O PSD sempre disse ser o Partido mais português de Portugal. É possível que hoje, com o notório regresso do trabalho à centralidade do seu discurso, reforce esse título e o comparta com a Iniciativa Liberal já que o trabalho é o tema que mais a define.
O país tem cerca de 1.6 milhões de empresas ativas. Em 2024, segundo o Pordata, Portugal tinha cerca de quatro milhões de trabalhadores por conta de outrem, destes 754 mil são funcionários públicos, 724 mil trabalhadores por conta própria, incluindo este número 241 mil trabalhadores por conta própria como empregadores e 483 mil isolados. No primeiro trimestre deste ano, Portugal tinha cerca de 5.2 milhões de pessoas no ativo e pode chegar ainda em 2025 aos 3 milhões de pensionistas.
Há uma grande massa cujo objetivo é realizar os sonhos e suprir as necessidades da sua vida e da sua família à custa do seu trabalho e não à espera de subsídio ou prestação social.
E há outra grande massa cujo objetivo é envelhecer dignamente depois de uma vida de trabalho.
“Só queremos que nos deixem trabalhar, que não atrapalhem”, é uma frase muito ouvida pelos políticos em visitas a empresas.
Foi isto que a esquerda esqueceu. Uma das lições que a tirar desta crise política é a contínua preponderância do trabalho nas nossas vidas. É possível que tenhamos menorizado este aspeto já que na pandemia e nas guerras a sobrevivência se sobrepõe a tudo, mas o trabalho é omnipresente.
Pedro Nuno Santos não percebeu, quando diz que o país precisa de mudar de ciclo, que o país já entrou num ciclo novo. Deixou o PS e a esquerda lá atrás há apenas um ano, e com eles as memórias da pandemia, da sobrevivência, dos serviços a rebentarem, das reformas inexistentes e de uma maioria paralisada. Agora queremos viver outra vez e reconstruir as condições para o fazermos bem e em paz. Há um limite para quanto discurso dos bichos papões e da desgraça podemos aguentar.
E, convenhamos, o líder do PS é, neste momento, uma caricatura do seu próprio discurso.
Que dizer de Mariana Mortágua? Que não pode saber o que diz quando vai ao Porto, de todos os lugares!, dizer que a direita não sabe o que é o trabalho. Qualquer trabalhadora com quem ela andou no autocarro às cinco da manhã tem mais em comum com Luís Montenegro do que alguma vez terá com a líder do Bloco.
A Política, dizia Ricardo Salgado, é um custo de contexto. Outra grande lição a tirar desta crise política é que, para uma grande maioria de nós, é exatamente assim. Ao poder político cabe criar as condições para que possamos trabalhar e viver a nossa vida da melhor maneira possível. Para a grande fatia que vota do centro à direita, e que hoje é maioritária em Portugal, esta é uma parte central do contrato social. E a AD e a IL têm-se posicionado exatamente aí, nessa situação em que os eleitores os percebem como pretendendo criar essas condições, e muitas delas exigem grandes reformas, e tentando reduzir significativamente os efeitos negativos do que implica governar um Estado.
Uma parte importante do programa da AD tem impacto nos trabalhadores e pensionistas – de qualquer maneira está sempre relacionado com trabalho atual, ou uma vida inteira de trabalho passado – : reduzir o IRS em 2 mil milhões de euros, 500 milhões já em 2025, baixando a carga fiscal sobre os rendimentos, em especial para a classe média e estimular a poupança, subir o salário mínimo para 1100 euros e o médio para dois mil; concluir a revisão de carreiras da função pública até 2027, reconhecer o mérito e qualificação, e apostar em prémios de desempenho. Para os pensionistas, garantir que têm rendimentos de 870 euros, aumentando o complemento solidário para idosos e isentando totalmente a compra de medicamentos;
E nas empresas, com a redução gradual do IRC até 17% e 15% para as PME, a simplificação fiscal, a aceleração da justiça administrativa e fiscal, o reforço dos apoios às empresas no contexto das tensões internacionais, os investimentos nos territórios do Interior, a desburocratização, a garantia que o Estado paga os seus compromissos num prazo de 30 dias e que os serviços públicos decidem os processos dos cidadãos e empresas dentro dos prazos legais.
A IL também tem um dos seus eixos neste campo económico e fiscal: quer evitar legislação a mais, mudar o paradigma dos licenciamentos, reduzir os custos de contexto, lá está, e reforçar a confiança no Estado; a redução do IRS, com simplificação dos escalões e eliminação de taxas adicionais e a redução do IRC em 5 pp até final de legislatura ao ritmo de 2pp por ano; a eliminação da Derrama e Tributações Autónomas até 2030; a promoção da inovação e do crescimento empresarial; um Orçamento público em tempo real, com total transparência e rastreabilidade da despesa.
Criar riqueza, para distribuir riqueza e assim manter também o Estado Social.
Simultaneamente, promover toda uma envolvente – acesso a uma boa saúde e educação, a habitação – a IL tem propostas interessantes de baixar impostos sobre rendas de 25% para 15%, tornando o arrendamento mais atrativo, reduzir o IVA da construção de 23% para 6%, aqui acompanhando a AD – simplificar toda a legislação num Código Único do Arrendamento – e transportes, suporte aos cuidadores, um país seguro, pronto para se defender, perfeitamente integrado na comunidade internacional, transparência, em que público e privados concorrem para que exista esse Estado que permite que as nossas vidas se desenvolvam.
Tem a IL melhores quadros que o PSD?
Não. O PSD não pode ter com a IL o mesmo complexo de inferioridade totalmente injustificado que nos parecia afligir em relação ao CDS. O mediatismo de um grupo pequeno, é só isso: mediatismo. É mais fácil tê-lo num grupo pequeno, é um instrumento de sobrevivência. Em eleições, que são o core business dos partidos políticos, já vimos quanto vale.
O PSD, que tem de tudo, tem também dos melhores quadros, reformistas, com mais formação e experiência da Política Portuguesa.
Olha-se para os partidos maiores com algum desdém, mas convém lembrar que o partido que fundaram Sá Carneiro e Pinto Balsemão foi o PSD.
E o que tem a Iniciativa Liberal?
Tem necessidade de ter poder para mostrar o que consegue entregar e que o que entrega funciona.
Neste período, não tem vícios, nem está assolada por todos os escândalos e contemplações que um partido grande e de poder num país tão diferente de Norte a Sul acarreta, e isso é importante. Obviamente tem um programa político mais liberal. Tem maturidade e capacidade de trabalho, pessoas que fazem pela vida sem medo. Esta imagem de self made comparte-a com Luís Montenegro. É uma alternativa para quem está cansado de ver sempre os mesmos a fazer Política, e não convém menosprezar os efeitos dela na nossa vida. É a prova de que o elevador social existe e pode funcionar, no sentido de que é possível furar o sistema político sem padrinhos nem origem nos seus circuitos habituais e fazer profissionalmente Política. Traz, portanto, consigo, uma novidade e uma esperança que apela aos mais novos, aos mais inconformados ou menos instalados, d`entre eles muitos estudantes, empresários e profissionais jovens e de meia-idade, no pico da sua carreira profissional, não necessariamente mais urbanos, mas definitivamente mais cosmopolitas que também é uma forma de literacia.
O tracking poll da CNN Portugal dá conta que os eleitores que votaram AD nas últimas legislativas representam o maior grupo de indecisos neste momento. 9,5% dos que dizem ter apoiado Luís Montenegro no ano passado ainda não decidiram o seu voto a 18 de maio. Entres estes, a AD sabe que pode estar uma parte do seu habitual eleitorado que hoje olha para a Iniciatiiva Liberal como uma alternativa, ainda que finalmente possa não vir a votar nela e recaia na AD. E sabe que há um número ainda maior sedento de reformas que tornem Portugal num país moderno, onde se pode viver e crescer, e perfeitamente consciente da necessidade de regeneração da Política.
A curto e a médio prazo a IL entoará nas cabeças dos eleitores do centro e direita.
Se há uma hipótese, AD e a IL devem explorá-la para não perdermos o que acreditamos ser uma boa oportunidade. Ser o mais português de Portugal implica o trabalho de estar constantemente em sintonia com as portuguesas e os portugueses.