1. Uma religião das mulheres

É possível que a vitória do Cristianismo ao longo dos últimos dois mil anos possa ser interpretada como um longo caminho de feminização das sociedades cristãs. A mensagem simbolizada pela Cruz – de valorização, proteção e cuidado dos mais fracos e desprotegidos – apelou diretamente às mulheres e significou uma nova dignidade da figura feminina. Afinal, ao contrário do que caracterizava as sociedades antigas, o Cristianismo elevava a condição da mulher no matrimónio, como exortava S. Paulo:

Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para a santificar, purificando-a, no banho da água, pela palavra”; “devem também os maridos amar as suas mulheres, como o seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. (Ef 5)

Para Tom Holland, este é um dos aspetos revolucionários do Cristianismo no contexto mais amplo da cultura romana, em que as mulheres eram vistas como parte da propriedade dos homens, que podiam dispor delas e dos escravos conforme desejassem, nomeadamente em termos sexuais. O Cristianismo oferecia uma mensagem de dignidade e, por consequência, as mulheres desempenharam um papel fundamental no seu crescimento:

“As mulheres foram frequentemente as primeiras a adotar o Cristianismo nas suas comunidades e tiveram um papel fundamental na sua disseminação. Os maridos pagãos das mulheres cristãs eram uma fonte frequente de convertidos, em grande parte devido ao proselitismo dentro de casa — particularmente nos casamentos romanos da classe alta. Como as mulheres normalmente se convertiam primeiro, elas tendiam a criar os seus filhos como cristãos ou sob alguma influência cristã, como a mãe de Santo Agostinho, e criaram assim uma nova geração de cristãos.”

Este reconhecimento da mulher pode ser especialmente encontrado na mãe de Jesus, importância já estabelecida no século V e reconhecida pelo Papa Paulo VI no último capítulo da Constituição Lumen gentium. Os valores da Igreja e a mensagem de Cristo refletem-se na figura de Maria e não é, por isso, surpreendente que a Igreja seja, sobretudo, uma obra que se sustenta no feminino. A verdade é que o sucesso do Cristianismo na determinação das sociedades contemporâneas, formando a água em que nadamos, determinou não só as ideias de universalismo e laicismo, como também valores tipicamente femininos, como os de cuidado e paz.

2. The great feminization

Não é a este aspeto do Cristianismo como um processo de feminização do Ocidente que Helen Andrews se refere no ensaio que publicou, no mês passado, com o título “The Great Feminization” e que gerou tanta polémica (um resumo do argumento pode ser encontrado nesta divertida apresentação na conferência do National Conservatism).

Por “great feminization”, expressão que não é sua, Andrews refere-se à crescente representação das mulheres em todas as instituições da sociedade, que passaram de sub-representadas a sobre-representadas. Para a autora, esta não é uma questão simplesmente demográfica: considerando que as mulheres enquanto grupo apresentam características distintas dos homens enquanto grupo (vale a regra da distribuição normal), as consequências traduzem-se numa alteração das regras que até agora davam forma a essas instituições.

Afinal, as mulheres tendem a dar prioridade à empatia acima da racionalidade, à segurança acima do risco, à coesão do grupo acima da competitividade (e é por isso que, ao contrário dos homens, as mulheres tendem a considerar que é mais importante preservar a coesão social do que proteger a liberdade de expressão).

Usando o estudo realizado por Joyce Benenson (sobre quem já falei aqui), Andrews descreve como as dinâmicas de grupo femininas diferem das masculinas: as mulheres tendem a favorecer o consenso e a cooperação e a considerar que “o resultado de uma discussão é menos importante do que o facto de ter havido uma discussão e todos terem participado nela”. Por outro lado, os homens são mais brutos e diretos e tendem a lidar com os conflitos de forma direta (e até física), reconciliando-se quando o problema termina; já as mulheres tendem a fugir do conflito aberto e a preferir técnicas de ostracismo, sendo mais difícil haver reconciliação – pois “os conflitos ocorriam tradicionalmente dentro da tribo por causa da escassez de recursos e eram resolvidos não por meio de conflitos abertos, mas por meio de uma competição velada com rivais, sem um desfecho claro”.

São, assim, razões evolutivas que alteram as dinâmicas de grupo e, para Andrews, isso é particularmente perigoso no domínio do Direito, na medida em que as mulheres, sendo mais contextuais e protetivas, tendem a interpretar a lei de forma muito mais ampla, contornando-a se necessário quando entendem que o resultado da sua aplicação não é justo. Mas

“o Estado de direito não se resume a escrever regras. Significa segui-las mesmo quando elas produzem um resultado que mexe com os nossos sentimentos ou vai contra o nosso instinto sobre qual das partes é mais simpática.”

Andrews é categórica: a “grande feminização” não foi um acontecimento positivo e teria sido a causa para o aparecimento tão rápido do wokismo.

3. Uma educação no feminino

Como humanos, parecemos pré-determinados a procurar causalidade: queremos saber as causas e as razões para tudo o que acontece. E é por essa razão que, nos últimos anos, se têm multiplicado os esforços para encontrar a “causa final” do wokismo. Helen Andrews acredita que ele resulta da grande feminização: foi a rápida ocupação das instituições pelas mulheres nas últimas décadas que levou a uma alteração das suas dinâmicas para prosseguir novos fins e gerou estratégias tipicamente femininas de punição e cancelamento para quem se afastava desses objetivos.

Contudo, e como sempre acontece, não há causas únicas para fenómenos sociais complexos e embora Andrews esteja correta a identificar um “problema feminino” no wokismo (basta ver a prevalência de autoras nas listas bibliográficas do pensamento identitário), não é possível explicar o wokismo só com esse fator – nomeadamente, compreender por que razão ele se manifestou tão fortemente no contexto anglo-americano, mesmo quando a grande feminização aconteceu em muitos outros países ocidentais.

Ainda assim, a sua reflexão é interessante por nos permitir pensar sobre o que vai acontecendo no nosso país. E se é verdade que a questão jurídica que preocupa Andrews já tem, como uma querida amiga me ensinou, algum respaldo em Portugal com interpretações mais caridosas da lei que são apresentadas como “jurisprudência das emoções”, penso que é no plano educativo que a “feminização” mais se faz sentir.

A sobre-representação das mulheres no ensino tem, de facto, levado a transformações no modo como a Escola funciona e os objetivos que visa. As preocupações com segurança, bem-estar (em particular, emocional) e inclusão substituíram os valores de rigor, exigência e disciplina. Não parece ser por acaso que as crianças mais novas levam com “aulas sobre emoções” e as mais velhas deixaram de reprovar. O ensino tornou-se mais “fofinho” e isso pode ser justificado com uma sobre-representação feminina.

Isto não significa que algumas dessas alterações não tenham sido importantes (sobretudo, em sociedades democráticas), nem que devamos impedir as mulheres de ingressar em certas áreas, mas devemos estar atentos aos desequilíbrios e às excessivas inclinações para o cuidado e a proteção sob pena de subvertermos a própria lógica da Escola enquanto instituição. E a verdade é que, nesta como em outras áreas, os homens, e as suas características masculinas, já fazem falta.