Quem tem medo de Pedro Passos Coelho? Pelos vistos, uma quantidade enorme de gente. Desde logo, a enorme quantidade de gente que por aí anda a garantir que Pedro Passos Coelho se prepara para cometer inomináveis malfeitorias, entre elas a suprema blasfémia de regressar à política dita “activa”. O medo não só é proporcional à iminência desse regresso: é proporcional ao previsível impacto do regresso.
Para início de conversa, informo que não faço a mínima ideia se haverá regresso. Sei, toda a gente sabe, que Pedro Passos Coelho se tem feito notar particularmente nos últimos tempos. E, pela consulta à sua agenda pública, imagino que continuará a fazer-se notar nos próximos. “Eventos” sucessivos dão-lhe a oportunidade de aparecer a insistir em dois ou três assuntos fixos, acima de todos a necessidade de reformas e o perigo de ignorá-las. A cada aparição, há ligeiros tremores de terra, compatíveis com a legitimidade do homem em dizer o que diz. A opinião publicada, habitualmente hostil a Pedro Passos Coelho à esquerda e a certa “direita”, critica-o enquanto finge aconselhá-lo.
As críticas são engraçadas. E são, para parafrasear o intelectual orgânico Hugo Soares, rajadas de tiros ao lado. Umas vezes, acusam Pedro Passos Coelho de acusar de imobilismo um governo com a mobilidade de uma cómoda. Outras vezes, sugerem que ele se arrisca a alienar uma porção do eleitorado do PSD. Nos intervalos, enxovalham-no por “normalizar” (ai, o conforto dos vocábulos idiotas) o Chega. Vamos por partes.
Em primeiro lugar, Pedro Passos Coelho tem duas tradições a seu favor: a pessoal, quando liderou em condições quase impossíveis a regeneração possível após a proverbial bancarrota socialista, e a partidária, dado que sob as três chefias relevantes da sua história o PSD sempre possuiu uma vocação reformista. Isto dá-lhe a legitimidade suficiente para notar que o dr. Montenegro não é um chefe relevante e não deseja perturbar a quietude da pátria. Muitos dos aflitos que avisam, trémulos, para a “mudança” de Pedro Passos Coelho sabem perfeitamente que quem mudou foi o PSD. Ou, para efeitos de precisão, são os sucessores dele que teimam em transformar o partido numa cópia discutivelmente moderada do PS actual. Salvo por alterações fiscais difíceis de medir com um paquímetro e alguma contenção no ódio à propriedade privada, em que é que o presente governo difere dos socialistas assumidos que o precederam? Não se incomodem a responder.
Em segundo lugar, admito que haja eleitores do PSD desgostosos com a “traição” de Pedro Passos Coelho. Infelizmente, esses eleitores, numerosos ou escassos, não se apercebem que os traidores são eles. São eles que, com o fervor de adeptos, votam numa sigla à revelia do conteúdo, que tanto pode incluir a privatização do oxigénio quanto o confisco dos electrodomésticos. Ou, como acontece, numa sigla sem conteúdo que não seja a gestão diária do poder – ou a sobrevivência rasteira, sem razão e, se assim continuar, sem futuro. Sucede também que Pedro Passos Coelho já deu provas bastantes que a popularidade, ou o receio de a perder, não constam da sua lista de preocupações.
Por fim, há a questão do Chega. Ao contrário do dr. Montenegro, e de uma avassaladora percentagem da “direita” eu vai aos estúdios televisivos afirmar-se “civilizada”, Pedro Passos Coelho nunca achou razoáveis as “linhas vermelhas” que condenavam à irrelevância centenas de milhares de descontentes. A tese das “linhas” venceu e o resultado vê-se: os descontentes subiram ao milhão e, hoje, ao milhão e meio ou mais. De resto, nada, ou pouco, existe em comum entre as “recomendações” de Pedro Passos Coelho e aquilo que o Chega defende na maioria das ocasiões. De novo: não foi ele que se aproximou do Chega, embora se desconfie que o Chega estaria disposto a aproximar-se dele, conforme o próprio André Ventura indiscretamente admitiu.
Eis a moral desta história: Pedro Passos Coelho é, que se veja, a única esperança em “federar” uma direita (?) cuja imensa representação parlamentar é inconsequente. De que valem os inéditos dois terços da AR se o país se encontra ingovernável ou, o que é igual ou pior, apenas se governa em função de uma “estabilidade” que é um eufemismo estafado para a estagnação em que caímos há 30 anos? Sobretudo Pedro Passos Coelho é o único político capaz de um sentido e de uma visão que contrastem com a paralisia vigente. É o adversário do socialismo que o PSD actual não parece interessado em ser. E é a alternativa racional ao famoso “sistema” que se espuma à menção do seu nome. Ventura é hábil e útil a escoar o protesto, mas convém que o protesto adquira coerência e propósito.
Os lobos juram repetidamente que Pedro virá. Talvez um dia ele venha. E, não antecipo por que vias, era bom que viesse.