Em 1968 estavam a entrar anualmente no Reino Unido 50 mil imigrantes – nos últimos anos estima-se que estejam a entrar 750 mil.

Em 1968 um político conservador, professor de estudos clássicos, fez um discurso em que alertava para os riscos de uma imigração crescente e onde, olhando para o futuro do país e recorrendo a uma frase da Eneida, o poema clássico de Virgílio, disse que lhe parecia ver “do sangue o Tibre inchado a espumar” [o Tibre é o rio que passa por Roma]. O discurso ficou conhecido como o dos “rios de sangue”, provocou a queda política do seu autor, Enoch Powell, e na prática bloqueou qualquer discussão séria sobre a entrada de estrangeiros no Reino Unido durante décadas.

Mas a sombra de Powell não desapareceu por completo. Aqui há uns meses, em Maio, o actual primeiro-ministro, um trabalhista, usou a expressão “ilha de estranhos” num discurso sobre imigração e teve de passar dias a explicar-se mesmo sabendo-se que, hoje por hoje e de acordo com o Censo de 2021, apenas 45% dos habitantes de Londres se identificam como “britânicos brancos”, sendo que 41% da sua população nasceu mesmo fora do Reino Unido.

No final da semana passada, num artigo no Telegraph, esse mesmo primeiro-ministro, Keir Starmer, iria porventura mais longe escrevendo que “a esquerda ignorou os receios causados pela imigração durante demasiado tempo” e era necessário reconhecer que isso tinha sido errado. Starmer, que discursará esta semana na conferência anual do seu partido, talvez não chegue a tempo de reparar os danos políticos causados por esta cegueira voluntária: uma sondagem publicada este fim-de-semana indica que ele é o primeiro-ministro mais impopular de sempre (apenas 13% dos eleitores têm opinião positiva), ao mesmo tempo que um outro estudo de opinião indicava que neste momento os seus trabalhistas sofreriam a sua maior derrota eleitoral desde… 1931.

Não devia haver aqui surpresa, pelo menos para quem tenha lido a análise de dados publicada na passada sexta-feira pelo Financial Times, um trabalho baseado em investigações académicas recentes sobre o divórcio entre as elites políticas (eu acrescentaria também as mediáticas) e o sentimento dos eleitorados no que respeita ao tema da imigração. No Reino Unido, por exemplo, à questão sobre se os imigrantes devem ou não ser obrigados a adaptar-se aos costumes do país, 87% do público considera que sim, uma percentagem esmagadora, ao contrário do que sucede na elite política, que se divide ao meio (53% não consideram isso necessário, 47% acham que sim).

São resultados que não deviam permitir qualquer dúvida sobre o porquê do divórcio entre essas elites e um eleitorado cada vez mais cativado por partidos anti-sistema.

E Portugal? Em Portugal como estamos?

O trabalho do Financial Times também inclui dados para Portugal, e também eles são muito significativos. Tão significativos que me atrevo a reproduzi-los graficamente:

(As barras à esquerda reflectem o desacordo relativamente à ideia de que os imigrantes devem adoptar os costumes do país, as barras azuladas à direita traduzem o acordo com esse ponto de vista)

Nos países analisados neste trabalho do Financial Times há apenas um em que o posicionamento da elite política coincide com o dos cidadãos, e esse país é a Dinamarca, um país neste momento governado por uma primeira-ministra socialista com políticas que colocam fortes limites à imigração – políticas que fazem até de Mette Frederiksen uma aliada de Giorgia Meloni.

Regressando ao nosso pequeno rectângulo, há sinais de que a posição das elites políticas estará a evoluir, e não apenas por o Chega ter desequilibrado o tabuleiro e recentrado certas percepções. No PSD desde a legislatura anterior que parece haver uma evolução das prioridades, no PS há finalmente algumas indicações de que porventura é necessário ter mais atenção aos temas da imigração. Eu não diria que é uma posição consensual ou mesmo transversal, as elites socialistas continuam a reagir muito mal a quem, no terreno, actua com mais determinação – recordemo-nos dos ataques ao autarca de Loures, Ricardo Leão –, mas mesmo assim os socialistas até podem estar disponíveis para substituírem o Chega na aprovação da nova lei dos estrangeiros, pontualmente revista depois do chumbo no Tribunal Constitucional. O argumento para o fazerem é que é mau, pois não haverá qualquer convicção nesta mudança de atitude, apenas uma preocupação tática com manter o tema da imigração fora da agenda mediática até às próximas eleições autárquicas.

O essencial no entanto mantém-se, pois preocupações táticas nunca corresponderão a políticas bem pensadas ou a uma visão para enfrentar um fenómeno que está mudar estruturalmente a Europa e também Portugal, e não escrevo “estruturalmente” por acaso. Aquilo que estamos a viver um pouco por todo o lado não é apenas fruto de dinâmicas económicas, como alguns sugerem para criar a ilusão que os imigrantes vêm e vão conforme existir mais ou menos oferta de emprego, mas de mudanças demográficas que são em boa parte resultado de escolhas políticas e de mudanças culturais e morais, temas complexos a que procurarei voltar em próximos artigos.

Há contudo algo que não podemos ignorar, fingindo que tudo é conjuntural e “tático”: as profundas alterações na composição das nossas populações induzidas pelas vagas migratórias não criam apenas o mal-estar social e político que alimenta descontentamentos e partidos anti-sistema. É por isso que se enganam os que apenas se sentem obrigados a encarar os temas da imigração para evitar o sucesso eleitoral de partidos como o Reform no Reino Unido, a União Nacional em França, a AfD na Alemanha ou o Chega em Portugal.

Digo isto porque a verdade é que estas alterações estão a criar sociedades onde há choques com referências civilizacionais que não são as que construímos ao longo dos séculos, referências que dão cimento à identidade e ao sentimento de pertença dos povos europeus. No fundo, choques que abalam aquilo que é o cimento que faz com que sejamos uma comunidade unida pela partilha de um destino comum, nas boas e nas más horas.

Há quem ache que isso não é importante e que o que conta são as micro-identidades e a pulverização das micro-reivindicações, mas seguir por aí seria fatal para a preservação dos nossos sistemas abertos, destes regimes em que aceitamos que ora ganham “os nossos”, ora ganham “os outros”, no fundo a essência da democracia.

E digo isto porque me parece que continuamos sem perceber todo o alcance do tal famoso discurso de Enoch Powell de 1968, pelo que recordo mais uma passagem, até para chocar as consciências mais fofinhas:

“Devemos estar loucos, literalmente loucos, como nação por permitirmos a entrada anual de cerca de 50.000 dependentes, que são na sua maioria o material do futuro crescimento da população descendente de imigrantes. É como assistir a uma nação ocupando-se ativamente em amontoar a sua própria pira funerária.”

O trabalhista Starmer, 57 anos depois, já se atreve a sugerir que se calhar o Reino Unido se esteve mesmo a amontoar essa pira, que se esteve por isso a transformar numa “ilha de estranhos”. É bom que o tenha feito, só que este reconhecimento chega provavelmente tarde demais.