O rescaldo da primeira volta das presidenciais deixou-nos exactamente onde a política portuguesa gosta de estar, num estado permanente de indefinição, naquele pântano delicioso onde ninguém se afoga completamente mas também ninguém consegue pisar terra firme. É o nosso habitat natural, convenhamos. Um pantanal político onde cada movimento levanta lama, onde cada passo afunda mais do que avança, e onde a única certeza é a incerteza cuidadosamente cultivada por todos os que dela vivem.
Agora, entre a espuma dos dias e a ressaca das urnas, resta-nos a grande questão existencial que verdadeiramente importa, qual será a taxa de abstenção na segunda volta? Porque, vejam bem, é aqui que o jogo se define, é aqui que os oráculos da política descobrirão a verdade revelada dos números. Se a abstenção se mantiver nos mesmos níveis da primeira volta e André Ventura subir na votação, teremos a confirmação do que muitos já suspeitavam, os votos de Cotrim de Figueiredo, de Marques Mendes e de parte do eleitorado do Almirante Gouveia e Melo migraram, qual bando de aves confusas, para os braços abertos do tribuno. Uma transmigração de almas conservadoras que, exaustas de procurar um líder palatável, se renderam ao inevitável.
Mas se, pelo contrário, a abstenção disparar para os níveis de 2021, aí sim teremos um espectáculo digno de análise, os votos da restante direita simplesmente evaporaram-se, ficaram suspensos na nuvem, numa espécie de limbo digital do desencanto. E isso, meus caros, representará uma taxa de rejeição a André Ventura que nem todo o spin mediático do mundo conseguirá camuflar. Não poderá ele, então, arrogar-se de ter chamado para si a liderança da direita em Portugal, esse joguete favorito, esse tique narrativo que o caracteriza e que repete com a insistência de um disco riscado. A ausência também é mensagem, e o vazio também vota.
Quanto a António José Seguro, temos um homem sereno, agregador, com aquele ar de estadista que tanto conforta as almas cansadas do confronto perpétuo. Um homem que não divide, que não exalta, que não perturba o sono de ninguém. Mas não nos iludamos, Seguro é um balão, tem forma, tem cor, tem dimensão, flutua elegantemente sobre o caos, mas é feito de ar, pura e simplesmente de ar. Não é um homem de ideias, é um homem de contenção, de prudência, de moderação calculada. E quando chegar a altura, quando o vento soprar na direcção certa, fará a sua escolha óbvia, aquela que sempre esteve escrita nas entrelinhas do seu discurso embalsamado. Porque os balões não têm vontade própria, seguem o vento, e o vento, em política, chama-se oportunidade.
Para André Ventura, esta segunda volta é a sua grande prova. Não de sobrevivência, porque está bem vivo, até demasiado vivo para o gosto de muitos, mas prova de grandeza. E tenho sérias dúvidas, sérias mesmo, de que consiga agregar as direitas. Porque se mantiver a forma e o perfil que o identificam, esse registo de confronto permanente, de provocação calculada, de populismo sem filtro, receio que não vá além da sua base eleitoral. E uma base eleitoral, por mais barulhenta que seja, não faz maiorias, faz barulho, faz espectáculo, faz trending topics, mas não governa.
O grande derrotado desta primeira volta, porém, foi o PSD, foi o Governo, foi Luís Montenegro, que se arrogou para si a graça divina de achar que tinha controlado o eleitorado típico, o popular e o erudito de direita, na palma da mão. E hoje, perante os números frios das urnas, esse controlo revelou-se um mito, uma ilusão óptica, um exercício de auto-engano colectivo. A direita tradicional fragmentou-se, dispersou-se, desencantou-se. E Montenegro, coitado, descobriu que governar não é o mesmo que seduzir, que gerir não é o mesmo que inspirar.
Estamos perante um autêntico pantanal político. Montenegro não largará o poder, os que lá estão nunca largam, mas cairá de podre quando o momento for oportuno, quando a fermentação interna atingir o ponto crítico e o cheiro se tornar insuportável até para os seus. Porque assim funciona a política portuguesa, ninguém renuncia, todos apodrecem no lugar.
Do lado do PS, António José Seguro deu nova alma ao partido com este resultado. E quando cheirar a poder — ah, quando cheirar a poder! —, os socráticos e costistas aparecerão como fungos oportunistas em marcha triunfal, perdendo toda a vergonha que porventura ainda restasse, numa ressurreição tão previsível quanto repugnante. E nessa altura, a alma socialista de Seguro virá à tona da água. Porque no PS, como todos sabemos, as almas são mais leves que a espuma e flutuam sempre na direcção do poder.
As esquerdas, empolgadas pelo resultado alheio, principalmente o Livre, esse pequeno milagre da pureza ideológica em embalagem biodegradável, verão nesta nova aura progressista a possibilidade de reequilibrarem, de respirarem sem ajuda de máquina. Vislumbram já o futuro radioso, a relevância recuperada, o protagonismo merecido. Pobres inocentes. Ainda não perceberam que, no pantanal, até os que flutuam acabam por se afundar.
Quanto ao Chega, está cada vez mais dependente do eterno candidato a tudo, André Ventura, que terá aqui a sua prova de fogo, a de concentrar o eleitorado de direita que, exausto de anos a fio de socialismo e expresso no novo paradigma social de direita dos dois terços, não terá outra saída senão, de olhos fechados, enveredar por esta “aventura”. E aventura é bem a palavra, porque ninguém sabe ao certo para onde isto vai nem sequer os que a promovem.
Dizia Voltaire que “a política é a arte de impedir as pessoas de se meterem no que lhes diz respeito”. E tinha toda a razão, o velhote. A política em Portugal é um pantanal imenso, movido por interesses inconfessáveis, jogos de bastidores que nunca vêm à luz do dia, e baixarias que fariam corar até os mais cínicos entre nós. É um sistema que perpetua os desvalidos morais, que premia os sem escrúpulos, que afugenta os cândidos da luta séria, honesta e leal, seja de que quadrante político for.
Porque no final, meus caros, o que resta é lama. Lama, mentiras e o eterno círculo vicioso de quem promete mudar tudo para que tudo permaneça na mesma. E nós, espectadores deste teatro do absurdo, continuamos a acreditar que da próxima vez será diferente. Que ingenuidade comovente. Que candura patética. Que pantanal magnífico.