Os dias sucedem-se com subidas e descidas significativas nos índices bolsistas de quase todo o mundo. As tarifas aduaneiras estabelecidas, adiadas, excecionadas, ou de novo restabelecidas pela administração americana, acompanhadas pelas retaliações dos países que as sofreram, animam os telejornais e desanimam os atores económicos. Os índices variam como numa montanha-russa, sendo imprevisível o dia de amanhã.

A aplicação de tarifas a produtos importados tem um problema de falta de simetria: se a reação dos parceiros comerciais for a de aplicar tarifas retaliatórias o problema em vez de se amenizar, agrava-se cada vez mais. As tecnológicas americanas, que são o alvo óbvio e fácil da retaliação, sofreram uma queda significativa de valor e, mesmo a Tesla não sairá ilesa da crise das tarifas, como consequência da mistura pouco cautelosa entre empresas e política, e da dependência numa cadeia de produção globalizada.

As decisões da administração americana assentam em eleições democráticas e, independentemente das sondagens que indicam alguma desilusão, correspondem a uma estratégia sufragada pelos eleitores americanos que, adotando a ótica de alguns pensadores conservadores, procura obrigar a que o investimento e a produção de bens e serviços se faça essencialmente dentro de portas, apostando numa espécie de capitalismo nacional.

Pretende-se assim contrariar os efeitos que a globalização está a ter na estrutura produtiva industrial americana, e na relação entre capital e trabalho. A justificação é que a deslocalização do investimento para fora das fronteiras, aliada ao mercado livre e aberto, estará a destruir os mecanismos da “mão invisível” tão famosa entre os economistas liberais, e impede a manutenção dos equilíbrios necessários ao equilíbrio social, à estabilidade económica e ao desenvolvimento. Como sempre vale a pena ouvir os argumentos do outro lado, e é curioso notar que alguns deles têm pontos comuns com os defendidos pelos antiglobalistas do lado esquerdo do espetro político.

Os promotores de produtos e serviços globais como as empresas americanas de tecnologias de informação, como a Apple, a Google, a Microsoft ou a Amazon, criaram soluções que todos conhecemos, muitos utilizamos, e que são vistas como casos de sucesso. A indústria automóvel americana integrou a sua cadeia de produção com unidades instaladas nos países vizinhos. Apesar de a intenção da administração ser a de forçar a “americanização” destes produtos ou serviços, eles dificilmente subsistem a um sistema económico condicionado pelos limites geográficos de um país, que restringe as cadeias de produção multinacionais, e reduz o impacto das plataformas de comércio global.

Serão as vantagens destes produtos e serviços inferiores aos problemas que geram? A integração das cadeias de produção está por detrás do crescimento imparável da capacidade manifestada pela China em todas as áreas de inovação industrial?

A estratégia comercial da administração americana foi também acompanhada por um conjunto de medidas avulsas destinadas a combater a cultura do “politicamente correto”. Algumas decisões são óbvias como as da limitação do hastear de bandeiras nos edifícios públicos às que representam o País ou o Estado, mas noutros casos assistimos à defesa pública de posições claramente anticientíficas, ou mesmo idiotas como no caso das vacinas, ou ainda à negação serôdia da mudança climática. Tal está a criar profundas divisões e muita apreensão no sistema académico e científico americano. Lembremo-nos de que também a cultura “woke” procurou responder a um conjunto de problemas reais de discriminação, mas a forma desastrada como o fez, criou os anticorpos que a estão a destruir. Penso que estamos numa situação parecida, se bem que de sinal contrário, e não sei se há tempo suficiente para corrigir os excessos desnecessários.

As Universidades americanas são desde há muitas décadas os mais importantes produtores de conhecimento do mundo. As melhores sempre se afastaram das conivências corporativas e abriram-se ao exterior, criando grupos de investigação ímpares e atraindo talentos de todo o mundo. A sensação de que o sistema académico americano é visto como inimigo da administração tem um grande potencial destruidor. No quadro europeu, a atração de grandes nomes do sistema científico americano já estará a ser equacionada, mas não estou certo de que seja a União Europeia a integrar e financiar estas equipas.

Não devemos negar a existência do conjunto de problemas que faz mover uma parte da direita política americana, mas a forma como o está a fazer não promove confiança. Ao retirar-se unilateralmente do mundo criado pela Organização Mundial do Comércio, arriscamo-nos a que a rede comercial seja restabelecida deixando de fora os Estados Unidos. Esta retirada é acompanhada pela redução drástica do financiamento americano a muitos organismos promotores do desenvolvimento e da cooperação internacional, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Apesar dos excessos “wokistas”, relatados abundantemente pela comunicação social, este esforço vai fazer muita falta.

Um movimento cuja motivação principal seria reforçar a posição americana no mundo está a criar os espaços vazios que serão ocupados por quem tenha a vontade e os meios para o fazer. Naturalmente, a China irá ocupar uma parte muito importante deste espaço. Da União Europeia espera-se também que o faça. Disse Aristóteles que a natureza tem horror ao vazio. A política global também.