Periferias e mundos periféricos são realidades que poucos amam e muitos temem. Ama quem conhece bem a vida que existe nos espaços distantes do centro e sabe por experiência própria que as periferias não são locais de incubação de revolta, nem meios habitados apenas por marginais, terroristas e foreign fighters. Ama quem sabe, por exemplo, que muita da arte urbana que mais à frente contará a história da humanidade nasce e evolui nas periferias.

Sejam os graffitis ou as inscrições nas paredes, muros e murais, sejam múltiplas formas de dança, expressão musical e artística, ou sejam os desportos e atividades sociais que começam e evoluem nos bairros, tudo diz e dirá muito sobre quem somos e como vivemos nas grandes cidades e suas periferias. É preciso não esquecer que Banksy e Vhils são artistas globais que trouxeram as suas realidades periféricas para o centro do mundo. Mas não só. Muitos outros artistas, músicos, desportistas, empreendedores, gestores, investigadores e especialistas de incontáveis áreas de especialidade nasceram e cresceram em periferias.

Os que temem as realidades periféricas são porventura mais do que aqueles que as amam e temem-nas justamente por saberem que são zonas terríveis onde se multiplicam as situações de abandono e exclusão, onde abundam casos de extrema pobreza que facilmente se convertem em pura miséria, onde coexistem mundos e submundos degradados, física e humanamente depauperados, onde realmente a insegurança cresce e também germina a revolta. Temem tudo isto sabendo que é nas periferias que fica registado, “quase como num sismógrafo, o decurso da História e dos seus terramotos que abalam a vida social de milhões de pessoas”.

Uso uma expressão de Andrea Riccardi, professor de História Contemporânea, fundador e presidente da Comunidade de Santo Egídio, em Roma ( conhecida como “a pequena ONU do Trastevere”, pelo foco na promoção da paz e pela dedicação aos pobres), autor de artigos, ensaios e livros sobre o mundo contemporâneo, o mais recente dos quais publicado em Portugal pela editora Lucerna, com o título “Periferias, Crise e Novidade para a Igreja”. As periferias são um dos maiores desafios atuais para a sociedade e deviam ser uma prioridade para as políticas nacionais, defende Riccardi. Concordo inteiramente.

Os centros históricos das cidades vão-se esvaziando dos seus habitantes, enchendo-se de turistas e comerciantes (mas também de traficantes de toda a espécie, gangs carteiristas e pedintes miseráveis) e ainda de gente que passa, mas não mora nem cria raízes. Os centros transformam-se numa espécie de montras, numa sucessão de vitrines para os visitantes, mas também acumula guichets de repartições e serviços onde a burocracia impera. Sempre que há uma deslocação massiva para a periferias, as relações de vizinhança e o espírito de comunidade no centro das cidades perdem força e torna-se cada vez mais difícil cultivar a ligação entre habitantes. O sentimento geral é cada vez mais o da urgência de nos protegermos uns dos outros. É pena.

Quem não deserta o centro, embosca-se em condomínios privados, casas seguras com sofisticados sistemas de vídeo vigilância e, se possível, prédios com garagens por onde entram e saem sem verem nem serem vistos por ninguém. Riccardi chama a esta forma de vida nas cidades ‘bunkers de privilegiados’, em que estes mesmos privilegiados pagam pelo luxo do seu isolamento, da sua proteção, da sua segurança e pelas medidas estratégicas que geram a distância pretendida.

Tudo isto está a gerar uma sociedade ferida, indiferente e alheia, onde os que vivem sós se sentem cada vez mais isolados e os que habitam nas margens ou para lá das fronteiras se sentem cada vez mais excluídos. O pior é que as periferias deixaram de ser apenas geográficas (se é que alguma vez foram só geográficas) e passaram a ser profundamente existenciais. Ou seja, não ficam circunscritas a um perímetro longe do centro. Isto porque a dor, o sofrimento, a injustiça e a indiferença geram as mesmas realidades periféricas insuportáveis para quem as vive na solidão e no abandono, seja perto ou longe dos grandes centros.

O Papa Francisco tem sido, na Igreja, um acérrimo defensor das minorias e das periferias. Antes do conclave que, em 2013, o elegeu Papa, e quando ainda era arcebispo de Buenos Aires e percorria todas as fonteiras e periferias da sua cidade, alertou para esta realidade que alastra e mina as sociedades, centrando a Igreja no que lhe parece verdadeiramente essencial e, ao mesmo tempo, revela a atitude de Jesus, no seu tempo.

“A Igreja é chamada a sair de si mesma e a ir para as periferias, não só geográficas, mas também para as periferias existenciais, onde reside o mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância, onde há desprezo pelo religioso, pelo pensamento, e onde existem todas as misérias”.

Andrea Riccardi, neste seu novo livro sobre as periferias, reforça o alerta do Papa, quando este ainda era conhecido como Jorge Mario Bergoglio, e sublinha que a Igreja deve sair do seu mundo, de uma visão autocentrada na sua vida e no seu esforço, para chegar às periferias da sociedade, não só geográficas, mas também existenciais. “Estas últimas são o mundo dos marginais e dos abandonados, dos pobres de qualquer tipo que vivem excluídos do mundo abastado”. Diria que não apenas do mundo abastado, pois as periferias existenciais atravessam todos os que sofrem de isolamento e exclusão, sejam pobres ou não.

A Igreja, ela própria, foi colocada no centro das cidades nas antigas sociedades europeias séculos a fio e a prova são as grandes catedrais, bem como a multiplicação dos templos de culto nos centros históricos de todas as cidades. Durante muitos séculos a Igreja esteve realmente no centro de sociedades oficialmente cristãs, diz Riccardi, mas a Revolução Francesa pôs termo a esta centralidade e inaugurou os primeiros tempos que dariam origem à secularização que alastrou mais tarde, já no séc. XX.

O pequeno-grande livro de Andrea Riccardi, que acaba de ser publicado, é um belíssimo ensaio sobre esta temática e faz várias viagens no tempo, revelando o passado e perspetivando o futuro. Simultaneamente complexo e simples, ajuda a perceber o tema das periferias dentro e fora da Igreja. Traz muita luz e ajuda a perceber que a ‘cena’ das periferias é política e é religiosa, mas é também uma consciência cívica que precisa de ser reforçada em cada um de nós. Ir ao encontro das periferias e de quem as habita é um imperativo individual. Neste sentido, o livro interpela à ação e faz-nos olhar para as realidades à nossa volta com uma nova consciência. Convoca-nos a estar mais atentos e disponíveis para estender a mão às vítimas de exclusão das periferias existenciais, porventura as piores de todas porque não dependem da geografia e, longe ou perto do centro, incluem todos os que vivem abandonados, discriminados, desanimados, deprimidos ou desistentes.