As relações entre os Estados não podem viver de remoques e cegueiras ideológicas. Mas daí não se pode constantemente concluir que as autocracias devam ser normalizadas. Eliminar contactos com um país só porque ele não é uma democracia é de todo insensato. Achar que todos estamos ao mesmo nível é, igualmente, ridículo. Não existe vida política sem realismo e pragmatismo, mas ambas, sem virtude, são mero calculismo. E, neste aspeto, é preciso que nos deixemos de rodeios: isso não se faz em picardias e trocas de galhardetes nas redes sociais entre políticos e celebridades, ou em discursos de circunstância gravados numa margem do oceano, para a outra ouvir cordialmente.
Um exemplo que rompe com este paradigma de letargia é a visita do Papa à Turquia e ao Líbano, na passada semana. Em especial, o seu fortíssimo discurso em Ancara que, infelizmente, passou despercebido, e a sua atitude mais mediática de não rezar de maneira explícita na Mesquita Azul. Sobre as duas, creio que a conclusão que podemos tirar é que o Papa não manda recados por ninguém. Não se vai queixar para as plataformas digitais, nem idolatrar os seus pares para casa. Diz o que tem que dizer e faz o que tem que fazer, na cara.
Honestamente, a Turquia está longe de ser uma democracia. Com uma combinação macabra, e claramente orquestrada, de repressão à oposição, com prisões com teor político, erosão judicial, controlo sobre a imprensa e perseguições odiosas a minorias como os curdos, não se trata, como é óbvio, de um exemplar farol de liberdade. O Papa, que viajava para comemorar os 1700 anos do Concílio de Niceia, tinha três alternativas. Fazer uma birra e tentar mostrar a sua superioridade moral, recusando-se a viagem até à Turquia, algo que, possivelmente, o regime agradeceria. Andar de mão dada com o Presidente turco, o que seria ainda mais agradável para as autoridades locais. Ir e estragar a festa. Foi o que decidiu, e bem, fazer.
Numa sala cheia, em direto, com Erdoğan à sua frente, disse, literalmente, que “uma sociedade só está viva se for plural”, que “é fundamental honrar a dignidade e a liberdade de todos os filhos de Deus: homens e mulheres, compatriotas e estrangeiros, pobres e ricos”, que isso tem, aliás, “consequências pessoais, sociais e políticas”, que manter-se “fechado dentro do círculo limitado do seu próprio grupo de pertença (…) é uma lógica falsa”, e que as mulheres devem ter direito a uma “participação ativa na vida profissional, cultural e política”.
Para quem, como muitos de nós, está farto de ver líderes a beatificar ditadores, perguntando, até, porque os estamos a incomodar, ou para quem está cansado de ouvir as habituais bordoadas retóricas e de circunstância, trata-se de algo refrescante. A viagem de Leão XIV à Turquia não se tratou só de um momento de reconciliação. Transmitiu, também, uma mensagem: a Igreja tem um pensamento claro sobre determinadas matérias, esse pensamento deriva do nosso entendimento sobre Deus e o ser humano, e isso tem consequências, é inegociável, e estamos dispostos a pagar um preço por isso.
O mesmo se diga da atitude que o Papa tomou na Mesquita Azul. Não se tratou nem de esquecimento, nem de apelo à islamofobia, nem de rutura com os seus antecessores – Bento XVI (2006) e Francisco (2014) tinham rezado na Mesquita – mas de coerência.
Em frente à Mesquita Azul está a ex-Basílica de Santa Sofia. Em 2020, sem qualquer consulta prévia, o Estado turco alterou uma decisão de 1934, e reconverteu a Hagia Sophia, até então um museu, onde o conjunto arquitetónico cristão convivia com o muçulmano, numa mesquita. Para o efeito, foram cobertos todos os símbolos cristãos. E, na cerimónia de reconversão, o então presidente da Direção de Assuntos Religiosos turco, Ali Erbaş, num sermão totalmente revisionista e repleto de pérolas, relacionou o momento com uma frase onde Maomé profetiza: “Um dia Constantinopla será conquistada. Grande é o comandante que a conquistará, e grandes são seus soldados!”.
Parece-me, por isso, lógico que o Santo Padre se tenha decidido a não rezar na Mesquita Azul. À sua frente estava um local de onde os cristãos foram deliberadamente expulsos, e onde Ali Erbaş os tratou, entre dentes, como profanadores. Atitudes que, logicamente, um Papa não pode legitimar, tornando-se – e sei que a expressão é muito forte – uma espécie de “idiota útil” do regime turco, que o iria usar como símbolo de aceitação internacional e de condescendência face à intolerância religiosa. Porque – e esta é uma lição que já devíamos ter aprendido – de nada serve seduzir um autocrata com simpatia.