Este 25 de abril é mais importante para mim do que o outro, o do ano passado. É verdade que, em 1974, acabou a ditadura. Mas a democracia começou há 40 anos. Nesse dia eu tinha 11 anos e vivia numa aldeia do Norte. Do que me lembro é de uma festa. Uma alegria calma. O meu pai estava nas mesas de voto. Ficou lá até de madrugada, porque não havia net nem sistemas informáticos e os votos eram contados e transmitidos por telefone para a sede do distrito, e ninguém saía das assembleias antes do fecho do processo porque tudo era demasiado precioso e incrível para se poder voltar as costas e ir para casa descansado como se tudo aquilo fosse normal. Nem para almoçar saiu de lá e a minha memória orgulhosa desse dia é ter participado naquele enorme acontecimento de cidadania levando-lhe sanduíches ao almoço, e possivelmente ao lanche, de bicicleta.

Não vi gente sem saber em quem votar. Não me lembro de dúvidas existenciais lancinantes. Lembro-me de gente orgulhosa e digna. Mesmo quando não sabia onde pôr a “cruzinha”. Só voltei a ver esse brilho especial dos olhares nas primeiras eleições no Iraque, na gente que exibia orgulhosamente o dedo pintado de azul.

Povo impreparado? Povo orgulhoso. Naquele dia, há 40 anos, quem perdeu foi Salazar e foi Cunhal. Foi quem achava que o povo não existia. Quem desprezava a “gente simples”. Quem pensava que grandes ideias são mais importantes do que as pequenas vidas de quem vive.

Há 40 anos, quem perdeu foi a “Ideia”, à Ega (o dos Maias). Foram as eternas elites pelintras habituadas a tratar das “coisas sérias” nas costas da plebe. Foram os antepassados do DDT. Há 40 anos, a plebe falou.

Os DDTs continuam por aí? Continuam. Mas houve qualquer coisa que acabou naquele dia, há 40 anos. Um destino fatal. O respeitinho incondicional. A aceitação da menoridade. A humilhação secular.

Eu era muito pequeno durante o Estado Novo. Não me recordo de Salazar. Não vivi as lutas estudantis nem o medo da guerra. A minha formação política começou naquele dia de abril e naquele verão, com as eleições primeiro e, depois, com as manifestações da Fonte Luminosa e das Antas, onde a plebe voltou a afirmar que ninguém falava por ela, fosse em nome da Pátria ou da Revolução. E com Pinheiro de Azevedo na Praça do Comércio (“o povo é sereno, é só fumaça, tenham calma”. E com o cerco à Assembleia Constituinte.

Por isso é que a minha memória se não alimenta da dicotomia entre a ditadura e a resistência mas me faz perceber o antagonismo entre a arrogância das elites e a força das gentes. Por isso é que as manifestações me impressionam pouco se se não traduzirem em votos. Por isso é que não gosto dos que insultam a plebe por se não revoltar contra as “iniquidades” da troika. Por isso é que fico a pensar se, tal como, há 40 anos, a “apropriação colectiva dos meios de produção” impressionou pouco quem queria liberdade mas não deixava de querer a pequena propriedade que era sua, hoje a condenação da “austeridade” impressiona pouco quem não quer perder o SNS mas não o confunde com subsídios à “cultura”.

Sobretudo, é por isso que, greves e manifestações e manifestos à parte, o que me interessa e aceitarei é o resultado das eleições em setembro.

A voz ao povo.

Foi isso que foi maravilhoso há 40 anos e é isso que valerá sempre a pena.