A ocasião faz o ladrão, mas o infrator ocasional, tal como o perene, embora supostamente em menor grau, já tinha dentro de si alguma coisa indutora de tal desvio. Alguns dirão que é da condição humana (não estarão, porventura, distantes da verdade). Outros segmentarão o cenário da prevaricação por perfis pessoais ou sociais (na ausência de fundamentalismo, separar o trigo do joio pode ser sinal de astúcia percetiva). Os bloquismos desta vida, de aparência afeta às virtudes, não escapam. Uma palavra caracteriza o atual escândalo do Bloco de Esquerda, que, ao mesmo tempo, contrariou, na sua própria prática, as suas linhas programáticas de defesa das mulheres e da classe trabalhadora. O substantivo “hipocrisia” (e o correspondente adjetivo) foi muito proferido para avaliar esta situação.

A hipocrisia, enquanto desvio da moral, exterioriza-se na praxis do agente quando esta dissona do seu logos. Assim se revela um ethos questionável. O que disse ou prega de bonito é a base para o julgamento alheio da sua conduta. A heteroidentificação da hipocrisia é um exercício analítico apenas fielmente exequível na decorrência de um dado ato do indivíduo. Por mais que muitos apostassem na hipocrisia do Bloco de Esquerda, apenas recentemente chegou a prova dos nove. Ou mais uma, vá — particularmente notória. Bem, sejamos francos: esta agremiação já tresandava a hipocrisia. Mas agora a aferição dela é, de forma categórica, tangível.

Para atenuar a ofensa, os bloquistas poderão imaginar-se na Grécia Antiga. O termo grego hypokrisía (hupokrisía) ou hypókrisis — formado por hypo- (abaixo) e krisis (decisão, julgamento), literalmente remetido para a resposta sob julgamento — referia-se, no contexto do teatro grego, ao desempenho dos atores, à representação, à interpretação de máscaras. A dimensão artística pode permitir um certo juízo elogioso sobre o hipokrités (ator), ainda que em si o cariz do conceito fosse, digamos, neutro, descritivo. A ex-líder do partido, Catarina Martins, que foi atriz, imbuída do espírito teatral, talvez não se tenha apercebido de que o conteúdo semântico de hipocrisia evoluiu e já não é uma coisa boa. Ora, sabemos que para a esquerda radical as ideias são cristalizadas mesmo que a experiência, no tempo que passa, demonstre concretizações daquelas que são destoantes da sacralidade da teoria de partida. Quem quiser continuar a votar nesta força política pode sempre fazer de conta que o ímpeto bloquista do cultivo da hipocrisia reside nos desígnios artísticos, até porque ela se reclama a genuína defensora do setor da cultura.

Na verdade, aliás, mais tarde, numa evolução da conceção do vocábulo, a literatura começou a incorporá-lo em referência à ludibriação de um sobre os outros com a falsificação das suas ideias ou intenções. A forma latina, hypocrisis, derivada da grega, reforçou essa conotação de cariz moral. No cristianismo primitivo, com o Novo Testamento, o entendimento da palavra centrava-se na falsidade religiosa, sobretudo no que respeita à denúncia dos fariseus por Jesus: “Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, hipócritas! Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estes estão repletos de avareza e cobiça” (Mateus 23:25). Aluda-se, a propósito, à imposição de moralismos aos outros por parte daquele partido (tal como dos fariseus) — exigência incumprida pelo próprio: “Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens. No entanto, eles próprios não se dispõem a levantar um só dedo para movê-los” (Mateus 23:4).

A hipocrisia levada ao limite, se a olharmos em termos políticos, contribui para a manutenção de regimes totalitários, como o nazismo e o estalinismo, no sentido em que as retóricas do aparelho do Estado, sob a égide de um ideário axiológico considerado elevado, legitimam, ocultam ou distorcem, com mecanismos ilusórios, a crueldade que perpetram, banalizando-a — o que consiste em algo próximo do que é exposto por Hannah Arendt. No Bloco de Esquerda, coletivo de trotskistas, leninistas e outros socialistas, supostamente não vinga o estalinismo. Este conceito serviu, de resto, para Mariana Mortágua, em janeiro de 2024, repudiar André Ventura, apontando as fotografias do líder do Chega nos gabinetes do partido: “Que bom Estaline dá o doutor Ventura”. Torna-se, pois, inevitável seguir o mote acusatório da coordenadora bloquista, criticando o seu partido relativamente ao modo como tratou aquelas trabalhadoras: que bons Estalines dão os doutores bloquistas. No fim de contas, a analogia, que indicia algo maior, tem em vista a incongruência entre a exaltação comunista da igualdade e da justiça social e a efetiva repressão do povo no sovietismo. Concedo-me, então, por breves instantes, entrar no terreno da repreensão hiperbólica. É assim que se joga?