Os que nasceram ou viveram no campo recordar-se-ão das armadilhas que os agricultores colocavam em zonas estratégicas dos seus terrenos de maneira a protegerem as suas hortas ou animais de predadores. O decreto-lei que proibiu as armadilhas não selectivas, aliado à melhoria da protecção física dos animais, diminuíram em muito a utilização destes engenhos. Se no campo a armadilha está em desuso, na política a sua utilização é habitual. A prática política passa muitas vezes por colocar armadilhas ao adversário e saber contornar aquelas que estes nos colocam à frente.

Hoje, em Portugal, a maior armadilha foi colocada pela esquerda, pela pseudo elite bem-pensante lisboeta e pela Iniciativa Liberal (as duas últimas confundem-se grandemente) ao PSD, a imposição das linhas vermelhas ao Chega. A narrativa ouvida e lida insistentemente passar por isto: mesmo que PSD, CDS e IL não consigam maioria no parlamento, o Chega será obrigado a permitir a formação deste governo porque a alternativa será um governo de esquerda com o PS a liderar ou a repetição de eleições até que seja possível formar uma maioria. Evidentemente este raciocínio tem várias falhas. A primeira é uma questão ética: será mesmo possível nem sequer ouvir uma parte substancial do eleitorado? Alguém compreende que um partido que tem nas melhores sondagens 6% influencie um governo e outro que tem 15% não seja chamado para conversações? Qual é o racional disto? O outro problema é de inteligência política, alguém acredita que o Chega perderá votos se não permitir a formação de um governo de “direita” (sendo que nem IL nem PSD admitem que são de direita)?

A ideia que a liderança de Montenegro passa para o eleitorado é a de um líder fragilizado, que vai a reboque da IL, um partido essencialmente urbano e em acelerada desintegração, que já disse que o PSD não poderá contar com os votos dos seus deputados se fizer algum tipo de acordo com o Chega. A realidade é que o PSD poderá nem precisar da IL para formar governo, uma maioria absoluta AD e Chega é possível, eu diria mais, é essencial ao país.

O Chega tem hoje um discurso que em nada pode ser catalogado como racista, xenófobo ou extremista, estou certo de que apresentará um programa e candidatos capazes de colher a confiança de milhares de portugueses e consolidar o estatuto de terceira força política, obtendo um resultado entre 15 a 20%. Com sondagens nesta ordem de grandeza alguém no seu perfeito juízo pode dizer que existem em Portugal 15 a 20% de racistas, xenófobos e extremistas? Não me parece.

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Montenegro ainda pode ser primeiro-ministro e ficar na História como o homem que salvou o país de Pedro Nuno Santos, seguramente o pior líder que o PS jamais teve; mas para que isso aconteça é preciso coragem e capacidade de decisão. Para começar, o líder do PSD tem de pensar pela própria cabeça e não ter medo da própria sombra. Se for bem sucedido todos os fantasmas desaparecerão.

Acredito que o eleitorado não se deixará chantagear, basta olhar para o que aconteceu em Espanha para perceber que as “linhas vermelhas” impostas por Feijóo ao Vox não lhe proporcionaram a tão desejada maioria, e o presidente do PP acabou mesmo por agradecer no parlamento o apoio do Vox a um hipotético governo, sem qualquer contrapartida. Tarde demais como se viu e o PSOE de Sanchez acabou mesmo por formar governo.

Este é o momento de os partidos apresentarem programas e candidatos, de discutirem caminhos para o país e apresentarem soluções. Este é um momento que exige maturidade, elevação e discernimento, este é o momento de colocar o país à frente dos interesses pessoais e partidários. Os portugueses votarão em liberdade e conscientes do que querem e do que estão a fazer, sem paternalismos. Não aceitarão tentativas de condicionamento e chantagem. Se à esquerda é possível uma maioria esta também tem de ser possível à direita, quem não quiser fazer parte da solução só tem um caminho, o desaparecimento. No dia 10 de Março convém que todos estejam conscientes disso.