Quase tudo se disse sobre a vitória do Syrisa e pouco lhe acrescentarei, por despiciendo. Mas uma coisa me surpreende e não me parece bom sinal: o acordo com o ANEL, partido dos gregos independentes liderado por Pannos Kammenos. A esquerda radical preferiu aliar-se rapidamente a um partido de direita conservador e eurocéptico em vez de procurar aliados mais perto da sua esfera ideológica.

É certo que não havia grandes alternativas: Tsipras já tinha anunciado não aceitar PASOK e Nova Democracia, e os restantes partidos, Comunistas e Aurora Dourada, seriam provavelmente uma espécie de suicídio anunciado. Mas havia uma solução natural, na qual ainda ontem à noite eu apostava todas as minhas fichas – o To Potami, partido formado já em 2014 pelo conhecido jornalista grego Theodorakis.

O partido dos gregos independentes resultou de uma cisão com a Nova Democracia de Samaras, em 2012, e apresenta-se como nacionalista e bastante eurocéptico. Conservador, o grande ponto de contacto com o Syriza é a rejeição radical das condições do programa de resgate da troika. Tem além disso um discurso anti-imigração muito marcado e também radical.

A relação com o To Potami, com um ideário moderado de esquerda, parecia natural, mitigadora dos extremismos iniciais do programa do Syriza, apesar deste ter abandonado a maior parte das suas bandeiras ideológicas mais radicais nos últimos meses. Seria provavelmente difícil de negociar, nomeadamente na frente europeia; constou aliás que Stavros Theodorakis rejeitou qualquer acordo com o Syriza, mas não acredito que essa decisão, a ter existido, não pudesse ter sido revertida com paciência e persistência por parte de Tsipras. Tal coligação daria uma consistência ideológica e prática ao novo governo grego, mesmo com atraso no acordo – com custos, inquietação da opinião pública, dos governos europeus e dos temidos mercados -, mas seria uma solução muito mais estável e promissora.

Teria sido mas não foi. O Syriza escolheu a solução mais rápida, mas também a mais perigosa. Na verdade, com o ANEL – perdoem-me a ironia fácil -, terão bastado cinco minutos ao telemóvel: “De acordo em acabar com o programa de resgate e a austeridade?”. ”De acordo”, acordo fechado.

Mas as coisas não são assim tão fáceis. A não ser que Tsipras e Pannos Kammenos acordem em desistir dos 1.800 milhões de euros da última tranche do programa de resgate – de que o país precisa como de pão para a boca -, o novo governo terá rapidamente de solicitar a prorrogação do referido programa, que foi em Dezembro prolongado até ao final de Fevereiro. Na ocasião, o Eurogrupo considerou não poder concluir a quinta avaliação do segundo programa de resgate, tendo manifestado dúvidas sobre o orçamento grego de 2015.

O novo governo pode fazer uma de duas coisas a este respeito:

1. Pedir a prorrogação do prazo, tentar negociar com a União Europeia medidas fiscais para 2015, e procurar chegar a acordo sobre a saída do programa, seja com uma linha de crédito cautelar, com que a União já deu sinais de estar de acordo, seja com um novo programa de resgate. Ou seja, fazer o mesmo que estava a tentar fazer o governo Samaras, mantendo para dentro (para o seu expectante e desesperado eleitorado) um discurso duro e de ruptura. Depressa se instalará a desilusão e dificilmente a coligação sobreviverá.

2. Ou pode denunciar o programa de resgate – o porta-voz do Syrisa, Giannis Milios, ainda na noite eleitoral, disse que ele estava “morto” – e pedir para conversar com os credores, não se sabe bem para quê: dificilmente receberá os 1.800 milhões ou qualquer tipo de conforto cautelar. Sem dinheiro para as necessidades imediatas, com particular destaque para o serviço da sua monstruosa dívida – mas não só -, restará ao novo governo grego a falência e a saída do euro. Aquilo que cerca de 7 milhões de gregos disseram não querer. E a prazo se verá o que daí resulta… embora o que resulta para a União Europeia possa ser bem pior.

É essa a consequência da escolha de um parceiro improvável como o ANEL: não há a este nível soluções miraculosas nem saídas fáceis, mas no caso teria sido preferível prolongar as negociações e tentar uma coligação difícil, exigente, criteriosa, mas natural e portadora de estabilidade. Caso não fosse possível, mesmo assim seria mais fácil aos parceiros europeus aceitar a continuidade da governação actual em gestão corrente e a realização de novas eleições a curto prazo, como aconteceu há três anos – eleições essas que, suspeito, dariam maioria absoluta ao Syriza. E já nem falo do que vem a seguir: acesso ao “quantitative easing” do BCE, implementação das medidas sociais e económicas do programa do Syriza e suas consequências, etc., tudo dimensões de um problema grego que a Europa – e a própria Grécia – vão conhecer no ano em curso.

Disse-o e repito-o: a única coisa a evitar, quer por parte do Syriza, quer dos decisores e governos europeus, é a radicalização de posições. A escolha de parceiro para a governação por parte de Tsipras é um péssimo sinal a esse respeito.

É como se Teseu, com pressa para matar o Minotauro – a Troika – acabasse preso no labirinto por se ter esquecido do fio de Ariadne. E a grande oportunidade histórica de mudar o rumo da Europa, com uma verdadeira e conjunta abordagem do verdadeiro monstro europeu – as dívidas soberanas, não só a grega – tivesse ficado esquecida na pressa de mostrar serviço e despachar o assunto.

Como se a Ariadne que contasse fosse pura e simplesmente assegurar o poder e distribuir empregos. O costume.

* Professor da Universidade Católica, Instituto de Estudos Políticos