Política

Os herdeiros da (in)tolerância

Autor
  • Vicente Ferreira da Silva
586

Não gosto da palavra tolerância. Prefiro a diversidade e a diferença. Tolerância implica condescendência. Os ditos tolerantes agem como se fossem moralmente superiores. E o pior é que acreditam sê-lo.

Desde novo que gosto de ler. Devo, principalmente, o gosto pela leitura à minha Mãe que tinha sempre a companhia dum livro. Para além disso, tendo cedo aprendido que não sabemos nada enquanto não conhecermos a diferença, também tive o hábito de ler o que não gosto. No que respeita ao pensamento político há quem considere que toda a esquerda, ou que toda a direita, pensam da mesma maneira. Eu não partilho dessa visão redutora. Admiro a diversidade e a riqueza de pensamento que caracterizam tantos os autores de esquerda como os de direita. Tenho, obviamente, a minha preferência.

Sou liberal. Já o afirmei e reafirmo-o. Acredito que liberdade não é simplesmente a possibilidade de escolher, mas antes o aceitar das responsabilidades inerentes às escolhas que faço. Sendo liberal, é natural que tenha lido, entre outros, Adam Smith, Bastiat, Böhm-Bawerk, Schumpeter, Mises, Hayek, Friedman, Sowell. No entanto, também li Saint-Simon, Proudhon, Bakunin, Marx, Lassale, Lénin, Trotsky, Gramsci e Nikolai Berdyaev que, em 1923, adequadamente afirmou: “O estado socialista não é um estado secular, mas sim um estado sacrossanto (…) Assemelha-se a um estado teocrático autoritário. O socialismo professa uma fé messiânica. Os guardiões da «ideia» messiânica do proletariado são a hierarquia específica – o Partido Comunista, altamente centralizado e detentor de poderes ditatoriais.”

Não gosto da palavra tolerância. Prefiro aceitar a diversidade e a diferença. Tolerância implica condescendência. Quando os ditos tolerantes se manifestam fazem-no exibindo toda a grandeza da sua superioridade e arrogância. Como donos da verdade, estão indisponíveis para dialogar. Só eles tem razão e agem como se fossem moralmente superiores.

Quando ouço Jerónimo de Sousa e outros arautos da verdade, como Francisco Louçã, Rui Tavares, Daniel Oliveira, Isabel Moreira e afins, a expressar preocupação pelo futuro do Brasil em virtude da emergência de um poder de cariz ditatorial pergunto-me se alguma vez leram o que Karl Marx, Friedrich Engels e/ou Joseph Weydemeyer defenderam?

Nem Weydemeyer, Engels ou Marx defenderam a mudança da sociedade através da democracia do proletariado. Não. Pelo contrário. Promoveram a ditadura do proletariado como o meio ideal para a mudança social. Ou seja, patrocinaram a mudança através de um comportamento específico que implicava ruptura, imposição, brutalidade e violência. A mudança da sociedade através da violência defendida por Marx só encontra paralelo nas acções de Robespierre. E Estaline, Mao Tsé-Tung, Mengistu Haile Mariam e Pol Pot chegam para demonstrar o historial da brutalidade dos regimes socialistas.

Não há virtude na ditadura. Seja ela de direita ou de esquerda! Para algumas pessoas, o facto de Portugal ter tido uma ditadura de direita parece justificar a possibilidade duma ditadura de esquerda. Estão enganados. Aliás, a tentativa de implementar uma ditadura comunista no nosso país falhou! Porém, alguns dos actuais dirigentes socialistas aparentam ter esquecido o papel do PS na consolidação da democracia portuguesa. Não é surpreendente. O PS de 2018 já não é o PS de 1974. Mário Soares é uma ténue memória. Guterres partiu mas o pântano ficou. Com Sócrates vieram as aclamações e o esmorecer da pluralidade. Com Costa não é diferente.

Se eu fosse brasileiro, na primeira volta das presidenciais, teria votado João Amoêdo. Na segunda, abstinha-me de qualquer escolha válida votando em branco. Sendo cidadão português apenas acompanhei o processo eleitoral e as respectivas circunstâncias. A decisão coube apenas aos brasileiros e eles, bem ou mal, decidiram. A democracia tem destas coisas. Às vezes ganham aqueles que não gostamos. Noutras, aqueles que perdem formam o governo. Tudo o que devemos fazer é aceitar os resultados. Isso é o que um democrata faz. Ou deve fazer.

Não é essa a atitude que caracteriza os profetas do monolitismo ideológico para quem somente a sua liberdade importa e apenas a solução que preconizam é válida. Todas as outras são reprováveis porque os outros são todos fascistas. E eles, os bons, para proteger o povo do fascismo defendem o controlo e a censura sobre o conteúdo das redes sociais e apelidam a imprensa de antidemocrática quando não gostam dos conteúdos. Estes – que relativizam o passado socialista de Mussolini, que esquecem que Hitler dirigiu o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães e que explanam a plenitude do silêncio perante as atrocidades de Maduro e de outros ditadores socialistas – é que são os verdadeiros herdeiros de Salazar.

Ironia das ironias. Os filhos de Marx também são os discípulos Salazar. E como bons alunos fomentam a redução da liberdade, o sectarismo e a polarização perpetuando o paradoxo de Marx. Karl Marx, o epítome do ateísmo, que desprezava a religião e que era intrinsecamente antissemita desenvolveu uma doutrina que exige exactamente os ditames duma fé e duma obediência inquestionável cujo efeito é a anulação da identidade e do livre-arbítrio do indivíduo.

É verdade que o desenvolvimento da sociedade e que o progresso da mente humana requer a adaptação das leis e das instituições à mudança das circunstâncias. Esse tipo de evolução é necessária. Mas não é o caso das políticas identitárias. Estas, que não passam duma aplicação das ideias de Gramsci, estão a subverter os valores e os fundamentos que caracterizam a civilização ocidental e a democracia liberal.

É perfeitamente possível proteger alguns grupos sociais sem discriminar a liberdade dos restantes. Basta rever os ensinamentos de John Emerich Edward Dalberg-Acton.

Mas os herdeiros da (in)tolerância não gostam da liberdade dos outros!

Politólogo, Professor convidado EEG/UMinho

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