Em 1981, Vasco Pulido Valente escreveu o livro “Tentar Perceber” e, na introdução, esclareceu: “Estes textos são a expressão da vontade de me entender com o país ambíguo em que nasci”. Portugal é, de facto, um “país ambíguo”; e a vontade de nos entendermos com ele tornou-se especialmente urgente desde as eleições de domingo. Como se sabe, António José Seguro teve 31,1% e André Ventura chegou aos 23,5%, o que quer dizer que ambos precisam de muitos votos adicionais se quiserem vencer a segunda volta das presidenciais. Tendo em conta que esses votos que tanto um como o outro cobiçam estão todos na direita, começou imediatamente um exercício que mistura contabilidade e policiamento: os eleitores de direita vão escolher Seguro ou Ventura? Para muitos apoiantes de António José Seguro, não se trata de uma simples opção eleitoral, que poderá estar correta ou errada. Segundo eles, está em causa uma escolha existencial porque estamos perante uma luta cósmica entre a democracia e o fascismo. Esta é a pergunta lancinante, angustiante, desesperante que os deixa acordados à noite: se votar em Seguro é escolher a liberdade, a paz e as flores, e se votar em Ventura é escolher o autoritarismo, o caos e o ódio, então que dúvidas pode ter a direita? Incapazes de encontrar resposta, os socialistas oscilam entre a indignação e a fúria. Como sempre, há duas formas de reagir às diferenças de opinião. Podemos desqualificar, insinuar e caricaturar — o que pode aliviar, mas não ilumina. Ou podemos, lá está, “tentar perceber” — que é a melhor forma de exercitarmos a vontade de nos entendermos com este “país ambíguo”.
Aquilo que é preciso perceber é que a direita tem três problemas com o Partido Socialista — e nenhum deles tem a ver com o medo do Gulag, do estalinismo ou do PREC. O primeiro problema é a corrupção. Claro que há acusações de corrupção em todos os partidos, pequenos, médios ou grandes. Mas, ao fim de todos estes anos, o PS nunca se sentiu na obrigação de explicar, por exemplo, como foi possível José Sócrates chegar à liderança do partido e, depois, à chefia do governo sem que as pessoas que se foram cruzando com ele, de forma mais próxima ou mais distante, reparassem que algo de muito invulgar se passava. Ao longo de todo aquele tempo, não viram nada, não estranharam nada, não se inquietaram com nada? Ou estavam tão concentradas no partido que não viram o óbvio? Mais e pior: depois de se conhecer a verdadeira natureza de Sócrates, o PS nunca censurou de forma pública e clara o seu antigo líder ou aqueles personagens que gravitavam à volta dele. Alguns dirigentes soltaram frases vagas de separação e António Costa elaborou uma proclamação enigmática sobre aquilo que Sócrates “acredita ser a sua verdade”. Mas isso, independentemente do que se venha a provar em tribunal, é visto como demasiado curto pela direita, que já formou a convicção de que algo de terrivelmente errado se passou. Esse comportamento brando perante Sócrates deixou na direita uma suspeita perene sobre a verdadeira natureza do PS.
O segundo problema da direita com o Partido Socialista é a geringonça. Em 2015, António Costa liderou uma subversão das tradições políticas portuguesas. Foi uma subversão constitucional, com certeza, mas foi uma subversão mesmo assim. Desde 1976, todos os governos saídos de eleições legislativas tinham sido liderados pelo partido mais votado. Até que o PS de António Costa decidiu forjar uma aliança inesperada com o PCP e o BE para formar a geringonça e, assim, forçar o PSD a abandonar o governo. Para a direita, ficou uma lição: o PS fará o que for preciso para tomar o poder. E, uma vez no poder, fará o que for preciso para bloquear reformas e mudanças.
Finalmente, há o problema da “superioridade moral” do Partido Socialista. Desde a revolução, todos os líderes da direita foram denunciados pela esquerda como fascistas, como defensores de fascistas, ou como amigos de fascistas. Basta ler as opiniões da época: Francisco Sá Carneiro era “fascista”, Francisco Pinto Balsemão era “fascista”, Freitas do Amaral era “fascista”, Cavaco Silva era “fascista”, Passos Coelho era “fascista”. E basta ler as opiniões atuais: Montenegro, obviamente, é “fascista”, defensor de fascistas, ou amigo de fascistas. Depois de passarem 50 anos a ouvir, de forma ininterrupta, que toda a direita é fascista, os eleitores desta área política decidiram imitar a reação célebre de Pinheiro de Azevedo. A 12 de novembro de 1975, o então primeiro-ministro, também conhecido pela alcunha “Almirante sem medo”, enfrentou uma manifestação de trabalhadores da construção civil que cercou o Parlamento. Tentou insistentemente acalmar a turba, mas, de cada vez que se aproximava do microfone, ouvia gritos de “fascista, fascista, fascista”. A dada altura, perdeu a paciência e atirou: “Vão bardamerda mais o fascista!”
Uma parte substancial da direita que tem estes três problemas com o PS também tem vários problemas com André Ventura e não contemplou nunca a possibilidade de votar nele. Despreza os flirts do Chega com o racismo, não suporta a demagogia recorrente do populismo e tem aversão à visão tumultuária da política que é característica de Ventura. Eu não sei o que vão fazer os eleitores da direita na segunda volta: podem votar em branco; podem ficar em casa; podem optar, contrariados, por Ventura; ou podem até tapar a fotografia no boletim e colocar uma cruz ao lado do nome de Seguro. Mas, façam o que fizerem, nada muda a desconfiança profunda que carregam em relação ao Partido Socialista. Isso, num regime saudável, não pode ser considerado cadastro.