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Periodicamente, a instituição Opus Dei é chamada a comparecer, no espaço público, diante dos meios de comunicação social. Pede-se-lhe que responda a acusações recorrentes, que aparentam não ter defesa possível. Diante das suspeitas de que existe algo mais vinculado à instituição, que nunca foi exposto à luz do dia, é necessário olhar com objectividade para o que possa estar oculto nesta “enigmática” instituição da Igreja Católica. Pode dar-se o caso de alguns dos seus membros não terem plena consciência do que se lhes pede quando são propostos à instituição. Daí que sucumbam às vicissitudes no decorrer dos tempos e que encobrem o carisma fundacional. Esclarecemos.

Um dos grandes “enigmas”, que perdura desde o início, deve-se ao facto de não se ter ainda compreendido se o Opus Dei é uma instituição laical ou eclesiástica. Recentemente, o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa definiu a instituição, publicamente, como sendo eclesiástica. Não é de estranhar, pois sempre que é pedido um esclarecimento público ele é feito pelo clero da instituição e outros. Além disso, o Concílio Vaticano II, no Decreto sobre o Ministério dos Presbíteros: Presbyterorum Ordinis, refere-se às prelaturas pessoais como uma forma de organização do clero (n. 10). Deixa claro que as prelaturas pessoais não são formas de organização laicais. Vejamos.

O Opus Dei começa por ser um movimento que convoca, sobretudo, jovens universitários, homens, a quem é proposto uma vida cristã laical de fidelidade ao Evangelho, na exigência do celibato. Só a partir de 1930 começam a ser incorporadas mulheres neste movimento laical, também em vida de celibato. Recebem formação humana, doutrinal e teológica do próprio fundador, Josemaría Escrivá, baseada no tradicional modelo de vida espiritual cristã. Este núcleo celibatário (futuros numerários, numerárias, numerárias auxiliares, agregados e agregadas) é configurado à luz das primeiras comunidades cristãs, a fim de despertar a consciência laical, em todo o mundo, para uma nova forma de existência no enquadramento dos 30 anos da vida oculta de Jesus de Nazaré. Este núcleo de homens e de mulheres leigos, em vida de celibato, vai ser a peça fundamental, a dobradiça, que irá articular os futuros sacerdotes da instituição com a maioria dos cristãos leigos. Trata-se de um novo modelo diaconal permanente, assente na condição baptismal, com plena consciência de serem «uma geração escolhida, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo adquirido por Deus, para proclamar as perfeições d’Aquele que das trevas vos chamou à sua luz admirável» (1Pe 2, 9). Portanto, esta configuração sacerdotal, régia e profética laical, em vida de celibato, diz respeito ao sacerdócio comum dos leigos, à imagem de Jesus Cristo, e adquirido no Baptismo.

Posteriormente, em 1943, é fundada a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, por Escrivá de Balaguer. Corresponde à segunda peça fundamental para assegurar, antes de mais, que o sacerdócio comum dos leigos, no Opus Dei, seja plenamente vivido. É assim que o sacerdócio ministerial, adquirido pelo sacramento da Ordem, é exercido por leigos, homens, vindos das fileiras do novo diaconado laical. A meta é compreender, à luz do Evangelho, o significado alargado desta nação santa e povo sacerdotal. A Sociedade Sacerdotal do Opus Dei permite, desde 1950, a incorporação de padres diocesanos seculares e diáconos, que queiram receber a mesma formação que é disponibilizada aos membros da instituição. Ou seja, Josemaría Escrivá pretendeu com isto expandir esta renovada consciência cristã em todas as dioceses do mundo.

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Por isso, no ano de 1946, estabeleceu a sua residência em Roma a fim de convencer o Papa da importância de ter um diaconado permanente laical, de homens e mulheres, articulado com o sacerdócio ministerial, como mediação entre a Igreja e o Povo de Deus. Sobretudo, para estarem ao serviço das paróquias e da necessária formação contínua dos cristãos leigos em todas as dioceses do mundo. Pela novidade, deparou-se com uma forte oposição dentro da Cúria Romana. Apesar de tudo, avançou com a abertura de um seminário para a secção masculina, em 1948, o Colégio Romano da Santa Cruz, e outro, em 1953, para a formação teológica e espiritual das mulheres do Opus Dei. Ambas, são estruturas internacionais à semelhança dos seminários. Actualmente, contam com a Pontifícia Universidade da Santa Cruz e Opus Dei. Todos os membros recebem, portanto, uma sólida formação doutrinal e teológica ao nível dos candidatos ao sacerdócio. Escrivá sempre defendeu esta qualidade na formação também para as mulheres.

Para poder avançar com a expansão do Opus Dei no mundo, Josemaría Escrivá aceitou o reconhecimento jurídico de Instituto Secular, que foi atribuído ao movimento laical pelo Papa Pio XII, em 1950. Este movimento diaconal laical Opus Dei ficou, assim, dependente da Congregação para os Religiosos, o que Escrivá dificilmente aceitou, dispondo-se a alterar este reconhecimento pontifício. Algo que nunca chegou a obter em vida. A alteração definitiva só virá a ser conferida em 1982, por João Paulo II, ao erigir o Opus Dei em Prelatura Pessoal, ficando a depender da Congregação para os Bispos. A designação passou a ser a de Prelatura da Santa Cruz e Opus Dei. Só a partir de 1952 é que começaram a incorporar-se leigos casados. É de notar, que esta instituição laical nunca dependeu do Pontifício Conselho para os Leigos, instituído pelo Papa Paulo VI, em 1967, nem do actual Dicastério Leigos, Família, Vida. Porquê? Porque motivo Josemaría Escrivá não investiu na mudança de Instituto Secular para depender do Pontifício Conselho para os Leigos, a partir de 1967? Não era um movimento essencialmente laical?

O motivo que o levava a pretender um outro tipo de reconhecimento jurídico diante da Santa Sé, estava nesta peça fundamental que articula os sacerdotes com os leigos, ou seja, o diaconado de homens e mulheres adquirido pelo Baptismo e em vida de celibato. Além disso, a espiritualidade específica, própria do movimento laical Opus Dei, baseava-se (e mantém-se) numa adaptação da espiritualidade carmelita para a condição laical. As normas, o plano de vida, são essa adaptação. É de recordar, que, em 1945, o fundador do Opus Dei conheceu pessoalmente a Irmã Lúcia, em Espanha, e foi ela quem o motivou a dar rapidamente início à implementação do movimento em Portugal. Que no ano seguinte se consolidou.

Todos os membros da Prelatura e Opus Dei recebem a imposição do escapulário do Carmo. Recebem, também, indulgência plenária na festa de Nossa Senhora do Carmo e nas festas e datas litúrgicas dos santos carmelitas: do profeta Elias, S. Simão Stock, S. João da Cruz, Santa Teresa d’Ávila, Santa Teresa de Lisieux, Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) e no dia dedicado a todos os Santos carmelitas. A leitura dos escritos destes santos é bastante recomendada pela instituição.

O Papa Francisco, também vinculado a uma ordem religiosa, promoveu amplamente a instituição laical Opus Dei ao não conferir a ordenação episcopal ao actual prelado Mons. Fernando Ocáriz. Ou seja, tem plena consciência de que este povo sacerdotal, laical, se deve integrar e expandir no mundo sem a forte conotação eclesiástica. Isto, porque o perfil sacerdotal, profético e régio, laical, deve ganhar força em todo o mundo sem outros objectivos que não sejam a Doutrina Social da Igreja e a convocação de todos para o Reino de Jesus Cristo. Pretender outra coisa, é criar extrema confusão nos meios de comunicação e no público em geral. Se persistir a ideia de que a instituição laical do Opus Dei é uma instituição eclesiástica devemos dar algum desconto aos que pretendem uma definição pública de filiação associativa religiosa nos cargos políticos. Não se dê o caso de ministros ordenados ambicionarem gerir tais cargos, utilizando o rosto público dos leigos. A actual reforma do Papa Francisco à Cúria Romana está amplamente dirigida a impedir estes subtis objectivos. Qualquer cristão leigo, baptizado, tem plena liberdade de poder aceder a cargos políticos de responsabilidade, sem, no entanto, proclamar a sua filiação religiosa. Mas pode acontecer que a actual política, nacional e mundial, pretenda fazer um escrutínio entre aqueles que estão a edificar a cidade de Deus e os construtores da cidade terrena. O futuro da humanidade encaminha-se neste sentido.