfomeada e desorientada num cenário apocalíptico. Em nenhum outro conflito se assiste a este apagamento-desresponsabilização de quem detém o poder. Convém recordar que não só o Hamas mantém em seu poder, em Gaza, 50 reféns israelitas, como avisou os promotores do reconhecimento do estado da Palestina que recusa desarmar-se. A este apagamento-desresponsabilização das lideranças do Hamas corresponde uma hiper visibilidade-responsabilização dos dirigentes israelitas. Em 2025, a centralidade da culpa está em Benjamin Netanyahu, e é agora consensual que se este radical de direita não fosse primeiro-ministro tudo seria diferente. Obviamente muito seria diferente mas não necessariamente o que se supõe: em 2006, quando Huda Ghalia se arrastava pela areia chamando pelo pai, não só era primeiro-ministro de Israel o centrista Ehud Olmert, que governava entre outros com os Trabalhistas, como os israelitas tinham saído de Gaza no ano anterior. E em 2000, quando Muhammad al-Durrah se agarra ao pai para escapar das balas, o primeiro-ministro era o socialista Ehud Barak.
Acossado no terreno, o terrorismo islâmico venceu no Ocidente a guerra não tanto do que se pensa mas sobretudo do que se pode dizer. O mundo ocidental não combate mas comove-se. Dêem-lhe um mártir e ele indigna-se. Das universidades às redacções, dos concertos às palestras, o activismo pela Palestina assemelha-se a um transe de virtude.
O genocídio pela fome em Gaza é a mais recente mas não a última de uma longa série de manipulações mediáticas, que se renovam com crescente vigor, como se o desmontar de cada dessas manipulações apenas servisse para acrescentar o entusiasmo em torno da seguinte. E a seguinte, ou uma das seguintes, interpela-nos directamente: a intenção expressa por vários países, entre os quais Portugal, de virem a reconhecer um estado palestiniano vai traduzir-se em quê? Note-se: um conjunto de países que nunca conseguiram sequer assegurar que a ajuda que prestavam aos palestinianos chegasse efectivamente a estes e não fosse desviada pelos movimentos terroristas, pretende agora reconhecer um estado palestiniano. Quais são as responsabilidades que esses patrocinadores do novo estado vão assumir? Que protocolos e compromissos vão ser firmados? E com quem? Temos o direito de saber. E a necessidade também. Porque um dia podemos estar no lugar de Israel, o do genocídio da razão.