A propósito daquilo a que temos vindo a assistir dentro do quadro parlamentar no concerne ao combate político e à linguagem utilizada pelos diversos actores políticos, especialmente pelo partido da extrema direita, não temos em Portugal nenhuma instituição que o possa travar. Com respaldo na tónica da liberdade de expressão, hoje os líderes dos partidos tendem a pensar que podem dizer tudo.
O combate político mudou. A forma, o conteúdo, os destinatários e a mensagem é demasiado agressiva. As redes fazem o seu trabalho enquanto o algoritmo espalha tudo o que o político quiser e da forma como quiser.
Exemplos de exageros, de provocações e mentiras espalhadas por aí não faltam. Ninguém controla, ninguém pede moderação, ninguém tem mão disto como o povo diz.
Se continuarem por esta via não haverá forma de voltar atrás, e a nossa sociedade terá por tendência responder negativamente a esta forma já secular mas inovadora por parte de novos actores políticos que contaminam uma parte importante da democracia e da comunicação política. É certo que ela dará bons resultados a alguns políticos ou só aquele que sabe manusear melhor as massas, mas há questões às quais creio não termos feito ainda a reflexão necessária:
1 – que sociedade estamos a construir com esta triste forma de combate político?
2- que tipo de diálogo social se está a desenvolver?
3- como a qualidade política de hoje pode prejudicar o nosso futuro?
Mais perguntas haverá. Sabemos porque razão estamos neste lamaçal institucional. E para os mais distraídos a coisa é simples de perceber. A não resposta aos problemas sociais e económicos dos portugueses por parte, tanto do Partido Socialista como do Partido Social Democrata. Os dois partidos que sempre nos governaram desde 25 de abril de 1974.
Obviamente que o cansaço e falta de soluções políticas criam na sociedade um tal desconforto que vindo um messias pregar de forma diferente, bem estudada, com boa oratória e uns decibéis acima do normal para que se diga ( mesmo sem se acreditar no que se diz) o que o povo quer ouvir, dá o resultado a que hoje temos vindo a assistir. A um espetáculo assustador e degradante. Se muitos se riem de tudo isto e acham muita piada , muitos há que sentem na forma de como hoje se debate um grave problema social que está a hipotecar o nosso futuro democrático e político.
Ora, como atrás se disse, não há nenhuma entidade com poder institucional que possa controlar o que se diz em praça pública nem o que escreve para se que difunda e se espalhe como a palavra do senhor. “Ide e multiplicai-vos” é a chave para o sucesso político. Ir para onde ? Isso não interessa nada, o que interessa é multiplicar. As mentiras nascem como cogumelos, as provocações são o melhor estilo e o ataque pessoal é o objetivo. Tudo isto junto dá votos e por consequência um bom grupo parlamentar. Até onde se pode ir ? Até onde a mentira for.
No meio de tanta lama política , o Presidente da Assembleia da República tenta a muito custo minimizar danos sem qualquer sucesso prático. Mas há uma outra figura que pode dar um sinal de como as hormonas políticas devem acalmar, até porque aqui ninguém está na fase da adolescência. O Presidente da República.
Que poder tem esta figura para alterar a forma de combate político? Nenhum, mas que mensagem poderia dar? Uma mensagem de preocupação com a forma com hoje se debate, e mais importante que isso, perceber e fazer perceber que a formula que muitos hoje usam para captação da atenção do eleitor com objetivo principal do voto, é prejudicial para a democracia.
Fazer sentar todos à mesa e de forma não meramente simbólica e incutir em cada um dos líderes partidários a sua preocupação, transformando-a numa percepção social – que o é na verdade – com a linguagem e o modo como hoje se trata o debate político e como ele fere gravemente a democracia e também como esse “modelo” de linguagem utilizada dá uma péssima imagem de um país que se quer civilizado e questionar que exemplo se está neste momento a dar a uma juventude em formação. Todos, de forma directa ou indireta absorve o modelo de discurso.
Se um Presidente da República não fizer este trabalho de pedagogia política – dentro do quadro das suas competências no exercício da sua magistratura de influência (a verdadeira magistratura de influência, diga-se) então esta figura não nos serve mesmo para nada.
Aliás é precisamente aqui , no exercício da sua magistratura de influência, que o Presidente da República se distingue de qualquer outro órgão — ele não governa, mas molda a forma como o país se poderá olhar ao espelho.
Há uma urgente necessidade social, e ela está a dar sinais e pede atenção, de que algo tem que ser feito. Caso contrário o perigo é ir por aí a galope e nunca mais parar tornando-se este fenómeno político comunicacional totalmente incontrolável.
Algo tem que ser mudado no discurso político e na forma como se está a destruir uma sociedade pelo exemplo maior. Pelo exemplo que deve vir de cima.
É urgente combater isto. É urgente que alguém com poder institucional mas também político – que seja eleito pelo povo- chame à razão não só um, mas todos os partidos para que se reveja e se veja o mal que se está a fazer ao país e o exemplo que estão a passar aos mais jovens.
Porque tudo isto anda ligado, as peças deste “puzzle “social está a ser totalmente montado ao contrário e ninguém está a seguir o desenho nem as instruções. No fim do dia, vão sobrar peças que não se consegue jamais encaixar.
Há culpados ? Há. Mas também há soluções e ainda poucos tiveram a coragem de debater abertamente esta questão e de a estudar de forma aberta e pública.
Ou se volta ao debate político com alguma seriedade e elevação ou isto descamba de tal forma que nem o Santo António, com as sardinhas todas do mundo, nos salva. E Cristo ainda dirá: “Fizeram asneira, agora aguentem-se”, e ainda remata: “não me peçam outro milagre, que eu já vos dei o 25 de Abril.”
Se o Presidente da República não tiver sequer a coragem de defender a dignidade da palavra, então para que serve a República?