A recente tomada de posse de Donald Trump como 47.º Presidente dos Estados Unidos da América têm o potencial de transformar os moldes atuais do setor bancário.

Tendo baseado a sua campanha, no que respeita a políticas económicas, numa abordagem protecionista e de desregulamentação de diversos setores, poderemos nas próximas semanas ou meses, esperar que a aplicação destas medidas venha trazer um substancial impacto na realidade bancária com que lidamos diariamente.

A retórica Trump focou-se essencialmente em dois grandes pilares. Por um lado (i) o protecionismo económico; e, por outro, (ii) a desregulação de inúmeros setores que, de acordo com este, se encontram sufocados no desenvolvimento da sua atividade.

Protecionismo

Como a própria palavra nos indica, medidas protecionistas visão robustecer a economia americana em relação ao resto do mundo – onde, ainda que com dificuldade em consciencializar-se disso, se encontra a União Europeia – o que levará, por sua vez, ao fortalecimento da banca americana. Se esta dedução lógica poderia parecer indubitável há 100 anos, não o é de forma tão clara nos dias de hoje. A implementação de políticas protecionistas, sem mais, apesar de, no curto prazo, poder dinamizar a industria norte-americana, em específico a indústria financeira, poderá criar a disrupção dos ambientes internacionais, conduzindo, na long run, a um clima de tensões comerciais geradoras de incerteza, característica esta que é mestre em criar flutuações económicas e períodos de crise.

Nos dias que correm grande parte do sistema bancário mundial encontra-se interligado, pelo que qualquer abanão que ocorra num dos vértices deste implica consequências na ponta oposta. Mais ainda se o epicentro de tal abalo se localizar naquele que ainda é o coração financeiro do mundo, os Estados Unidas da América.

Desregulação

É hábito na área, com mais ou menos razão, dizer-se que “America Innovates, China Copies, Europe Regulates”. Ainda que extremamente redutora, a frase não deixa de ter a sua razão. Uma visão global da economia apelida classicamente à América (os EUA, em abono da verdade) a capacidade inventiva e dinamizadora que cria, inova e faz a economia avançar. Esta capacidade que começa nos sectores domésticos, por regra arrasta e contamina, de forma positiva, o resto do globo, espalhando os benefícios destas inovações aos restantes pontos cardiais.

A capacidade dinamizadora abordada acima depende de um ambiente que lhe seja propício, em palavra correntes, de um ambiente que não abafe a capacidade criativa. É precisamente neste ponto que a (des)regulação se demonstra chave. Ora, a desregulamentação é marca registada da administração Trump, tendo sido usada como arma de arremesso durante a campanha eleitoral, e defendida como uma forma de aplicar o princípio do “Drill, baby, drill” a todos os setores da América económica.

Especificamente no setor bancário, a redução da regulamentação sobre as instituições financeiras pode criar um ambiente mais favorável para os bancos, permitindo maior liberdade operacional e potencialmente estimulando o crescimento dos lucros, aliás, algo que já vimos acontecer nos últimos anos. Apesar disto, a desregulação do setor deve ser tomada cum grano salis uma vez que, como a história nos ensina, a falta de normas que balizem a atividade bancária pode ser o catalisador para práticas irresponsáveis, como a concessão excessiva de crédito (sobretudo a quem não tem capacidade de o pagar), a falta de transparência interna, entre outros fatores que, quando conjugados, podem ser capazes originar crises financeiras de substancial dimensão. Em suma, é essencial conseguir-se encontrar um equilíbrio que promova a inovação no setor sem comprometer a estabilidade que este pilar social deve ter.

Todas estas mudanças, a par de outras já anunciadas e muitas por anunciar – onde se inserem, por mero exemplo, cortes de impostos e aumento dos gastos públicos – , representam uma mistura complexa de oportunidades e desafios que poderão levar a um balancear entre um crescimento económico despoletado pelo protecionismo acrescido da diminuição da regulamentação, por um lado, e por um esforço por manutenção da estabilidade financeira e da confiança dos consumidores, por outro.

Aguardemos pelas cenas dos próximos episódios com confiança de que a aplicação de medidas económicas certas nos possa trazer, aos EUA e ao restante globo, a continuação e, sobretudo, o reforço do período de crescimento que temos vista até ao momento.