Após o apuramento dos votos na noite eleitoral, Ventura vê-se condenado a enfrentar a realidade, perdido que ficou o louco sonho de se estabelecer em Belém. Pena, pois já havia quem o imaginava a atirar migalhas do alto da balaustrada para os jornalistas compactados no jardim em baixo, sempre ávidos de apanhar as deixas em movimento e amplificar as provocações. Uma vez mais, Ventura vai ter de reinicializar a ficção. E pela enésima vez, vai fazer sair uma tirada que ocupará as cabecinhas pensadoras. Desta vez, concluiu Ventura, afinal ele ganhou, porque teve mais votos que o Governo conseguiu nas eleições legislativas. O significado é evidente, o direito a governar é dele e se Montenegro não quiser sair já, vamos passar pelo incómodo de esperar pelas próximas eleições.

Como está comprovado, confundir as coisas e atirar ideias para o ar é uma norma que funciona. Neste caso, é indiferente que se trate de eleições para deputados, em que Partidos para todos os gostos leiloam as suas capacidades mágicas, ou de uma eleição unipessoal, em que se começa por fazer uma escolha, mas na ausência de vitória do nosso candidato, vota-se contra alguém na 2ª volta.

António José Seguro, com 30% na 1ª volta, não era manifestamente para 70% dos Portugueses a opção indicada para Presidente. Mas André Ventura, com 23% de votos também na primeira volta, ainda o era menos. Ditaram as regras constitucionais que um dos dois teria de ser o escolhido e assim partimos para a 2ª volta em que Seguro obtém 67% e Ventura apenas 33%. Como os números indicam, acabou por ganhar folgadamente Seguro, num rácio de 2:1.

Nesta 2ª volta, Seguro soma mais 37 p.p., enquanto Ventura apenas mais 10. Dá para perceber que 37% dos votantes consideraram Seguro como fiel depositário das suas intenções de voto, já que nem por nada deste mundo desejariam que o País fosse dirigido por alguém instável e um profissional da ficção. No total dos 47% que não votaram na 1ª volta nem em Seguro nem em Ventura, apenas 10% acharam que votar em Seguro era algo superior às suas forças. Mas parece legítimo concluir que o fizeram igualmente a título de empréstimo, sem qualquer garantia de uso futuro. Aliás, tal como os 37% que votaram em Seguro, por não terem a sua própria alternativa. Ninguém achará, certamente, que o PS vai ter um resultado de 67% nas próximas eleições…

Apesar da matemática básica, a conclusão de Ventura lá vai fazendo o seu caminho de que o Chega tem mais votos que a AD e que, por isso, na próxima vez, é que é.  Por agora, nada indica que assim venha a ser, a menos que Montenegro continue convencido de que será eternamente Governo por direito próprio, não sendo necessário resolver nem os problemas do SNS, nem todos os outros que alimentam o discurso de Ventura.