Nos últimos dias, o espaço público encheu-se de “especialistas” que, ao estilo do engenheiro húngaro András Arató, opinam sobre aeronáutica, emergência médica, helicópteros, telhados e pilotagem. A recente controvérsia em torno dos quatro Black Hawk em fase de aquisição, destinados a cumprir missões de emergência médica, revela como ainda nos custa discutir assuntos estratégicos sem o ruído dos pequenos interesses – umas vezes legítimos, outras vezes, nem tanto.

Há muito defendo a concentração de meios e competências num modelo multifunções e de duplo uso (civil e militar), capaz de reduzir custos, elevar a operacionalidade e contrariar a sazonalidade. Decidi, por isso, escrever, não apenas para defender a compra dos quatro Black Hawk, mas para expor o racional desta opção.

Antes, porém, de apresentar as minhas razões, há que dizer sem reservas ou rodeios, que infantiliza e empobrece o debate a ideia de que há “equipamentos que não servem”, ou que alguém nesta discussão está “absolutamente” certo ou “errado”. A tentação de reduzir escolhas estratégicas a rótulos morais, como se um Airbus ou um Merlin fossem perfeitos, e tudo o resto fosse de desprezar, é próprio de um país pobre onde não se faz uma gestão correta da capacidade instalada e dos meios. Não tenham dúvidas: há uma panóplia de equipamentos aptos a prosseguir as missões de emergência médica, uns farão mais “barulho”, outros menos, uns terão mais espaço de cabine, outros serão mais acessíveis nas suas portas laterais ou traseira, mas todos, se bem operados e mantidos, cumprem com eficácia as suas missões. Neste particular, os Black Hawk fazem parte dos equipamentos de asa rotativa mais utilizados em operações de emergência, pelo que servem, sem problemas de maior, para as missões para os quais estão a ser adquiridos.

Pelo que consegui confirmar, a escolha dos Black Hawk não atende apenas à competência que possam ter no cumprimento das missões de emergência médica. Se estivéssemos a adquirir apenas equipamentos para esse efeito, num mundo sem prazos de entrega, formação de pilotos, e cadeias logísticas de peças e manutenção, não tenho dúvidas em eleger os Airbus H145 como sendo equipamentos altamente competitivos, quiçá, até, os mais adequados: pegada compacta, baixo ruído, apropriado para heliportos hospitalares e zonas apertadas, acesso 360º à cabine clínica, com espaço muito menor que os Black Hawk, mas mesmo assim, suficiente, boa performance nas operações noturnas. A opção pelos H145 ou por uma versão mais barata, como os H135, ou até mesmo pelo AW169, fica, porém, fragilizada quando se avaliam outros fatores, seguramente essenciais para a que terá sido a decisão final.

Há vários anos que defendo que a Força Aérea deve privilegiar nas suas aquisições, equipamentos competitivos e multifunções. Depois de anos de hesitações e de erros graves na contratação de meios aéreos a empresas “tarefeiras”, é positivo perceber que poderá estar em curso uma inflexão para a criação de capacidade estável nesta matéria. Num país com meios escassos, é fundamental dispor de uma plataforma de meios com uma vocação o mais ampla possível. Que aumente, nas missões tidas como sendo de soberania, a operacionalidade dos meios, e reduza a dependência do Estado português de contratações de meios privados em ciclos de curto prazo. Ora nesse contexto, os Black Hawk são, em concreto, uma escolha acertada, na medida em que cobrem com grande amplitude, missões que são hoje críticas para a soberania nacional – incêndios, evacuação médica e transporte aéreo. Uma vez que a Força Aérea já dispõe deste tipo de equipamento para o combate a incêndios, a compra de mais quatro helicópteros Black Hawk favorece o reforço no curto prazo deste centro de competências, permitindo-lhe ainda que esteja ativo todo o ano, mitigando a sazonalidade das missões. A escala numa célula comum dá coerência à formação, encurta o tempo de obtenção das qualificações necessárias, estabiliza a manutenção, dá escala às linhas de peças e engenharia já estabelecidas, e assegura redundância operacional: quando uma aeronave entra em inspeção, manutenção ou avaria, as que permanecem podem, em situações críticas, cobrir as missões mais urgentes. Acresce que a compra de equipamentos alternativos ao Black Hawk, nesta fase, implicaria prazos mais dilatados de entrega, necessidade de organizar ao nível da Força Aérea, novas linhas de formação, capacitação, e cadeias de fornecimento de peças e manutenção. Implicaria – fazendo fé nas palavras do ministro da defesa, Nuno Melo – a perda do financiamento do PRR que suporta a aquisição.

Não havendo equipamentos “perfeitos”, há que dizer que, sejam Black Hawk, H145, H135, ou AW169, o que fará funcionar a emergência médica não é a marca do helicóptero adquirido, mas o planeamento e execução da operação. Portugal sofre de uma doença crónica, chamada “desorganização”. Os meios aéreos, por muito bons que sejam, não fazem milagres. Portanto, se o INEM e os seus representantes sindicais estão preocupados com a emergência médica, o que têm de fazer é, de uma vez por todas, focarem-se na organização, porque no plano orçamental e de recursos, o país tem feito um grande esfoço no reforço da dotação de meios financeiros do INEM, sem que isso se traduza em resultados palpáveis.

Os quatro helicópteros agora anunciados não resolvem, por si, os problemas complexos dos meios aéreos na emergência médica. Agora, tendo em atenção os milhões de euros que o país aloca ao helitransporte e à emergência médica, com os fracos resultados conhecidos, talvez seja hora de se debater, no espaço público, se não teremos mais resultados, com menores custos, e com mais transparência, se em vez de termos uma gestão baseada em contratações casuísticas reforçarmos a plataforma operacional da Força Aérea.

Porque, afinal, o que está em causa é perceber quem é capaz de salvar mais vidas.