Espanha vive hoje a maior crise humanitária desde a Guerra Civil de 1936-39. À data (e hora) a que escrevo este artigo, já morreram mais de 4.089 pessoas e há um total de 56.188 pessoas infectadas com a COVID-19 (31.912 estão internadas nos hospitais oficiais e de campanha, e 3.679 entubados nas unidades de cuidados intensivos), entre três médicos mortos e cerca de 6.500 profissionais de saúde infectados. Já morreram mais pessoas do que na China, e Espanha ocupa hoje um lugar cimeiro e vergonhoso no pódio dos mortos e do número de doentes.

O sistema de saúde (público e privado) está colapsado, e chegam-nos imagens, vídeos e relatos de hospitais de Madrid com doentes abandonados no chão, deitados e encolhidos em cima de lençóis brancos. O material de protecção médica, como máscaras, escasseia e há hotéis e centros de congressos e exposições transformados em hospitais de campanha. A ruidosa Madrid é, há mais de 15 dias, uma cidade fantasma, silenciosa, dominada pelo medo e confinada a quatro paredes.

Dirão: estamos todos no mesmo barco. Respondo: não, não estamos. Ao contrário de outros países Europeus como a Alemanha, a Holanda, a Irlanda ou a Grécia, que têm Governos sérios, com capacidade de auto-crítica e, sobretudo, com a informação que dispunham, se anteciparam ao inevitável (bastava ter percebido o que estava a acontecer em Itália!), o Governo de Pedro Sánchez preferiu ignorar e desvalorizar todos os riscos associados ao novo coronavírus.

Urge portanto revisitar a cronologia dos factos: o primeiro caso de um doente com a COVID-19 foi detectado no dia 1 de Fevereiro; o segundo 8 dias depois. No final desse mês existiam 45 casos. (Lembro que a 29 de Fevereiro Itália já tinha ultrapassado a barreira dos mil infectados). Chegou Março e o assunto continuava como nota de rodapé nos jornais, nas televisões e completamente ausente do discurso político do Governo Espanhol. Nessa altura o hot topic era o primeiro projecto-lei da ministra da Igualdade, Irene Montero (Unidas Podemos), mulher de Pablo Iglesias, portanto casada com o segundo vice-presidente do Governo Espanhol. Um projecto-lei que implicaria alterações profundas ao Código Penal vigente – nomeadamente a pena de castração química a condenados por crimes de violação (onde é que já ouvimos isto? CHEGA? André Ventura?) – e à lei de violência doméstica e crimes de género. Um projecto-lei feito à pressa, cheio de erros ortográficos e gramaticais e de duvidosa constitucionalidade.

Os primeiros dias de Março foram, enfim, um frenesim. O dia 8 de Março – Dia Internacional da Mulher – aproximava-se e os esforços do Governo Espanhol do PSOE e do Unidas Podemos estavam todos canalizados para maximizar as manifestações feministas desse dia (mesmo que todos os organismos de saúde pública nacionais, europeus e internacionais tenham desaconselhado a realização de quaisquer manifestações ou concentrações de pessoas). Neste fatídico Domingo de Março, o palco principal foi Madrid e contou com a presença de várias ministras do Executivo (algumas usavam luvas de plástico), como Irene Montero e Carmen Calvo, primeira vice-presidente do Governo. A mulher de Pedro Sánchez também não faltou. Hoje estão as três doentes com a COVID-19.

Ora, a 8 de Março, Espanha já tinha identificado 673 infectados com a COVID-19, o norte de Itália já estava em quarentena obrigatória, e o meu escritório em Madrid, onde trabalham mais de 1.500 advogados, já tinha fechado há 3 dias por ter identificado um doente com o novo coronavírus. No dia 9 de Março, ou seja, um dia depois das manifestações feministas do 8-M, o país já tinha ultrapassado a barreira do mil infectados e houve ordem de fecho de todas as escolas e universidades de algumas comunidades autonónomas como Madrid. Menos de uma semana depois, a 15 de Março, já com quase 8.000 doentes, Espanha decreta o Estado de Emergência e o país pára e entra em lockdown. Hoje, já se sabe que grande parte da propagação do vírus se deu nos primeiros dias de Março e que desde o final de Janeiro que o Governo Espanhol dispunha de informação privilegiada que poderia ter evitado o que vivemos hoje. Preferiu ignorar o óbvio.

A história dos dias seguintes já sabemos: um Parlamento também ele de (quase) quarentena e uma economia paralisada.

Ora, admito que em momentos extraordinários como este, aquilo que se pede a um Governo e às oposições é que se unam numa espécie de Governo de emergência nacional para se encontrar as melhores soluções da maneira mais rápida e menos dolorosa possíveis. Neste sentido, Espanha, tal como todas as Democracias Europeias, não tem sido excepção: PP, Vox e Ciudadanos têm votado ao lado do Governo do PSOE e do Unidas Podemos em absolutamente tudo. No entanto, e apesar do carácter extraordinário e excepcional que vivemos, a Democracia não desapareceu, e por isso, há que pedir responsabilidades políticas a Pedro Sánchez e a Pablo Iglesias.

Na crise humanitária e de saúde pública da COVID-19, o Governo Espanhol evidenciou a impreparação angustiante e total de Sánchez e Iglesias. Duas figuras pequenas, pies de pagina, políticos de protesto. Dois homens formatados para a “guerra cultural” feminista, anti-machista, anti-fascista e ambientalista. Dois políticos que perante a crise humana que vivemos, onde escasseiam testes clínicos e material de protecção para os profissionais de saúde, se reunem para discutir o impacto da actual crise e a sua relação com políticas de género (?). Numa palavra, surrealista. Em duas palavras, surrealista e irresponsável.

Espanha está beira do colapso humano e o segundo vice-presidente do Governo, Pablo Iglesias, vem a público criticar o chefe de Estado; afirmar que a crise do Prestige, onde ninguém morreu, foi mais dramática que a actual crise da COVID-19 (só porque na altura o Governo era apoiado pelo PP); criticar a caridad de Amancio Ortega, dono da Zara e de outras marcas, por ter posto as fábricas da Inditex a produzir (grátis!) máscaras e roupa para médicos e enfermeiros. Tenhamos noção das circunstâncias e sobretudo do ridículo porque o vírus, tarde ou cedo morrerá, mas as palavras e (in)acção do actual Governo Espanhol ficarão para sempre gravadas na memória de todos.

Quando esta crise terminar e a normalidade democrática voltar, o mínimo que se pede é humildade e auto-crítica no reconhecimendo de responsabilidades políticas a Pedro Sánchez e a Pablo Iglesias. E, se assim tiver que ser, eleições legislativas antecipadas.