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Já de si é estranho, que dirigentes partidários em funções tenham pelouros fixos na televisão! Isso mostra o baixo nível em que caiu a maior parte da comunicação social sob o regime socialista, especialmente nesta fase crítica da pandemia em que o governo perdeu a vergonha e passou a dar dinheiro público às empresas privadas, sem falar do que já gastava com a RTP e das constantes aparições do Primeiro-Ministro e do Presidente da República em programas de pretenso divertimento, que assim se transformam em canais de propaganda.

Tudo isto aconteceu por estes dias, desde a ida de António Costa ao programa do humorista-mor do reino, até ao comício do actual presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, na TVI24, onde assumiu a sua função de autarca para acusar os dirigentes nomeados pelo Primeiro-Ministro pela forma errada – e prejudicial para a sua carreira partidária – como esses dirigentes têm estado a dirigir o combate à pandemia na chamada “Região de Lisboa e Vale do Tejo”…

A acusação, que só pode ter como motivo limpar a própria imagem de Medina aos olhos dos eleitores lisboetas, reveste-se, contudo, de uma série de pressupostos errados que só mostram o oportunismo político da sua intervenção contra a direcção do PS de que faz parte. A não ser, evidentemente, que tenha sido o Primeiro-Ministro, o qual já se virou contra a Ministra da Saúde, quem encomendou o recado ao seu sucessor na Câmara de Lisboa.

Seja como for, os contínuos “surtos” que estão neste momento a atacar o Sul do país, a começar pelos concelhos limítrofes da capital até ao Alentejo e ao Algarve, não fazem mais do que dar seguimento ao surto inicial que teve lugar na região do Porto. Na altura, chegou a ser concebida pelo Governo a hipótese de um “cerco do Porto”, ao que o presidente da câmara local se opôs terminantemente, na minha opinião por meros motivos eleitorais e não por ser um erro do ponto de vista do combate ao coronavírus. Pelo contrário!

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Tanto assim foi, que esse primeiro surto se prolongou livremente durante meses a fio pelo Minho e a Beira Litoral, que ainda hoje contam, proporcionalmente à população, muito mais casos de infecção e de óbitos do que Lisboa e o Sul. O alarido de Medina não tem, pois, mais fundamento do que o de todos os outros autarcas, desde Ovar a Reguengos de Monsaraz: a incapacidade da DGS para suster a pandemia, mesmo varrendo dados para debaixo do tapete, em especial no que respeita a essas ante-câmaras da morte que são os “lares de idosos”! Disso, porém, Medina não falou!

Acresce que a atribuição demagógica da responsabilidade aos moradores de Lisboa e arredores a Norte e a Sul do Tejo, propagandeada pelo Governo e repetida pela comunicação social, não tem sentido algum, como de resto ninguém responsabilizou, na altura, os industriais da região do Porto por terem trazido o vírus das exposições internacionais realizadas no Norte de Itália, onde os seus colegas chineses tinham trazido – conscientemente ou não – a pandemia em que continuaremos a viver até haver vacina! Enquanto não a houver, também não haverá paz nem estabilidade e a pior coisa é inventar “culpados” entre a população.

Com efeito, se há culpas neste cartório só podem ser do Governo e das demais autoridades por omitirem aquilo que sabiam e continuam a saber mas não dizem, como sejam os “lares de idosos” e as múltiplas “misericórdias” que vivem à custa do Estado sem o devido controlo das qualificações profissionais. Esta infeliz tendência, praticada pelos sucessivos ministérios da ironicamente chamada “Segurança Social”, é tão generalizada que o mesmo se tem passado desde Espanha e França até à própria Suécia. Mas isso não é desculpa.

A gigantesca tarefa em que o Governo continua metido não é mais, afinal, do que o resultado objectivo de um envelhecimento brutal da população – particularmente da população feminina: basta ver a lista dos mortos – do qual os partidos portugueses não têm querido nem sabido ocupar-se, confiando na iniciativa particular e em misericórdias sem competência para tal! Disso, o autarca não falou e não porque o problema não lhe tenha sido apresentado, assim como ao ministro do CDS Mota Soares…

A inopinada intervenção de Fernando Medina – antigo secretário de Estado do principal responsável pela política clientelar da Segurança Social, Vieira da Silva – nunca teve presente que 30% da população da cidade a que preside tem mais de 65 anos, sendo mais de metade do sexo feminino e grande parte viúvas fechadas em “lares”, onde residem os maiores riscos de morte! Em resumo, ou Medina apenas disse em voz alta o que António Costa pensa em voz baixa, alarmado como está com a fuga dos turistas, ou então pretende desestabilizar o PS… A primeira hipótese é de longe a mais provável!