Uma palavra de pesar, muito pesar, pelo desaparecimento precoce da Dra. Catarina Sena. Tive o gosto de a conhecer quando trabalhámos juntos no gabinete ministerial do Prof. Coreia de Campos. Era uma senhora notável que muito me ensinou e a quem nunca agradeci o suficiente. Acompanhou e ajudou membros de sucessivos governos e é, sem dúvida, uma das grandes obreiras dos sucessos do Serviço Nacional de Saúde. Não são os governos, com a sua efemeridade, que asseguram a perenidade das medidas. São pessoas, como a Dr. Catarina Sena, que garantem a protecção da saúde dos Portugueses. Vai-nos fazer muita falta.

Vamos às observações a que voltarei com mais desenvolvimento em próximos capítulos. Desde já aviso que há algumas repetições de ideias anteriores, vestidas de forma diferente, mas com a repetição há maior probabilidade de chegar a quem possa ter interesse neste tema.

1 Agora SÓ se fala do que interessa, a COVID-19. Desapareceram os gafanhotos de África, os Nalaxitas de um Pradesh qualquer, os (T)(C)urdos já não se esgadanham na Mesopotâmia, a Antártida arrefeceu e a Gretinha calou-se. Estaria tudo perfeito se não fosse o maldito vírus. Felizes aquelas pessoas de uma remota ilha do arquipélago de Andaman, esses mesmos, os que recebem os turistas à flechada. Se nós, os infetados, os respeitarmos e à sua paradisíaca ilha, ainda passam por isto sem COVID-19 e sem telejornais cheios de gráficos.

2 As doenças normais passaram todas à categoria de doenças raras. Foi preciso um Flávio Paixão, Português que joga futebol em Gdansk, vir dizer o que tem sido incómodo e escamoteado. “É verdade que já morreram mais de 65 mil pessoas, mas por ano morrem 10 milhões com cancro, mais não sei quantos milhões com sida, sem falar nos que morrem em África com fome.” Reconciliei-me com o jogo da bola. “Por isso… não vejo televisão. Porquê? Há muitas pessoas a falar de medicina que não são doutores. Quanto mais falam, maior é o pânico.” Ah grande homem!

3 Sublinho que, para lá da ironia da observação anterior, o trabalho jornalístico feito em Portugal e no Mundo tem sido de muito elevada qualidade. Jornalístico, baseado em informações, com fontes citadas e, não raras vezes, com a introdução de link para os artigos. Até a mim, profissional da saúde, têm sido de extrema utilidade. Obrigado a todos, mais uma vez, pelo que têm feito. E, porque não tenho falado com ele e todos reconhecemos o seu brilhantismo, incluo neste grupo de divulgadores científicos o Dr. Paulo Portas que nos tem trazido análises baseadas em factos e se mantém distante do simples comentário “acho que”. Tem feito serviço público. Também nem sempre resisto a “achar e disso me penitencio. Mas não me coíbo de criticar, como tenho feito, excessos de “achismo” não informado. Leiam jornais que neste tempo vale bem a pena. É justo que se pague o esforço de quem trabalha. Sublinho que não tenho interesse pecuniário com estas notas que aqui vou deixando, neste teto de internet em que o Observador gentilmente me acolheu. Junto-me, sem que me tenham pedido, ao apelo para que assinem os periódicos que entenderem preferir. A nossa liberdade depende de jornalismo profissional.

4 As nossas instituições precisam de muita clinical governance que não têm tido. Os planos de segurança clínica não existiam ou eram muito incipientes. Teria sido mais fácil evoluir a partir de uma base de orientações em caso de ameaça biológica do que partir do zero. Os profissionais devem ser o cerne da governance, entendida enquanto garantia de efetividade, eficiência, controlo de riscos e satisfação, ou seja, da qualidade. E é no core business, na promoção da saúde e prevenção da doença em todos os níveis, que as instituições devem estar focadas. Os recursos existem para dar respostas aos desafios presentes e antecipando necessidades futuras. A primeira parte, a das respostas aos desafios presentes, estava “no fio”. A segunda, a antecipação das necessidades futuras, não tinha sido feita. A gestão financeira é um instrumento e não um fim. O ministério da saúde nunca mais poderá ser um agente das finanças. Nunca mais. Não se esqueçam de que outras pandemias, outras crises, virão.

5 A especialidade de saúde pública é, no imediato, a grande “vencedora”. Ficou agora claro, para quem ainda tivesse dúvidas, que a saúde pública precisa de enfermeiros e médicos especializados e em número adequado. Pena que esteja a ser preciso uma quase tragédia para que isto fosse ainda mais claro. Uma parte da população já interiorizou que é agente de saúde pública. Que essa consciência não passe depois da pandemia.

6 Não houve pico pandémico, nem vai haver. Se as medidas de contenção que têm adiado a explosão funcionarem, apenas haverá pontos de inflexão da curva. O que está em causa é a dimensão da área debaixo da curva de casos. Essa área corresponde ao infetados. Com “achatamento”, volto a repetir, o período de alastramento da infeção estende-se e até poderá acontecer que o número total de infetados seja maior ao fim de um ano ou dois, do que se tivesse havido um sino mais alto. Mas esse sino, com pico elevado, estaria associado a mais mortalidade e mais saturação dos serviços de saúde. Não seria bom. Os países que apostaram na estratégia de imunidade selvagem, coletiva, estão a mudar de opinião. No entanto, uma estratégia que tivesse incidido muito mais sobre a protecção de grupos de maior risco, nomeadamente os mais idosos, sem que tivesse sido imposto recolher obrigatório a toda a economia, poderia ter sido mais avisada de início. Bastaria ter fechado acessos ao País em devido tempo e ter confinado os potenciais transmissores em vez de os ter convidado a ficarem confinados. Bastaria ter um sistema de saúde melhor coordenado, com melhor liderança global e intermédia, sem preconceitos ideológicos, com medidas de protecção pensadas a tempo, com circuitos de diagnóstico e assistência organizados antecipadamente. Nada disso aconteceu. Talvez bastasse ter um sistema de saúde que não estivesse à partida com a sua capacidade ultrapassada e um Serviço Nacional de Saúde (SNS) com reserva para expansão. Não tínhamos. Estamos ainda nesta fase, a empurrar para a frente para que o sistema de saúde, não apenas o SNS, não colapse. O aplanar da curva implica o prolongamento da agonia. Todavia, em termos éticos não seria possível aceitar a propagação descontrolada da epidemia depois de estar instalada. Para já, se fizerem as contas, Portugal tem, à data da elaboração deste texto, pouco mais de 1% da população com SARS-CoV-2 identificado nas suas gargantas e países como a Itália e Espanha andam um pouco acima dos 3%. Até os casos de maior visibilidade, como os EUA, ainda correspondem a situações de incidência populacional baixa, próxima dos 2%. A grande exceção é a China que começou a lidar mal com o problema, deixou que ele se exportasse com a conivência da OMS, para acabar bem e ilustrar a importância da quarentena global para controlar a expansão da 1ª vaga da Covid-19.

7 Não se podem confundir as curvas que resultam da adição de novos casos, com a que se faz com a percentagem de crescimento de casos. É a primeira que nos indica a verdadeira evolução da situação quanto ao número de doentes. Só se poderá falar de alívio quando o número de casos novos, a incidência, for inferior ao número de casos resolvidos. Para já, ao que parece, estamos numa fase de estabilização do crescimento. Mesmo que a percentagem de casos novos diários diminua, em função da contagem do dia anterior, a acumulação do mesmo número de casos, dia após dia, é tudo menos redução total de casos. Logo, é diferente de dizer que a doença está a desaparecer ou que o pico foi ultrapassado. Nem vai desaparecer milagrosamente.

8 Não há subnotificação de casos por causa de alguma manigância A curva “errática” de casos novos, de que se tem falado com alguma frequência, é um problema de registo. Relembro que casos registados apenas indicam o que se sabe de pessoas a quem foi feito o teste. É um proxy interessante e é aceitável assumir que o número real de infetados é 10X maior, pelo menos. Nada de grave, embora este número revele que é preciso conter todos e não apenas os que já se sabe estarem infetados. Todos devem usar máscaras!

O que interessa agora é acompanhar em cada país, sem fazer comparações espúrias entre cenários nacionais diferentes, a evolução de casos novos registados, assumindo que os sintomáticos, ao menos esses, serão quase todos testados. Se esse número diminuir, ainda melhor se for diminuindo apesar do aumento do número de testados, estaremos no bom caminho de resolução da 1ª vaga. Todavia, o número de mortos crescer mais do que o número de novos casos pode até ser uma “boa” notícia. Andar a contar casos novos e depois ficar preocupado por que há menos casos, mas observar que a mortalidade continua a crescer é um não problema. A mortalidade pode continuar a crescer depois da incidência diminuir. É uma questão de time lag. Para morrer da Covid-19 é preciso ter a Covid-19. Aqui a galinha veio antes do ovo. Há, infelizmente, doentes que vão morrer e só morrerão uns dias depois de serem encontrados com a Covid-19. E o número mais interessante é o número de doentes internados e não o de doentes internados em cuidados intensivos. O primeiro dá-nos uma ideia da evolução da pandemia em Portugal e da gravidade dos casos novos. O segundo dá-nos uma ideia da capacidade de resposta intensiva, mas não nos garante que todos os doentes que precisem de cuidados intensivos os tenham recebido.

9 Não faço coro com os que olharam para a substituição do presidente da SPMS como um ato político. Acredito que foi uma substituição feita no momento errado, sem elegância e sem etiqueta. Nada mais. O que não quer dizer que não teria sido correto avisar o Prof. Henrique Martins com antecedência e agradecer-lhe os serviços prestados à nação, que foram muitos. Escolheram, para substituto, um apparatchik do PS e eu, que nunca apreciei o modelo da CRESAP, nem acho mal. Ao menos que a ministra confie no homem. Se correr mal, a responsabilidade também será da Dra. Marta Temido, mais uma para juntar a tantas outras. Neste momento, o maior desafio da estatística do ministério é garantir que as plataformas de reporte funcionem, em tempo real, e que haja data managers em tempo inteiro para registar, compilar, ler e interpretar os dados. A linha SNS 24 morreu, sucumbiu aos golpes que foram dados na sua credibilidade. Vai ter de renascer, depois desta pandemia, com tecnologias melhores, maior responsabilidade dos operadores, com contrato de serviços imediatamente expansível, com preços melhor ajustados, com funcionalidades mais adequadas ao século XXI e, acima de tudo, acompanhada por uma profunda renovação de todas as formas de contato direto com as instituições e os seus profissionais.

10 O nosso adorado Professor Marcelo, por quem confesso ter simpatia e admiração, lá se deixou confinar e testar, embora à luz – desta vez acertei – de critérios iníquos e duvidosos. Remeteu-se à lavagem de meias e cuecas, presume-se que fritou uns ovos e deu-nos descanso. Voltou, cheio de força e remeteu as graves decisões para o Dr. António Costa. Fez bem e deveria ter ficado por aí. O Senhor Presidente pode fazer os testes que quiser. Nada disso nos interessa. Mas não pode servir-se da sua exacerbada propensão para deixar que lhe façam testes e análises para fazer propaganda de instituições prestadores de cuidados de saúde no mercado privado. É uma violação da neutralidade presidencial e um abano na concorrência leal entre operadores comerciais. Mais relevante quando faz um teste de utilidade ainda por documentar e cria a impressão de que esse teste, na verdade ainda inútil, é necessário. E para completar, reforça a ideia de que há filhos, ele, e enteados, os outros que não têm direito ao teste. Esteve muito mal.

11 Aos do governo, a esses, já não há quem ature. Tanta conferência para anunciar o nada é mais do que o nada possível. “…reality must take precedence over public relations, for nature cannot be fooled” (frase atribuída a Richard Feynman). Sim, é verdade, há citações que eu guardo para um dia usar. Tem sido a vez deste físico. Há muitas e boas.