Desastres eleitorais sucessivos, transferência de votos para a direita a par do envelhecimento do seu eleitorado, levaram as esquerdas  a primeiro deitar contas à vida e, em seguida, atirar pressurosamente para o caixote do lixo as vítimas que até ontem animavam o seu activismo. E assim, porque chegou a hora dos camaradas subirem ao palanque, num ápice sumiram-se os “camarados” e os “camarades”.

O problema é que este não é um assunto que apenas diga respeito à esquerda. Aliás nem sequer é um assunto que diga sobretudo respeito à esquerda. Como dizia o dirigente do BE, Pedro Filipe Soares, quando em 2023 se enredava na lenga lenga dos “camaradas, ‘camarados’, ‘camarades’ mais os todos, todas e ‘todes’ esta era uma luta que o BE “impôs ao país”. Sim, impuseram. Impuseram essa luta. E outras antes dessa. E agora outras depois dessa. Esse activismo-esquerdista que vai do BE ao PS tem dominado de facto a agenda das lutas, por assim dizer. (Grande parte do desconcerto da esquerda com o Chega passa exactamente por, de repente constatar que outros, além deles, podem arrogar-se essa capacidade.)

O problema é que não só conseguem impor novos activismos como está implícito que esqueçamos as consequências do activismo da véspera. É mesmo como se esse activismo nunca tivesse existido. O direito à desmemória é o grande privilégio da esquerda que, enquanto mergulha as sociedades em processos contínuos de mortificação pelos crimes cometidos  por aqueles que aponta como seus inimigos no passado — e que podem ser tão distantes quanto os descobridores portugueses do século XV —, se arroga a si mesma o direito de não ser confrontada por aquilo que fez e disse ontem. Ou anteontem. Ou há um ou dois anos.

Aquele que agora está transformado no “estranho caso da reclusa transexual” é um bom exemplo de como somos coniventes com esse direito à desmemória por parte dos activistas de esquerda: em 2022, nos tempos áureos do wokismo, o país indignava-se porque várias guardas prisionais tinham recusado revistar uma presa de seu nome Tânia que não só nascera homem como fisicamente assim se mantinha. Logo apareceram activistas vários dando conta da atitude sexista das guardas prisionais e chamando a atenção para que desde o início desse mesmo ano estava em vigor um regulamento que  estabelecia que a identidade dos reclusos passava a ser o único critério a ter em conta para a sua distribuição pelas cadeias, deixando de ser tido em conta o sexo atribuído à nascença. A par disso “uma circular interna das prisões estabelece que um recluso transgénero deverá ser revistado “por elemento do serviço de vigilância e segurança do mesmo género com o qual a pessoa transgénero se identifique” mesmo que mantenha o órgão sexual biológico.” Em resumo, em 2022 o problema estava no sexismo das guardas prisionais e não no facto de um homem ter sido levado para uma prisão feminina, bastando para tal a sua decisão de se declarar mulher.

Em 2025, os mesmos activistas calaram-se quando uma outra reclusa transexual foi transferida para a cadeia masculina de alta segurança de Monsanto. Que eles se calem é absolutamente previsível, o que não se entende é que não se peça responsabilidades, não se pergunte, não se questione como foi possível um homem com duas violações no cadastro além de vários crimes violentos acabar numa prisão de mulheres simplesmente porque se passou a chamar Raquel?

Pois é agora já ninguém quer saber das casas de banho para as crianças trans, nem da linguagem dita inclusiva porque agora vamos voltar à “classe contra classe até à vitória final” como se estivéssemos no PREC. Alguém esperava que assim não fosse? Para que tal acontecesse era necessário ter denunciado, criticado, confrontado… os activistas quando estes andavam por aí com o linguarejar (cada activismo tem o seu idiolecto próprio) do sonho e da conquista irreversível para designar a estatização e consequente destruição da economia do país. É caso para dizer, olá camaradas. Façam de conta que estão na vossa casa.