Sempre de braço dado com a puta da ironia, a minha morte chegou a roçar o dia do meu nascimento, numa gaiata manhã de primavera.

A minha cabeça explodiu numas vésperas de Páscoa, simbolicamente tempo de sofrimento. Mas também de renascimento.

Comecemos pelo sofrimento: não sei bem o que dizer-vos sobre ele porque perdi as palavras. Perdi-me de mim. Só muito depois me foi dado saber que a dor vinha de um ducto [vaso] sanguíneo que tinha estoirado dentro do meu crânio. Mas esse conhecimento, toldado por um cérebro a boiar em sangue, só veio tarde.

Vivi semanas sujeita à ignorância do ponto de partida da minha morte. Talvez por isso tenhamos ficado só eu e ela: a morte. Talvez por isso tenha precisado de lhe falar. É que, compreendam, não se consegue falar com mais ninguém sobre a morte senão com a própria. Não sabemos quem é nem quando vem. Só sabemos que vem.

Mas prometi-vos ironia, e não era só uma figura de estilo.

Entro no serviço de urgências aos ziguezagues, comandada por um cérebro bêbado de glóbulos vermelhos em fuga, e digo, cheia daquela certeza só confiada aos pré-defuntos: “Estou a ter um AVC!”

Divido agora as culpas entre o conhecimento adquirido à custa de muita pesquisa, entrevistas e reportagens e a minha intuição. Sou jornalista e há muito tempo que acompanho temas de saúde, à época com 15 anos de experiência.  Munida desses dois aliados que sempre gostei de acarinhar — o conhecimento e a intuição — achei-me no direito de fazer o meu próprio diagnóstico.

Pecado capital. A senhora de bata branca (desculpem, mas tenho demasiado respeito pelos médicos para lhe chamar isso) ficou tão ofendida com o facto de eu lhe dizer o que tinha, em vez de esperar pelo seu veredito, que me mandou para casa algumas horas depois, com um pacóvio diagnóstico de enxaqueca.

Não me tinha em pé. Não via o caminho. Não era eu. Não passava de um molho de ossos (mal) articulados.

Ando há anos a chafurdar nas palavras em busca de um sentido para a minha morte prematura, mas continuo sem conseguir nomear os atos desta pessoa. Talvez porque não devesse existir no mundo alguém que, sendo pago para nos salvar, dá a mão ao diabo para, juntos, desferrarem o último banano ao moribundo.

O que eu sabia era que 70% das pessoas que sofrem um AVC hemorrágico como o meu, zás!, morrem.

Das outras trinta, uma percentagem importante fica incapacitada para a vida. Aqueles, poucos, a quem calha em sorte sobreviver são amparados pela ciência e pela modernidade. Com comprimidos que evitam novas hemorragias (medicamento a ser utilizado até quatro horas depois dos primeiros sintomas, a que eu não tive direito). E com recomendações médicas: imobilização total para evitar novos vazamentos.

Reparem como em menos de 24 horas tive a morte a cuspir-me nas ventas. Uma e outra vez. Primeiro por dentro, no centro de comandos que é o cérebro. Depois por fora, pela mão de uma serviçal da medicina.

O sangue clandestino andou a monte no meu cérebro sem ninguém o deter. Só cinco longos dias depois chegaria o diagnóstico correto que me imporia uma estada de quase duas semanas em imobilização total numa Unidade de Cuidados Intensivos, rodeada de pessoas apatetadas, incapazes de levar o garfo à boca. Ignorantes do seu próprio nome ou idade. Nem mortos. Nem vivos.

Esfreguei com tamanho desespero a minha cabeça para aliviar a dor que deixei a testa em ferida.

O diagnóstico de derrame cerebral causado por Malformação Arteriovenosa (MAV) — um erro da genética que acontece a menos de 1% das pessoas — só chegaria duas semanas depois. No dia do meu aniversário.

Reparem: no dia em que nasci íamos saber se tinha direito a viver.

Era tudo tanto.

Restava-me entregar àquele único aliado do adiamento: a ciência. Deixei-a fatiar-me o corpo. Primeiro para sabermos porque corredores (artérias) tinha tentado entrar a minha morte, depois para selar a porta (vaso roto) e garantir que por ali não voltaria a arrombar a minha vida.

Deixei que se julgasse o micróbio em vez da culpa. Porque culpa eu não tinha nenhuma (não havia tabaco nem álcool a mais que justificassem o meu destino). E porque nem a saúde nem a doença se medem já pela fita métrica do pecado.

É certo que a TAC (Tomografia Axial Computorizada) permitiu concluir que o sangue invasor tinha perdido poder. É certo que podíamos finalmente perceber a raiz do mal. É certo que reconquistara a esperança de ver os meus dois filhos, então com apenas 4 e 7 anos, crescer.

Falta um detalhe. Aquele onde, garantem alguns, se costuma esconder o chifrudo.

Nunca vos devem ter dito que a sobrevivência também dói. Mas, caros leitores, é tudo tão fácil de julgar até nos acontecer a nós.

Sujeitaram-me a uma intervenção com raio laser que pretendia tapar o vaso sanguíneo insubordinado. Para tal aparafusaram-me (literalmente) um quadro metálico à cabeça, garantindo que não me movia e que a pontaria seria certeira.

Fiquei eu e o medo.

No hospital, deitados numa maca ou numa cama articulada, deixamos de poder olhar para o céu. Só há teto para contemplar. Reduzem-nos a existência a sacos de plástico. Obrigados a ver como se alinham os nossos destroços, ensacam-nos a vida em embalagens transparentes.

Diz que tudo correu pelo melhor, e assim anotei no caderno que insisti em levar comigo para dentro da máquina de ressonância, apesar do nariz torcido e dos sobrolhos franzidos dos técnicos. Os hospitais preferem as drogas, mas o meu paliativo está na ponta dos dedos. Obriguei-os a aceitar essa verdade da (minha) vida. Fiz bem. As minhas palavras estavam em carne viva. Tinha de as grafar para sobreviver.

Digamos que assumi a responsabilidade de estar viva.

Mas, dizia-vos há pouco que a sobrevivência também é dolorosa, e assim foi.

Depois do túnel e da cabeça aparafusada, não houve boas notícias definitivas. Teria de esperar dois anos – setecentos e trinta dias – instalada na doença, até saber se realmente havia conquistado o direito a adiar o fim.

Quem nos salva da sobrevivência, afinal? Não estive apenas doente – também morri. E é difícil voltar depois de morto. O regresso é um lugar de solidão.

A minha morte quase me matou. Dizem-me que fui corajosa. Não tive escolha. A não ser que para viver seja preciso coragem.

Decidi que aquela não seria ainda a minha morte. Se cada um tem direito à sua, teria de esperar pela minha. Como toda a gente.

Nota: uma outra versão deste texto, com o título “Palavras por uma Boa Morte”, foi originalmente publicada in Medicina Narrativa – A Arte do Encontro (ed. ThiemeRevinter, Rio de Janeiro, 2021). Este excerto foi adaptado pela autora para o Observador. Das anotações da autora sobre estes acontecimentos, nasceriam nos anos que se seguiram, variadas criações: uma reportagem e uma exposição chamada Vida Interrompida, um livro de ensaio, Chorei de Véspera (ed. A Esfera dos livros, 2012) e um filme da adaptação desse livro, Ensaio sobre a Morte, realizado por Margarida Madeira.

Jornalista, escritora e investigadora publicada pela Springer-Nature (Our Brain and the News, 2024), Isabel Nery é autora de outras obras de não-ficção, como Sophia de Mello Breyner Andresen (2024), Cerco ao Parlamento (2023), Os 5 Homens que Mudaram Portugal Para Sempre (2022), todos editados pela Dom Quixote, e As Prisioneiras (ed. Livros de Seda, 2012). É uma das cronistas convidadas do Arterial, a secção do Observador totalmente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.

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