Já podemos contar em semanas a insurreição popular contra o regime islâmico do Irão. Em todo o território, envolvendo todas as classes sociais e grupos etários, a contestação explícita ao regime xiita desencadeou a resposta violenta do costume. É verdade que este é o quinto movimento de revolta interna no Irão desde 2011. Todos os anteriores terminaram numa onda de repressão levada a cabo pelo aparelho de terror do regime, sufocando todas as esperanças de mudança. Desta vez, porém, talvez seja diferente.
Ao contrário dos momentos anteriores, que, em geral, também foram despertados por crises económicas e financeiras, abundantes num país empobrecido pela revolução xiita, o Irão encontra-se hoje numa situação mais precária do que até há pouco tempo. O seu império de opressão xiita tem caído como peças de dominó. A decapitação do Hezbollah e do Hamas pelas forças israelitas; a queda de Bashar Assad na Síria, o seu íntimo aliado, e que permitira a colonização comandada pelo Irão do norte do seu território; a debilidade crescente do financiamento e operacionalização das milícias xiitas no Iraque, que têm controlado o país, colocando-o numa situação de dependência desde que os americanos tiveram a ideia genial de permitir a hegemonia sectária do xiismo no Iraque, chamando-lhe “democracia”; a degradação do poder de ameaça dos Hutis no Yemen; os ataques impunes de Israel e EUA às defesas anti-aéreas da República Islâmica e ao seu programa nuclear; finalmente, a queda de Maduro e o controlo americano da Venezuela, que põe fim a uma aliança pérfida, que tantos danos causou por múltiplas vias, desde o tráfico de droga até ao fortalecimento político da linha hostil ao Ocidente. Ora, no Médio Oriente, como as últimas décadas demonstram, a situação geopolítica tende a ditar a sorte dos regimes e da política interna.
Veremos em breve se os protestos trazem um novo começo para a empobrecida e oprimida sociedade iraniana, longe do fanatismo da República islâmica, ou se tudo termina em mais uma vitória do desespero. Mas o que se tornou evidente foi o indisfarçável incómodo da extrema-esquerda europeia com a luta dos iranianos pela sua liberdade. Tornou-se evidente que os chorosos apelos aos “direitos humanos”, as lancinantes defesas dos “direitos das mulheres” ou da livre expressão sexual, tão abundantes nas “micro-causas” ou quando Israel está envolvido, são puramente instrumentais na retórica política. A extrema-esquerda europeia está em silêncio agora, como esteve durante décadas, enquanto o Irão prende, tortura e executa os manifestantes. Tal como sempre manteve um reverente silêncio cúmplice enquanto o regime xiita violava toda a lista de direitos humanos, reduzia as mulheres à escravatura e condenava à morte homossexuais, em nome de uma ideologia religiosa medieval e totalitária. Tal como agora, todas as repressões podiam ser aceites desde que o Irão continuasse a jurar a morte dos EUA, do Ocidente e, claro de Israel. Todas as torturas seriam aceitáveis já que o Irão financiava e industriava os grupos terroristas que atacavam Israel todos os dias, e mantinha vivo o sonho do extermínio do Estado judaico no Médio Oriente. Todas iniquidades contra o modo de vida moderno e as suas emancipações podiam ser relativizadas enquanto o Irão tivesse aliados tão queridos à extrema-esquerda europeia, como Cuba e Venezuela, ou o Brasil de Lula, e liderassem a condenação em bloco do Ocidente por este continuar a existir.
Com efeito, é esse profundo ressentimento contra a sociedade burguesa ocidental, e contra os seus parceiros no mundo, como Israel, que motivam no coração endurecido da extrema-esquerda não só o eterno anseio pela revolução apocalíptica, mas também o seu enlevo pelas tiranias mais sanguinárias e pelos déspotas mais torcionários e corruptos. Já em 1979, a revolução xiita que derrubara o governo autocrático e modernizador do Xá Mohammad Reza Pahlavi fora apoiada pela extrema-esquerda europeia, representada pela sua maior luminária da época, Michel Foucault. Levado por uma infantil aspiração a transcender a “desespiritualização” da política burguesa ocidental, Foucault, ignorando os apelos das feministas iranianas que perceberam bem o que as esperava com o triunfo dos mullahs, apoiou o islamismo político totalitário. O pai intelectual dos movimentos emancipatórios da sexualidade ficou ao lado dos que haveriam de matar homossexuais e reduzir a mulher a uma serva do heteropatriarcado muçulmano.
Desde então as coisas não melhoraram. A aliança com o islamismo político na Europa e fora dela parece ser o único caminho que a extrema-esquerda encontrou para continuar a sua missão histórica de dissolução, mesmo que os fins concretos de uns e outros sejam absolutamente contraditórios. Aconteceu até que depois de a coligação revolucionária contra Reza Pahlavi, que juntou os fanáticos do islamismo xiita aos comunistas e social-democratas iranianos, ter sido bem sucedida na destruição da monarquia, seguiu-se a repressão e o extermínio pelos primeiros de todos os seus aliados. Foram eles as primeiríssimas vítimas do terrorismo islâmico com quem tinham conspirado para destruir o regime “lacaio” dos EUA e amigo de Israel. Pouco importa para a boa consciência da extrema-esquerda: a revolução mundial e o ódio ao Ocidente resolvem todas as contradições, dissolvem todas as interrogações.
É verdade que da extrema-esquerda europeia não há nada a esperar senão ressentimento, ódio e má-fé, que, por sua vez, trazem consigo a confiança secreta na violência redentora. Mas, como nos últimos anos, nas matérias decisivas, a desorientada esquerda democrática tem bebido no extremismo a resposta intelectual (ainda que não a prática) para as suas inquietações, os impasses permanecem e a hipocrisia também.