Esta legislatura iniciou-se sob o signo do famoso “não é não” de Luís Montenegro a André Ventura, o racional era tão básico quanto pedante, se AD e IL não obtivessem votos suficientes para formar uma maioria parlamentar então o Chega seria obrigado a viabilizar um governo da AD + IL, porque o contrário seria colocar o PS e a esquerda de novo no poder. A maioria de direita formada no parlamento não interessava, a vontade dos portugueses não era tida em conta, a única coisa que importava seria chegar e manter o poder, de qualquer forma e a qualquer custo. Com esta manobra Montenegro chegou mesmo ao poder; o problema é que o seu governo não durou sequer um ano, ou seja, os génios da política que iriam encostar o Chega à parede, forçando-o à sua vontade, seduzindo o seu eleitorado e reduzindo o Chega à insignificância são os mesmos que desbarataram uma maioria de direita e arriscam atirar o país de novo para os braços do PS. Um cínico chamar-lhes-ia Maquiavél da Temu, eu fico-me por incompetentes.
Quase tudo foi dito e escrito sobre a empresa de Montenegro (por respeito à inteligência do leitor não me referirei à Spinumviva como “empresa familiar”), é público e assumido pelo próprio Dr. Montenegro que a empresa recebeu uma quantia mensal de empresas privadas por serviços relacionados com proteção de dados, problema? Um primeiro-ministro é obrigado por lei a estar em exclusividade, ou seja, não pode receber vencimentos ou avenças de entidades privadas. Não se pede que um primeiro-ministro, que passe férias em Mantarrota ou que viva num modesto apartamento em Massamá, mas é lícito exigir-se-lhe que seja (e pareça) absolutamente imune a interesses privados, ora se um primeiro-ministro recebe dinheiro de uma empresa e depois vai tomar decisões que implicam directamente essa empresa é legítimo colocar em causa essas decisões.
Se, juridicamente, serão os tribunais a decidir, politicamente cada um poderá fazer os seus juízos de valor, a verdade é que Luís Montenegro colocou os seus interesses pessoais à frente do país e do seu partido, se Francisco Sá Carneiro dizia “primeiro o país, depois o partido e por fim a circunstância pessoal de cada um”, Montenegro inverteu a ordem de valores e colocou-se a si mesmo acima do país e do partido; se isso poderá ser compreensível numa lógica de manutenção de poder por quem o exerce é absolutamente incompreensível que não exista no PSD nenhuma voz com peso político capaz de dizer o óbvio, Montenegro e esta direção do PSD arriscam atirar o PSD para uma derrota eleitoral, desbaratando uma possível maioria de direita no parlamento (Hugo Soares e Luís Montenegro já disseram que o PS deve governar se vencer as eleições). Sobre esta apatia das bases e dos barões laranjas convém também dizer o seguinte, hoje os partidos do “arco do poder” estão recheados de “yes-man”, de personagens completamente dependentes da política, incapazes de dizer “o Rei vai nu”. Justiça se faça a dois jovens militantes do PSD que aqui no Observador escreveram o seguinte: “Sejamos claros: Luís Montenegro não é um empresário que virou político, é um político que fez negócio possibilitado pelas suas conexões políticas. (…) Sem o Montenegro político é impossível existir o Montenegro empresário”. O dramático é que tenham de ser dois jovens militantes de base a dizer o óbvio, ou se calhar é por isso mesmo que têm a liberdade de o dizer.
Luís Montenegro traçou uma linha vermelha à sua direita e isso poderá transformar-se no fim da linha da sua vida política, veremos também se não será o princípio do fim do PSD.