Imaginamos o empreendedor de sucesso um jovem de vinte e poucos anos, com alguns estudos, pouca experiência profissional, mas cheio de energia e ambição. A ligação da juventude ao empreendedorismo parece óbvia: a nossa capacidade física e cognitiva está em níveis máximos quando somos jovens e as «distrações» associadas à família ou outras responsabilidades estão em níveis mínimos. Os exemplos de Bill Gates, Steve Jobs ou Mark Zuckerberg, que fundaram a Microsoft, Apple e Facebook com pouco mais de vinte anos, reforçam a ideia de que ou começamos cedo ou estamos condenados ao insucesso.

Contrariando estas perceções populares, um estudo recente com dados de mais de 2,5 milhões de empreendedores mostra que um fundador com cerca de 50 anos tem uma probabilidade de sucesso duas vezes superior a um fundador com 30 anos. Os empreendedores mais jovens (com menos de 25 anos) têm taxas de sucesso particularmente baixas (significativamente menores do que, por exemplo, as associadas a empreendedores com mais de 60 anos). Estes resultados são relativamente robustos sendo independentes do tipo de indústria do empreendedor, da forma legal da empresa ou mesmo da equipa fundadora.

A razão mais plausível para estes resultados algo contraintuitivos está relacionada com a experiência profissional. De acordo com o estudo referido, no conjunto das empresas que mais foram capazes de crescer, fundadores com três ou mais anos de experiência profissional na indústria têm uma probabilidade de sucesso duas vezes superior a fundadores sem qualquer experiência profissional na indústria. Apesar de a juventude poder ter as suas vantagens, o valor acrescentado da idade parece compensar. De acordo com outro estudo, a experiência profissional confere não só conhecimento técnico acrescido, mas também outros aspetos menos técnicos, tais como uma sensibilidade especial em relação ao que o cliente realmente necessita e uma noção mais clara do que não lhe está a ser oferecido. Estes aspetos facilitam a deteção e a exploração de novas oportunidades de negócio.

Além deste conhecimento, os fundadores com mais experiência beneficiam de redes de contactos profissionais e pessoais mais ricas. Estas ligações privilegiadas a clientes, fornecedores ou antigos colegas permitem aceder a conhecimento relevante com maior facilidade. Um estudo baseado em 180 empreendedores conclui que uma relação pessoalmente mais próxima com clientes-chave facilita a aquisição de conhecimento técnico e de mercado que, por sua vez, está associado a uma maior capacidade de desenvolver mais e melhores produtos. A manutenção destas redes ativas tem efeitos positivos quer na sobrevivência inicial da empresa, quer no seu sucesso a longo prazo.

Os mais velhos estão (e estarão) em maioria nas sociedades ditas mais desenvolvidas. Em Portugal, por exemplo, metade da população tem mais de 44 anos. Se não mudarmos a narrativa popular de quem pode ser um empreendedor de sucesso, podemos estar a perder empresas de sucesso. Com isto não quero desincentivar os mais jovens a explorar as suas ideias ou duvidar do valor criado pelos múltiplos programas de apoio ao jovem empreendedor. Quero antes dizer aos mais velhos que provavelmente terão uma probabilidade de serem bem sucedidos maior do que pensam.

João Cotter Salvado é Doutorando em Estratégia e Empreendedorismo na London Business School. É casado, tem 34 anos, e três filhos. Juntou-se ao Global Shapers Lisbon Hub em 2013.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.