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O mercado em defesa da Universidade /premium

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A busca da Verdade, do Bem e do Belo, é a definição clássica da missão da Universidade. Esta visão clássica foi reafirmada por um líder empresarial, não por um vetusto filósofo clássico ou medieval.

Na passada sexta-feira, numa reunião nacional de reflexão estratégica da Universidade Católica, José Soares dos Santos (presidente executivo da Sociedade Francisco Manuel dos Santos) foi o orador (externo) convidado. Numa vigorosa e estimulante intervenção, que não seria possível resumir aqui, sublinhou uma mensagem muito clara e vigorosa: o que as empresas e o mercado pedem às universidades é que estas promovam entre os seus licenciados a cultura geral, a criatividade associada à vontade e capacidade de aprender, e a coragem intelectual de ter uma opinião informada e de saber defendê-la.

O conhecimento técnico é seguramente também muito importante, argumentou José Soares dos Santos, mas as empresas saberão desenvolver e aperfeiçoar essa vertente (talvez até melhor do que as universidades, terá eventualmente ficado subentendido). Mas o que as empresas não podem dar e só a Universidade pode estimular é a cultura geral e a disposição para aprender e para assumir opiniões de maneira informada e corajosa — a educação para os valores, chamou-lhe José Soares dos Santos.

Não deveria ser necessário recordar que este argumento de José Soares dos Santos corresponde à visão clássica da missão da Universidade, tal como ela emergiu na Grécia antiga, há 2500 anos, e re-emergiu na Europa medieval cristã: “a busca da Verdade, do Bem e do Belo”, é a definição clássica da missão da Universidade.

Mas tem seguramente de ser sublinhado que esta visão clássica foi reafirmada por um líder empresarial, não por um vetusto filósofo clássico ou medieval. Este ponto é relevante, a mais do que um titulo.

Nos debates mais frequentes sobre o futuro da Universidade, há em regra dois campos principais: por um lado, temos os chamados “modernizadores” — que defendem que a universidade deve tornar-se sobretudo técnica, para acompanhar os requisitos do mercado; por outro lado, temos os chamados “tradicionalistas” — que defendem a vocação clássica da ideia de Universidade e acusam o mercado de estar a pressionar a universidade para baixar os padrões.

José Soares dos Santos desafiou este quadro acanhado em que o debate costuma desenvolver-se. Por um lado, defendeu a visão clássica da Universidade. Por outro lado, baseou essa defesa no ponto de vista das empresas e do mercado.

Por outras palavras, José Soares dos Santos desafiou aquilo que costumo designar por “dicotomia infeliz” entre tradição e mudança, passado e futuro, conservação e modernização.  É possível defender a visão clássica da Universidade em harmonia com a defesa do mercado e da empresa livre, recusando a imaginária oposição entre universidade e mercado.

Pessoalmente (sem querer atribuir este ponto de vista a José Soares dos Santos, que não o defendeu), creio que essa imaginária oposição entre universidade e mercado resulta sobretudo do afastamento entre as universidades e o mercado. E creio que este afastamento é sobretudo resultado da crescente estatização das universidades, sobretudo na Europa continental.

Esta tendência estatizante manifesta-se em inúmeras dimensões, que não seria possível descrever aqui em detalhe. O sistema de financiamento centralizado das universidades estatais é seguramente um deles. Outro, menos conhecido mas talvez ainda mais fatal, é a tendência para uniformizar conteúdos e práticas de ensino e organizacionais (em universidades estatais e não estatais) através de agências centralizadas que interferem no que deveriam ser escolhas descentralizadas das universidades — submetidas à concorrência entre a escolha livre dos alunos e das famílias.

Também pessoalmente, acredito que esta tendência estatizante assenta numa confusão entre ‘obra comum’ e ‘plano comum’. Mitos ideológicos, à esquerda e à direita, alimentam a superstição de que uma obra comum resulta necessariamente de um plano comum, centralmente desenhado.

Curiosamente, a história da civilização ocidental — em contraste com civilizações centralizadas, designadamente orientais — desmente drasticamente essa superstição. E a ideia comum de Universidade — que re-emergiu na Europa medieval em universidades cristãs propositadamente independentes dos poderes políticos — é seguramente uma das melhores expressões de que uma “obra comum” pode emergir e sobreviver ao longo de séculos sem ser produto de um “plano comum”, centralmente desenhado.

Por outras palavras, creio que é muito significativo — e inspirador — que tenha sido um líder empresarial moderno a relembrar-nos a missão clássica ancestral da Universidade.

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