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Há doze dias um homem, Maqsood Khan, de 20 anos, foi morto por um tigre num jardim zoológico de Nova Deli, Índia. O vídeo com a gravação corre há algum tempo na Internet – no Youtube é fácil de encontrar – e tornou-se, naturalmente, viral. Não é todos os dias que os ávidos consumidores de sensações fortes que somos têm a possibilidade de assistir à morte real de uma pessoa comida por um animal selvagem.

Mandíbulas da morte: este, ou outros títulos do género, serviram para a comunicação social abrir a notícia um pouco por todo o lado. Um tigre comeu um homem na Índia, foi outra das frases choques que correu mundo. E internautas de todas as partes saciaram a curiosidade com as imagens do longo suspense e da consequente morte do jovem indiano.

Resuma-se o evento: Khan, aparentemente com problemas mentais, segundo a família (ou simplesmente bêbado), terá tentado passar as barreiras que levam ao recinto dos tigres, sendo repelido uma ou outra vez pelo guarda no local, antes de lograr o seu intento. Ficou depois vários minutos – entre 10 a 15, segundo as notícias -, face ao tigre branco adulto, um belo animal com mais de 200 kilos. Os visitantes que assistiam à cena gritaram, atiraram pedras e paus numa tentativa vã de afastar o bicho; outros preferiram filmar a cena com os telemóveis.

São longos os minutos durante os quais o jovem Maqsood encara Vijay, o tigre. A cena evoca o livro de Yann Martel “A vida de Pi” e sobretudo o filme que pôs em imagens a história da convivência impossível entre um jovem e um tigre, mas o desfecho deste episódio, conhecido de antemão, não permite ilusões. Maqsood Khan implora pela vida, ergue e baixa as mãos unidas, enquanto o animal se aproxima e afasta dele, cheira-o, hesita, olha para os lados, estica uma pata e encolhe-a, hesita de novo. Parece curioso. No vídeo percebe-se a vibração do momento, as exclamações de horror excitado, o ambiente de circo. O golpe fatal acaba por acontecer, seja porque o tigre se irritou com os gritos dos espectadores, seja porque os gestos da vítima o enervaram, seja porque as pedras e os paus o espicaçaram, seja afinal e apenas por se tratar de um animal selvagem. O corpo de Maqsood, seguro pelo pescoço nos dentes de Vijay, é de seguida arrastado até um canto distante onde finalmente o tigre o deposita; aí fica longo tempo inerte, mas nem aí escapa ao olhar vigilante dos telemóveis.

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Os funcionários do zoológico disseram, primeiro, que o jovem estava bêbado (versão um) e que era um alienado mental em tratamento (versão 2). Depois explicaram não terem podido utilizar as armas com tranquilizantes por “falta de tempo para as organizar”; parece lógico, sabendo-se que as ditas armas estavam a uns distantes 100 metros do local da tragédia.

Não sei se o episódio e tudo o que o rodeia demonstram a cada vez menor humanidade dos humanos, a nossa intrínseca e sempre presente estupidez ou se é, simplesmente, um reflexo de uma sociedade cada vez mais virtual – em que o real já mais não é do que uma dimensão da fantasia em que mergulhamos com cada vez maior convicção, tanto mais envolvidos quanto maior o grau de alienação, violência, escatologia ou simplesmente ausência de valores humanistas, de respeito pelo outro e pela vida em si mesma.

Na sordidez da sua crueza, a cena foi servida em tempo e com profusão via Internet. Tudo começa, na verdade, nas câmaras incrustadas em telemóveis a gravar segundo a segundo a confrontação entre homem e fera, a morte ao vivo e o arrastar do corpo dantes humano pelas pedras do recinto – lar de Vijay. O tigre não comeu o jovem Maqsood (limitou-se a matá-lo), fomos todos nós que nos apropriámos sofregamente do episódio para alimentar o nosso crescente “voyeurismo” e assim fizemos de Vijay vítima da sua vítima (e de nós todos).

Os responsáveis do jardim zoológico de Nova Deli falharam por incompetência, ao não serem capazes de criar condições para impossibilitar a transposição das barreiras que separam animais de visitantes; falharam por incúria ao não organizar em poucos minutos uma equipa de resgate armada de espingardas com tranquilizantes que salvasse a vida de Maqsood Khan; falharam por estupidez e falta de senso ao deixar o corpo inerte do jovem num canto do recinto à vista do olho implacável dos telemóveis durante mais de uma hora. Falharam.

Mas também falharam por insensatez os que assistiram ao vivo, excitando o tigre com pedras e paus, sem perceber que cada projétil aumentava a excitação do animal e condenava a vítima. Falharam os que se entretiveram a filmar a cena segundo a segundo, persistindo muito para além da morte, perseguindo o objectivo, o animal e a sua presa morta, exangue, boneco de trapos num corpo dantes palpitante. Falharam por desumanidade esses mesmos cineastas de telemóvel ao colocar os vídeos na net, quando podiam simplesmente tê-los entregado às autoridades para que estas pudessem entender o que se passara e tirar conclusões. Falharam.

Finalmente falhámos todos nós, a começar por mim. Porque avidamente procurámos as imagens no youtube, visionámo-las quando nos chegaram via facebook, porque as partilhámos e comentámos, sempre com sensatez e humanidade: “que horror”; “como é possível?!!!” – assim mesmo, com exclamações -, “a força da natureza” (!!!, as exclamações são minhas). Falhámos pela incapacidade de verdadeiramente interiorizar a tragédia a que assistimos, contemplando-a como se de ficção se tratasse, uma ficção real: sobre um corpo triste de papel, lágrimas de crocodilo. Falhámos de facto à nossa própria condição de humanos.

Este episódio é um fortíssimo alerta para a deriva que vivemos, fascinados por um mundo virtual que devora a nossa concreta humanidade. Futebol sempre (e eu que adoro futebol), reality shows e violência em doses massivas, a lei dos grandes números, celebridades vazias e a omnipresença dos jogos, playstations, ipads e contra isso nada podemos (as nossas crianças alienadas a jogar à mesa, a jogar na escola, a jogar na vida), virtual realidade que nos envolve e devora, como o tigre Vijay, perfeita metáfora para um mundo sem referências. Desumano.

Resta saber se ainda vamos a tempo para retroceder, ou se, ao abraçarmos sem regras todas as tecnologias nas suas consequências, retrogradamos na estrada da civilização. Não se trata de as rejeitar, entenda-se, o que seria um disparate, mas de as utilizar com regras, aquelas que a nossa natureza, o nosso conhecimento, a nossa cultura, devia saber e poder impor-lhes. É só isso: sermos donos e não servos dos nossos gadgets.

Olhem em vosso redor ao almoço, num café, num espectáculo, na rua, e reparem quantos humanos já deixaram de contemplar os outros humanos, seus irmãos, para viver mergulhados em ecrãs onde, plasmado, contemplam um virtual futuro perdido.