Os Estados Unidos completaram 250 anos no passado dia 4 de julho. Para a efeméride a comentadoria europeia resolveu medir dois séculos e meio de civilização pela régua do último ciclo noticioso e concluir que a América com Trump está acabada e os Tácitos de hoje, tal como em Roma, estão já a escrever a História de como irá suceder.
E como estava Portugal 250 anos depois da sua fundação? Estaríamos mais ou menos em 1380, give or take, dependendo de quando se começa a contar a nossa aventura. A Batalha de São Mamede em 1128 foi sem dúvida um marco; Zamora em 1143, a legitimação internacional duramente conquistada pela bula Manifestis Probatum em 1179, fronteiras seladas em Alcanices em 1297 e a crise existencial de 1383-85 em que metade da alta nobreza alinhou com Castela e foi o povo de Lisboa e o Condestável quem salvou a independência culminando com a glória em Aljubarrota e a ascensão da ínclita geração a partir de 1385.
Mas o essencial não é o que Portugal tinha feito até 1385. É o que fez a seguir.
Um país com cerca de um milhão de habitantes que nos 200 anos que se lhe seguiram, criou a primeira rede verdadeiramente global da humanidade. Iniciada em 1415 com a conquista de Ceuta como declaração de intenções. O Bojador dobrado por Gil Eanes em 1434, que quebrou a barreira psicológica dos “aqui há monstros” riscado do mapa pela experiência, pela aventura, pela descoberta, pela ciência e pelo engenho. Depois a Boa Esperança de Dias em 1488, a Índia do Vasco da Gama, de Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque a partir de 1498, o Brasil de Cabral a partir de 1500, Malaca e Ormuz e a conquista dos direitos de navegação por controlo português a partir de 1511, e as rotas chinesas e japonesas, com Macau a partir de 1557 e Nagasaki aberta ao comercio português em 1571.
Tordesilhas consolida a disputa em 1494, a nossa nação minúscula ousa partilhar o planeta em pé de igualdade com o único rival à altura a partir do momento que Isabel e Fernando em matrimónio juntaram os trapinhos e formaram um território peninsular 5 vezes maior que a nossa jangada de pedra.
O segredo esteve no método. Portugal industrializou o saber: navegação astronómica, a caravela como plataforma tecnológica iterada geração após geração, cartografia como segredo de Estado, Pedro Nunes na matemática aplicada à náutica, a Casa da Índia como primeira multinacional logística da história. E ao centro, o Infante D. Henrique, tal CEO dos tempos modernos que não descobriu pessoalmente coisa nenhuma, mas liderou, financiou, organizou e assumiu o risco sistemático do desconhecido: capital pacientemente granjeado das rendas da Ordem de Cristo, a cruz nas velas nunca foi decorativa, era o logótipo do acionista, aplicado a expedições com taxa de fracasso altíssima, em que um único sucesso pagava todas as perdas. Enquanto os Médici de Florença emprestavam ao comércio conhecido, Sagres financiava o desconhecido, num projeto que D. João II e D. Manuel, os grandes obreiros do feito, haveriam de consumar e consolidar
E a América aos 250 anos, como é que eles lá chegaram?
Na realidade o guião americano até é parecido: secessão contra o Rei extorsionista, reconhecimento externo no Tratado de Paris, e uma guerra civil a meio do ciclo para decidir se a nação era uma nação em Gettysburg, sempre com o inimigo inglês por perto a minar e a congeminar, culminando nos assassinatos Presidenciais de Lincoln, e no dealbar do século XX, de McKinley. Antes mesmo da Guerra Civil americana iniciou-se a conquista do Oeste, muito à custa dos indígenas locais, da integração da República do Texas e da Guerra Mexicana, com o Golfo, quase dois séculos depois, a tomar a designação trumpiana “da América” por já não corresponder ao país banhado na sua preponderância
Entretanto o poderio económico conquistado fê-los plasmar que no Continente Americano mandam os Americanos do Norte, a sul do Canadá, pois esses continuam a congeminar pelos direitos de sua Majestade o Rei. Após o final da Guerra Civil em diante começa a ganhar forma a diplomacia do Cajado e da canhonheira americana pelo poder crescente do US Dollar e do poderio bélico, tendo escorraçado os espanhóis de Cuba e Filipinas, comprado aos dinamarqueses as ilhas virgens (e a Gronelândia por um triz) e aos russos o Alaska, não necessariamente por esta ordem cronológica, com a intervenção fundamental em 2 Guerras Mundiais (iniciadas pelas potências europeias na sua génese) e salvos pelo engenho e arte dos seus habitantes, na busca constante do consagrado na sua certidão de nascimento pelo direito à vida, à liberdade e na procura constante da felicidade, que teve o seu corolário nos anos 60 quando finalmente os direitos das minorias negras foram consagrados com o fim das políticas de Jim Crow.
De um país rural com uma ideia, e um ideal, fundou-se a República dos Homens Livres capazes de poderem aspirar aos desejos e anseios de cada indivíduo, dentro de uma democracia ordenada na divisão de poderes, com eleições para os seus órgãos mais importantes, sempre na primeira terça-feira de novembro por conveniência dos seus agricultores após as colheitas e antes do inverno começar a sério, e assim poderem também exercer o seu direito de voto, e que ajudaram a transformar a nação Americana na mais bem sucedida de todos os tempos: mais rica, mais capaz, mais ousada, mais próspera , mais inventiva e tudo e mais não sei que, com todos os irrequietos deste mundo a desejarem pertencer-lhe, independentemente de quem os represente.
Desde muito cedo as empresas americanas explodiram em inovação e ciência dando praticamente todas as invenções aplicadas ao dia a dia de todos nós com especial ênfase a partir de 1990: Amazon, Apple, Facebook, Google, Gilead, Microsoft, Netflix, Nvidia, SpaceX, Tesla, X, you name it, e mais não sei que: empresas que ou não existiam há meio século ou eram garagens, e que hoje somam capitalizações bolsistas na ordem dos biliões de dólares, os trillions americanos, superiores ao PIB de quase todos os países do mundo. Só nos últimos 30 anos, a América deu-nos a internet comercial, o smartphone, o genoma humano sequenciado, as vacinas de mRNA, as terapêuticas celulares contra o cancro, a revolução energética do xisto, o foguetão reutilizável (a caravela que regressa ao porto e volta a partir), e agora a inteligência artificial.
Nenhuma outra civilização produziu isto. E não o produziu por acaso. Produziu-o porque tem o que a Europa regulamentou até à extinção: capital abundante e impaciente por risco, fracasso como currículo e não como estigma, e um Estado que, nos seus melhores momentos, protege o ciclo hipótese-experiência-correção em vez de o estrangular. Hayek chamar-lhe-ia ordem espontânea. Eu chamo-lhe o sonho sem limites, que é a única matéria-prima que a América nunca importou.
Portugal, em 1393, fechava o primeiro ciclo e abria o segundo: a dinastia de Avis consolidava-se e, vinte anos depois, Ceuta lançava a era dos Descobrimentos. Os Estados Unidos, em 2026, estão exatamente nesse ponto de inflexão, e o atual Presidente, goste-se ou não do estilo, percebeu-o. A reindustrialização deliberada que estamos a assistir, ao ritmo da Segunda Guerra Mundial, o regresso assumido ao Sistema Americano de Hamilton, a esperança renascida em toda uma classe média que vê finalmente um Presidente defender os interesses da classe trabalhadora, a Guerra sem quartel aos cartéis da droga e à ameaça islamista protagonizada pelo Irão, a coordenação entre Tesouro e política monetária e a corrida ao espaço e à inteligência artificial como novo Índico. E não sou eu que o digo: é o representante do Comércio, Jamieson Greer, a dedicar discursos ao sistema hamiltoniano que a América esqueceu, é o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a declarar que durante décadas se mediu a abundância na caixa do supermercado e não à porta da fábrica, e é o vice-presidente Vance a assumir esta semana que a política económica americana é hoje mais Alexander Hamilton do que Milton Friedman.
Tudo aponta para 2026 não ser o crepúsculo de um império mas antes a rampa de lançamento do segundo ciclo de expansionismo e consolidação Americana num Mundo reconhecidamente multipolar, em que as relações diretas entre nações soberanas se irão sobrepor ao conjunto de instituições internacionais forjadas após a Segunda Guerra Mundial e que deixaram de fazer sentido.
Saber se o engenho e arte dos americanos de apontar ao desconhecido terá o suporte do seu povo como teve nos últimos 250 anos é a questão que se levanta. E pela primeira vez em décadas, a resposta parece inequivocamente que sim.
Portugal aos 250 anos não tinha nada que previsse os 200 seguintes, e usou-os para mudar o mundo. A América tem tudo e muito mais: mais capital, mais ciência, mais escala, e a mesma fome de sempre. Quem aposta no declínio americano está a apostar na emoção contra a razão, pois está à vista de todos, mas a maioria insiste em não querer ver.
Os melhores anos dos Estados Unidos estão para vir. E ainda bem para todos nós.
¡Viva la Libertad, Carajo!