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Esta semana pediu um congresso. Não há como uma derrota das suas posições políticas para provocar no dr. Mesquita Nunes uma vontade indómita de prestar esclarecimentos e declarações, por regra, contra o CDS.

Quando, em Janeiro do ano passado, no congresso de Aveiro, o dr. Mesquita Nunes viu derrotada a lista que apoiava para a direcção, declarou que o partido estava agora “radicalizado”, nas mãos de uma gente “inexperiente” e de um presidente “imaturo”; essa versão aderiu perfeitamente ao plano do jornalismo e da vida pública, que se dispensou, daí em diante, de olhar para o CDS e para Francisco Rodrigues dos Santos. Se em algum momento o traço desta caricatura parecia apagar-se, o dr. Mesquita Nunes aplicava-lhe um restauro. Em Outubro, quando a nova direcção negociou com o PSD o acordo dos Açores, o dr. Mesquita Nunes esclareceu que não era desses que se “amalgamavam” com políticos “autoritários”, ou “demagógicos, incendiários e revanchistas”; e apresentou à inspecção das imoralidades democráticas uma lista com nomes igualmente limpíssimos. Agora, quando o CDS apoiou a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, contra a vontade expressa do dr. Mesquita Nunes (supomos que votou num dos candidatos que disputaram os lugares abaixo de 5%), ele volta aos jornais para pedir um congresso.

Todas estas azáfamas são intrigantes, se acreditarmos no dr. Mesquita Nunes cada vez que ele aparece. E chegam a ser misteriosas, se ordenarmos certos factos da sua história pública desde o dia em que Paulo Portas saíu do partido, depois das eleições de 2015.

O dr. Mesquita Nunes foi o inventor da indefinição política que Assunção Cristas levou ao congresso em 2016; concebeu a maneira como ela se organizou e apresentou, subiu com ela à direcção como vice-presidente; examinou, interpretou e visitou o partido e o país, foi o sábio de confiança, criador e inspirador das políticas e estratégias do CDS ao longo dos quatro anos seguintes. Não é preciso pedir uma peritagem forense: a voz do dr. Mesquita Nunes é reconhecível em todos os documentos e posições do partido durante aqueles dois mandatos. Ele próprio se foi publicando, umas vezes, sempre que lhe pareceu oportuno; outras vezes ninguém o via nem ouvia.

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Em Março de 2019 faltavam dois meses para as eleições europeias e o dr. Mesquita Nunes preveniu ambiguidades, que ele detesta. Sacrificando o seu “projecto de vida e de felicidade”, e em sinal da sua indesmentível confiança no partido, largou tudo para aceitar um lugar na administração da Galp. Iria, a partir desse momento, parar a sua vida política e dedicar-se ao mundo dos negócios privados, ali na Galp e também no escritório de advogados que tem com João Taborda da Gama, personagem de impecáveis recomendações.

Saiu, e voltou a aparecer, desta feita para escrever o programa eleitoral do CDS às legislativas de Outubro, já as culpas do fracasso nas europeias tinham caído inteirinhas nos ombros de Nuno Melo – que injusta e aristocraticamente as aceitou. A costa parecia limpa.

Mas os eleitores estavam à espreita. Numa manobra que ninguém previa – à excepção do mais rudimentar senso político – deram ao CDS um resultado histórico e subtraíram 13 dos 18 deputados à Assembleia da República. Dito de outra maneira, premiaram a prudência e a proverbial “moderação” do dr. Mesquita Nunes com 5 deputados.

À roda desses dias o homem voltou a retirar-se, possivelmente recolheu-se a reflectir, porque ninguém ouviu a sua explicação para o estrepitoso desastre. O que aconteceu? Porque aconteceu? Quem errou? Onde errou? Qual era o plano? O que correu mal? Até hoje, nenhuma destas dúvidas legítimas teve direito à resposta oficial que o CDS pediu e merecia, e que a direcção anterior tinha a obrigação institucional de dar. A ausência de uma resposta é também, ela própria, uma posição política e uma resposta em si. Esta não pecará na história do partido por excesso de respeitabilidade.

Regressou à política em Janeiro de 2020 para apoiar a lista de João Almeida, com todos os responsáveis que vinham da direcção anterior. Perdeu a presidência do partido para Francisco Rodrigues dos Santos, o tal “miúdo”, “impreparado” e frugal em “cultura política”, que teve a ousadia de ganhar o congresso e despejar da direcção o dr. Mesquita Nunes, e o seu gabinete de talentosos estadistas que lá vivia instalado há mais de dez anos.

O dr. Mesquita Nunes pegou nas suas coisinhas e desceu com elas numa caixa de cartão as escadas do largo do Caldas, para recolher aos negócios da Galp e do dr. Taborda da Gama. Disse que, na sua opinião, os novos dirigentes deviam cumprir o mandato até ao fim. E nos intervalos sentou-se na televisão a descrever aos jornalistas e aos portugueses o seu retrato pessoal do CDS.

Estas idas e vindas do dr. Mesquita Nunes entre a esfera política e os negócios privados tem-se recomendado pela indecisão. Ele tem uma enorme facilidade em escrever e um caudal de inestimáveis comentários nas televisões e jornais. Nós é que não o conseguimos compreender. Afinal, o dr. Mesquita Nunes está no mundo da política ou no mundo dos negócios privados?

E as nossas dúvidas crescem a cada vez que o dr. Mesquita Nunes aparece empoleirado no mobiliário público e tira do bolso as suas revelações: o que é que ele afinal pensa? o que é que ele quer?

Que ideia era a dele quando, vice-presidente de Assunção Cristas, defendeu para o país todas as “causas”, todas as economias, a verde, a azul e de todas as cores, todos os queixosos e todas “as pessoas”? Qual era a filosofia dele? O que é que ele queria fazer? a quem? e quando? e como?

As nossas incompreensões continuam. O dr. Mesquita Nunes não cedeu à tentação de nos explicar em que é que o CDS e o país teriam ficado a ganhar se as suas recomendações políticas tivessem sido seguidas. Por exemplo, em que parte é que a pátria lhe devia agradecer a candidatura da sua própria pessoa à Presidência da República, como chegou a fazer constar na imprensa, em Setembro passado? E qual teria sido, para os açorianos, a vantagem do CDS ter recusado o acordo de governo regional?

E a dúvida mais recente, esta que o dr. Mesquita Nunes vem levantar quando pede um congresso: ele faz ou não faz tenções de se candidatar pessoalmente à presidência do CDS? É com ele que a política do CDS se vai discutir? Ou é com outro candidato que ele há-de apoiar? Quem é o candidato que ele propõe? E ainda, no caso de ganhar a direcção do partido, é bom que esclareça antecipadamente: o dr. Mesquita Nunes vai manter ou vai desfazer o acordo dos Açores?

Bem vistos e estudados, com muita atenção, os esclarecimentos do dr. Mesquita Nunes, era bom que acabássemos por compreender: afinal, o que quer ele?