Rui Rio

Para que serve o novo PSD?

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O PSD viveu sempre entre o partido eleitoral e, raramente, o governamental. Agora, enquanto a conjuntura não se alterar, deverá reduzir-se ao partido parlamentar. E não é certo que ressuscite tão cedo

À partida, era visível que não havia demasiada esperança na forçosa eleição de um novo líder para o PSD depois do abandono de Pedro Passos Coelho. A única pessoa que pareceu entusiasmar-se foi Santana Lopes mas só os defensores de «mais do mesmo» é que se mexeram a favor dele e não se recomendam depois do que (não) fizeram quando o partido perdeu o poder em 2015. A verdade é que os membros pagantes do PSD pouco se mobilizaram: de cerca de 70.000 inscritos, ou seja, menos de 0,1% do eleitorado, abstiveram-se quase 30.000. Destes, votaram 54% em Rui Rio, como se esperava desde o início, e 46% em Santana. Pouco mais de 40.000 pessoas.

É certo que as estatísticas não contam a história toda mas não deixa de ser confrangedor que apenas 0,05% dos cidadãos se tenham mobilizado numa altura destas em que o destino do país está longe de ser brilhante, apesar do puxão dado à economia pela retoma europeia e do foguetório propagandístico feito à volta dos apregoados êxitos da coligação governamental! Aliás, quem faz gala em badalar os números da economia é o governo…

Mas não nos diz que o crescimento já está a afrouxar; que o BCE irá em breve reduzir a injecção de dinheiro com que tem vindo a comprar dívida; que o crescimento português está abaixo da média europeia; e que as previsões internacionais são de redução do crescimento e do aumento das taxas de juro e da inflação. Os dados para Portugal estão igualmente disponíveis e, de bom, apenas confirmam a baixa do desemprego em boa parte devida ao declínio demográfico persistente, que constitui em si mesmo um problema de tal modo grave que nem se fala nisso.

Por seu turno, o modelo reversivo e empregatício usado pela coligação das corporações profissionais dependentes do Estado, que actualmente nos governam sem disfarce, serviu sobretudo para estabelecer um o controle partidário férreo e para fazer reclame na comunicação social. Não escondeu, porém, que o aumento dos empregos se faz a cada vez mais baixo preço, com o «salário mínimo» a abranger uma parte crescente da força de trabalho, e com a baixa da produtividade nacional devido ao peso de actividades como o turismo, marcadas pela sazonalidade e a reduzida qualificação. Entretanto, a emigração não diminui. As poucas reformas e as privatizações feitas pelo anterior governo já foram praticamente todas revertidas sem pôr termo à debilidade do sistema bancário português, o que se repercute na falta de investimento produtivo em troca pelo endividamento das famílias e pelas importações de bens de consumo.

Perante este cenário, que não parecendo se aperta em torno do país, seria com grande dificuldade que nos lembraríamos das propostas dos candidatos à liderança do PSD. Nem a curto prazo, quanto mais a médio e longo prazo. É certo que palavras e promessas leva-as o vento e que a conjuntura política, depois da incapacidade demonstrada pelos partidos da antiga coligação para impedir a tomada do poder por parte do PS e dos seus aliados, era e continua a ser dificílima.

Não foi à toa que António Costa saudou a chegada de Rui Rio à liderança do PSD antes mesmo das eleições de 2015. Neste momento, deve estar tranquilo, ficando com a probabilidade de jogar no futuro com a «direita» e com a «esquerda» conforme melhor lhe convier, como de resto foi já observado pela maioria dos comentadores. Só um inesperado desastre de origem externa enfraqueceria a rede de apoios tecida pelo PS e pelos seus companheiros da «frente popular», cada um nos seus respectivos sectores corporativos.

É o elenco dos inúmeros «pontos negros» da paisagem sócio-económica, desde os grandes sectores estatais como o sistema de pensões e o sistema de saúde até às reversões disfuncionais como a banca dependente do Estado (ex-BES, CGD, Montepio…), que os partidos da oposição ao actual governo têm de identificar e formalizar se querem escapar ao silêncio dos «media». Mobilizar a chamada «sociedade civil» é mais fácil de apregoar do que fazer e o PSD parece, efectivamente, destinado a fechar-se na sua bancada parlamentar e nas suas autarquias à espera do tal «milagre», a não ser que prefira entretanto servir de «muleta de direita» ao serviço do PS…

O PSD viveu sempre entre o partido eleitoral e, mais raramente, o partido governamental. Agora, enquanto a conjuntura não se alterar – e Rui Rio não parece ter condições para o fazer por si só – o mais provável é que se reduza ao partido parlamentar. E não é certo que ressuscite tão cedo. Resta, como sugeri, o estudo e a publicitação da real situação do país e a apresentação pública e participada de propostas efectivamente alternativas ao actual dia-a-dia.

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