Aprendemos muito no ano de 2020. Desde a importância da ciência, ao impacto positivo, tantas vezes silencioso, dos planos de vacinação, ou como lidar com uma crise pandémica a nível global. O conceito “global” tornou-se, talvez como nunca, literal: todas as sociedades e economias do mundo foram afetadas, ainda que com graus diferentes.

Na semana em que se iniciou a vacinação na Europa, podemos, finalmente, começar a olhar em frente, e procurar respostas para os enormes desafios que virão. De entre os inúmeros planos estratégicos, o Fórum Económico Mundial (FEM) apresentou o “O Grande Recomeço” (tradução livre do Inglês “The Great Reset”).

Nesta proposta, o FEM elenca os três vetores que devem orientar a política social e económica dos próximos anos. Em primeiro lugar, o mercado deve estar orientado para a concretização de resultados mais justos. Dependendo do país, tal pode incluir mudanças nos impostos sobre a riqueza, a retirada dos subsídios aos combustíveis fósseis ou novas regras que regem a propriedade intelectual, o comércio e a concorrência.

Em segundo lugar, garantir que os investimentos contribuem para as metas e objetivos globais partilhados entre países, a vários níveis, como de igualdade e sustentabilidade. Neste âmbito, os programas de investimento em larga escala que muitos governos estão a implementar representam uma grande oportunidade de progresso. A Comissão Europeia, por exemplo, revelou planos para um fundo de recuperação de 750 mil milhões de euros. Os EUA, China e Japão também têm planos ambiciosos de estímulo económico. Nos Estados Unidos, por exemplo, desenha-se um estímulo de 2 mil dólares por pessoa, e –  espante-se – tem o atual presidente Donald Trump e os Democratas a lutar pela sua aprovação, contra a maioria republicana.

A terceira e última prioridade da agenda do “Grande Recomeço” é potenciar as inovações da Quarta Revolução Industrial para apoiar o bem público, especialmente para responder aos desafios sociais e de saúde. Durante a crise da Covid-19, empresas, universidades e outros organismos uniram forças para desenvolver diagnósticos, terapêuticas e possíveis vacinas, estabelecer centros de teste, criar mecanismos para rastrear infeções, e entregar telemedicina. Imagine o que seria possível se fossem feitos esforços semelhantes em todos os setores.

Estes vetores já estão ligados a vários projetos no UpLink – uma comunidade aberta que procura e promove soluções para a concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

A União Europeia, que nos últimos anos foi questionada por tantos e posta à prova com desafios como o Brexit, escândalos financeiros como o Lux Leaks ou derivas autoritárias de alguns membros, tornou tangível o seu impacto. O seu leviatã burocrático, afinal, pode ser ultrapassado quando a necessidade assim o exige. Este recomeço é também o momento para a UE repensar a forma como comunica o seu impacto nas sociedades, demonstrando como pode responder a crises de forma concertada, rápida e equitativa.

Em torno de planos ambiciosos, há sempre muita hesitação e dúvidas, como em relação a este agora proposto pelo Fórum, “O Grande Recomeço”, ou até mesmo o Plano Costa e SIlva ou o Green New Deal. Este questionamento é legítimo: os planos são sempre mais fáceis de escrever do que executar. Mas talvez seja a expectativa que está errada: o seu propósito é também de fomentar o debate na sociedade, de serem desconstruídos, melhorados, dando uma estrutura e ambição estratégica aos desafios e possíveis respostas.

Este pode ser um “grande recomeço” também para Portugal – um momento para um debate construtivo de ideias e não uma mera procura de inevitáveis falhas e inconsistências nos planos dos outros, o que dá sempre menos trabalho do que pensar construtivamente sobre eles.

Tenhamos uma visão para os próximos anos e comecemos o debate.

Daniel Araújo é o actual curador do Hub de Lisboa dos Global Shapers. Tecnologia ao serviço do desenvolvimento. Individual, corporativo ou mesmo social. Daniel iniciou a carreira na Google em Dublin no ano de 2010, mudou-se para Londres em 2011 como Analista de Dados. Voltou a Portugal em 2015 para lançar uma empresa chamada Attentive – uma plataforma de inteligência para equipas de vendas – que tinha clientes em quatro continentes, uma equipa de 20 pessoas e levantou mais de 1,5 milhões de euros de investidores nacionais e internacionais.  Atualmente, faz parte da equipa da OutSystems na área de produto, onde a visão de colocar a melhor tecnologia nas mãos de mais pessoas está mais clara do que nunca.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.