Em Southampton, numa noite de Dezembro passado, Henry Nowak, 18 anos, cruzou-se com Vickrum Digwa, 23, que visivelmente se fazia acompanhar de um enorme punhal. No Reino Unido, e pelos vistos também por cá, os sikhs são livres de usar em público uma adaga “cerimonial”, liberdade essa que é vedada aos restantes cidadãos (o argumento é o do “costume religioso”, e eu temo que uma religião qualquer decida adoptar o uso cerimonial da bazuca). Nowak pôs-se a filmar Digwa e a brincar com ele a pretexto do acessório: “És um homem mau. Diz que és um homem mau…” Digwa confirmou o pressuposto e deu cinco facadas no rapaz. Quando a polícia chegou, Digwa disse ter sido vítima de insultos racistas, o que de imediato levou a polícia a algemar Nowak, que agonizava no chão. No meio da agonia, Nowak informou repetidamente os agentes de que fora esfaqueado. Um dos polícias gozou: “Não me parece, pá.” Nowak acrescentou com a voz a sumir: “Não consigo respirar…” Disse-o uma, duas, três, quatro, nove vezes, até perder a consciência. Só então lhe retiraram as algemas e prestaram os primeiros socorros. Pouco depois, um médico declarou-o morto. No julgamento, que decorreu há dias e condenou Digwa a prisão perpétua (e saída condicional em 21 anos), provou-se que as alegações de “racismo” eram falsas. O vídeo que registou tudo, agora divulgado, está disponível na internet e, na perspectiva de um indivíduo “normal”, roça o insuportável.
Infelizmente, a normalidade já esteve melhor de saúde e, na classe política e nos “media”, não falta quem, perante a violência das imagens gravadas, ignore o grotesco do caso e peça sobretudo que o caso não seja “politizado”. Tentar impedir a “politização” de episódios similares é hoje um procedimento habitual. Na sequência do atentado terrorista de 2017 em Manchester, em que um líbio assassinou 22 pessoas que assistiam a um concerto, multidões foram ensinadas a cantarolar o refrão do agrupamento “pop” Oasis: “Não guardes rancor…” (Morrissey, que à época comentou a pouca-vergonha através de uma canção em que prometia “guardar rancor até ao dia da minha morte”, viu as editoras recusarem a edição do disco, que nunca saiu, e é tratado pelo “sistema” abaixo de pária e “extremista”). O fundamental é não “politizar” a morte de Henry Nowak, como não se politizaram as mortes de Manchester.
E como não se “politizou” a morte de Kriss Donald, o escocês de 15 anos que em 2024, apenas por ser branco, se viu seleccionado por um gangue de paquistaneses para ser torturado durante horas e por fim incinerado. Ou os milhares de rapariguinhas brancas e pobres do Norte inglês que, ao longo de décadas e sob a indiferença “inclusiva” das autoridades locais, da polícia, dos serviços sociais e dos “media”, receosos de sentimentos “islamofóbicos”, caíram nas mãos de outro, e mais vasto, gangue de paquistaneses para efeitos de violação colectiva e prostituição. Ou do adolescente de origem ruandesa Axel Rudakubana que, também em 2024, matou três meninas numa aula de dança em Southport, e cuja antiga directora escolar fora acusada de “racismo” por denunciar, previamente e em vão, o seu comportamento “sinistro” e preocupante. Ou de Valdo Calocane, o esquizofrénico guineense (e português) deixado à solta por recomendação de psiquiatras para não agravar a “excessiva representação de jovens homens negros em detenção”: 11 minutos após a decisão médica, Calocane invadiu um apartamento e forçou a moradora a saltar da janela com danos vertebrais irreversíveis; 3 anos após a decisão médica, Calocane assassinou com uma faca dois estudantes da Universidade de Nottingham e um zelador de uma escola primária. Ou das incontáveis tragédias comparáveis que, no Reino Unido e pela radiosa Europa afora, aconteceram e acontecem porque os sinais prévios que as poderiam ter evitado foram ignorados para evitar um mal muito maior que a mera chacina de uns caucasianos: o “racismo”, a palavra que começa por “R”. É isto que significam os apelos a que não se “politize” a morte de Henry Nowak.
Sem supresas, os que rejeitam a “politização” de um homicídio são os mesmos que, por todo o Ocidente incluindo Londres, exploraram até ao absurdo a morte de George Floyd, mediante editoriais, vigílias, estátuas e murais, motins e vandalismo. O habitualmente excitado “Guardian” pediu que se reproduzisse a “raiva que aboliu a escravatura”, desconhecedor de que a abolição da escravatura não se deveu à “raiva” e sim aos valores civilizacionais que o “Guardian” abomina. Daquele e deste lado do Atlântico, tornou-se moda figuras públicas ajoelharem-se a título de homenagem. Em 2020, a 6.500 km de distância de Minneapolis, o sr. Starmer, então líder da oposição, posou para fotografias nesses preparos (uns anos antes, dirigira o Ministério Público local, co-responsável pelo encobrimento dos gangues de violadores). Em 2026, o sr. Starmer, primeiro-ministro britânico, não se ajoelhou por Henry Nowak. Aliás, limitou-se a seguir o exemplo dos “media” quase em peso e, entre Dezembro e a penúltima semana, dedicou ao tema um rigoroso silêncio. A “politização” dos crimes tem dias.
Sucede que os dias andam trocados. Fora do mundo às avessas em que nos querem enfiar, a morte de George Floyd não era “politizável” na medida em que a acção do polícia que estupidamente o matou não foi influenciada pelo ar dos tempos ou determinada pela legislação. Apesar da conversa em redor do “racismo sistémico” da “extrema-direita”, duplamente ridícula ao falar-se do Minnesota, que nos 50 estados americanos detém o recorde de maior sequência de votações consecutivas no candidato Democrata às “presidenciais”, o facto é que a polícia de Minneapolis não foi pressionada e ensinada a agir da maneira que agiu com Floyd. Os polícias que no fundo mataram Nowak foram. O que se passou há seis anos nos EUA constituiu uma anomalia. O que se passou há seis meses na Inglaterra, que detém 12 mil pessoas por ano a expensas do misterioso “discurso de ódio”, é a consequência natural e expectável do ambiente formal e informalmente criado para discriminar de modo favorável os cidadãos pertencentes a “minorias étnicas”. A troco de milhões gastos em sessões de “formação” onde se entoa a frase “O Islão é uma religião de paz” e se discute o “privilégio branco”, a polícia de lá é formatada a não ser “colour blind”, leia-se a proteger os cidadãos “étnicos” (perdão) em situações de dúvida. Ou em situações que, como com Nowak e o seu carrasco, nem permitiam dúvida alguma.
O “anti-racismo”, ou o racismo com novos alvos, é que é sistémico no século XXI. Junto com outras mortes, a morte de Henry Nowak é o exemplo acabado de um evento “politizável”. Espero que as pessoas que ainda não perderam a noção de decência o “politizem” devidamente, e que guardem o maior rancor contra o assassino e os seus inúmeros cúmplices.