1 Um classicista na política
Enoch Powell é uma das figuras mais controversas da política britânica – e, provavelmente, o mais polémico de todos os conservadores até Margaret Tatcher – em resultado do seu discurso, de 1968, conhecido como “Rivers of blood”, que José Manuel Fernandes recordou recentemente. Para uns, é um herói com coragem para dizer a verdade; para outros, um vilão racista que procurou incendiar os ânimos. Mas o seu percurso político merece uma referência muito mais ampla do que esta polémica.
Em 1965, quando se candidata à liderança do Partido Conservador, Enoch Powell apresenta uma visão política para o país que ficaria conhecida como Powellism e que assentava na defesa, por um lado, do mercado livre e, por outro, da identidade britânica. Esta combinação entre capitalismo de mercado e nacionalismo é, na verdade, característica da “New Right” anglo-saxónica, que se distancia da Nova Direita mais continental – sobretudo inspirada na “Nouvelle Droite” francesa e Alain de Benoist – que liga a identidade nacional a uma crítica à ideologia capitalista. Foi esta visão política que tornou Powell desconfiado da influência norte-americana que, crescentemente, se fazia sentir no Reino Unido, e também que o levou a opor-se à adesão do Reino Unido à Comunidade Europeia e a criticar um estado demasiado intervencionista.
Por detrás destas ideias, encontra-se um intelectual brilhante e um renomado classicista. A sua precocidade era de tal ordem que os pais o tratavam por “Professor” quando tinha apenas três anos; aos catorze iniciou a sua tradução de Heródoto; e quando se tornou, dois anos mais cedo do que o normal, estudante de estudos clássicos, ganhou todos os prémios destinados aos alunos dessa área, algo que nunca tinha sido conseguido antes. Tornou-se professor de grego na Universidade de Sidney aos 25 anos, sendo nesse momento o professor mais novo de todo o império britânico, mas abandonou o lugar para participou na segunda guerra mundial. Tendo sido colocado na Índia, apaixonou-se de tal forma pelo país que decidiu enveredar pela vida política com a ambição de se tornar vice-rei desse território. A independência de 1947 abalou este objetivo, mas o seu percurso político já tinha sido iniciado: em 1950, foi eleito como MP por Wolverhampton e tornou-se uma das figuras mais relevantes do Partido Conservador até 1974.
Tatcher considerava-o o melhor parlamentar que tinha conhecido e muitas das ideias económicas de Powell inspiraram o seu governo. Mas a entrada do Reino Unido na CEE significava a perda de soberania, o fim do self-government e uma enorme ameaça à identidade britânica: era o momento de sair.
2 O discurso de 1968
Os detalhes da sua biografia encontram-se no denso livro publicado por Simon Heffer, Like the Roman: The Life of Enoch Powell (com um preço exorbitante para portugueses normais) em 1998, mas são muitos os livros que se debruçam sobre o momento mais polémico da sua vida: a 20 de abril de 1968, Enoch Powell discursa em oposição ao Race Relations Act, proposto pelo Partido Trabalhista, considerando que a imigração em curso, e a tentativa de regular as relações raciais, conduziriam a um clima de violência racial. Por invocar uma expressão da Eneida, de Virgílio, o discurso ficaria conhecido como “Rivers of blood”, mas foi por utilizar excertos de cartas que teria recebido dos seus constituintes que Powell foi criticado.
De facto, a crítica substancial que ainda lhe é feita, como podemos ver num recente episódio do The Rest is History, prende-se com a utilização de um estilo incendiário e uma linguagem inflamatória, com o potencial de gerar exatamente o que Powell dizia temer: um clima de conflito e violência entre negros e brancos. Muito da relevância do seu discurso encontra-se, então, aqui: na reflexão sempre revisitada sobre o poder das palavras e os limites que determinam o que é politicamente aceitável dizer.
A condenação de Edward Heath, na altura líder dos Conservadores, foi rápida e o repúdio da elite política, sincero ou não, foi generalizado. Mas a reação popular foi esmagadoramente favorável a Powell: o documentário de 1995, Odd Man Out: A Film Portrait of Enoch Powell, diz-nos que recebeu milhares de cartas de apoio.
Quando confrontado com a acusação de discurso inflamatório e apto a legitimar ofensas e violência, Powell defende que não foi ele que criou as tensões, limitou-se a mostrar que elas já existiam; e perante a acusação de que não deveria dar voz a este tipo de preocupações dos seus constituintes, responde: não tinha o direito de não o fazer.
Muitos retiraram daqui a conclusão de que Powell estava apenas a dar forma à voz popular, sem subscrever exatamente estas ideias. Mas parece-me que o seu discurso se integra de modo coerente na posição conservadora de defesa da nação como uma aliança entre os mortos e os vivos, pelo que se deveria trabalhar mais pela tradição e a continuidade do que pela mudança.
É possível que haja mesmo uma relação de causalidade entre uma predisposição conservadora e o interesse pelos clássicos, mas acima de tudo Powell parece ter sido afetado pelas mudanças do seu tempo e é provável que a sua preocupação com a identidade inglesa tenha aumentado como reação à decadência do império britânico. Afinal, o fio condutor da sua vida política foi sempre a crença na pátria.
3 O legado de Enoch Powell
Se Enoch Powell tinha como objetivo introduzir no espaço público o difícil tema da imigração, o propósito saiu gorado: o tema tornou-se de tal forma tóxico que ninguém se dispôs a ficar associado aos “rios de sangue”. As consequências desse silenciamento são hoje visíveis no Reino Unido, que continua incapaz de falar sobre a imigração e de resolver o gravíssimo problema de imigração ilegal com que se confronta – ao mesmo tempo que as autoridades têm tornado a própria bandeira inglesa um ativo tóxico. Até Keir Starmer tem sido sujeito a um processo de depuração para detetar o grau de enochismo das suas declarações.
E tudo isto mostra que a imigração não é um problema de esquerda/direita, mas é resultado de um consenso social e político – o consenso pós-1945 – que, depois dos terríveis acontecimentos da segunda guerra, foi determinando o que podia ser dito e o que podia ser feito considerando a ideologia dos direitos humanos. E é esse consenso que está agora cada vez mais estilhaçado, ao ponto de tornar mais esclarecedor o legado de Enoch Powell.
É que este legado não foi o de ter tornado o tema da imigração mais fácil de abordar – pelo contrário, tornou-o mais difícil. O legado de Powell, como o jornalista Peter Jenkins notou logo a seguir ao discurso de 1968, foi ter introduzido na política britânica a ideia “de que os políticos estão a conspirar contra o povo, que o país é liderado por homens que não têm ideia do que interessa ou assusta as pessoas comuns nas ruas secundárias de Wolverhampton”. E seria por esta razão que o apoio manifestado a Powell transcendeu a barreira política tradicional, com membros da classe trabalhadora a sair em sua aprovação.
Estivadores em apoio a Enoch Powell. Fonte: alliance/United Archives
Em nenhum tema, o hiato entre as elites e as pessoas comuns é tão grande como no tema da imigração, mas a razão da sua importância é biológica: como procurei descrever aqui, aqui e aqui, atendendo à nossa psicologia evolutiva, a imigração torna-se um dos problemas políticos por excelência (a par da segurança e da água) e não é possível resolvê-lo recorrendo ao silenciamento.
Não é, assim, por acaso que o populismo bem-sucedido é o populismo nacionalista e é isto que devemos ter em conta quando avaliamos entre nós o desempenho eleitoral do Chega e a figura de André Ventura (o que liga Powell a Ventura dava um outro texto), sobretudo quando os prognósticos são de apagão eleitoral.