Seja qual for a cor que se tenha, por dentro, o coração é vermelho. E os pulmões arfam, esbaforidos, de forma semelhante. As dores, as de barriga e as outras, com mais ou menos sobressalto, são parecidas. E as lágrimas, todas elas, são gotas de água que caminham, cara abaixo, à procura de um gesto pequenino que as acolha. Por dentro, somos iguais!
É por isso revoltante que, com uma frequência que me espanta, seja confrontado com histórias de violação. Uma enorme maioria delas por parte de mulheres. Por dentro, somos iguais. Numa dor como esta nem por isso.
O que mais dói, em cada uma delas, é a forma silenciosa e solitária como a guardam. Corroídas pela vergonha. Aflitas por serem segregadas, ou apontadas ou canceladas; por mais que sejam unicamente vítimas. Só vítimas! Consumidas por uma culpa que as vai carcomindo e as persegue e atormenta e afugenta. Tudo por não terem reagido, ou gritado ou fugido. Só porque, afinal, o medo, quando é enorme, paralisa e mata, silenciosamente, aos bocadinhos.
Uma violação conspurca o amor por aí adiante. E o pior de tudo não é tanto a violação em si, mas um desmoronar que, depois dela, se arrasta vida adentro. Feito com a desconfiança e a desolação que a todos se alastra. E com a sensação de que, por causa disso, se percam as pessoas a quem não se confie essa dor, porque o seu amor é só à condição. Mais as pessoas de quem se espera que a entendam mas que, de forma encolhida, decepcionam ou reagem com pequenos despeitos. Ou com aversão. E nojo, até.
Uma violação empurra para que se imagine que, a partir daí, as pessoas que amem quem foi violado o façam por amparo. Ou por pena. Ou compaixão. Não é bem um amor: é um consolo. E o pior, ainda, é que tudo as empurra para uma sexualidade que não pode ser vivida com desinibição ou liberdade (porque esse estar descontraído pode ser interpretado como se se fosse fácil ou volúvel). O que faz com que ela se resuma à submissão e à passividade, sempre inquinadas por um silêncio de dívida, que se agradece, por mais que, emboscada, a violação, como um anátema que espreita, possa ser arremassada, a qualquer momento.
Por dentro, somos iguais. Numa dor como esta, somos só sós. E diferentes.