A península de Troia era suposto ser uma área protegida, mas foi transformada num bazar de crimes urbanísticos e ambientais sem fim à vista. Tudo começou no antigo regime, com um projecto de qualidade de Francisco Conceição e Silva, constituído por algumas torres no topo Norte, separadas por zonas verdes, o que permitia a visão do rio, do mar e da montanha. Muitos anos depois, chegou José Sócrates que não gostou do projecto e a meias com a Sonae deitou abaixo duas das torres e atapetaram todo o espaço com edifícios mais baixos, o que transformou o local numa cidade onde se deixou de ver o rio, o mar e a serra. Foi o princípio de uma nova Quarteira e o início do fim de Troia.
Tempo depois surgiu a urbanização Soltroia, já sem a qualidade do plano anterior de Conceição e Silva, mas que ainda tentou proteger as dunas do lado do mar, mesmo que de forma insuficiente, através de construções de baixa volumetria, a maioria vivendas, por vezes de dimensão excessiva e nem sempre de forma a honrar a arquitetura portuguesa. Mas era ainda o tempo em que ainda havia letreiros a proibir as pessoas de se passearem em zonas de acesso ao mar para não prejudicar as dunas.
A partir daí tudo mudou e nos últimos anos tem sido um fartar vilanagem. Presentemente, a península assemelha-se a um enorme estaleiro de construção civil, com prédios de apartamentos e moradias a nascerem como cogumelos ao longo de toda a península e a paisagem é agora constituída por dezenas de gruas e centenas de trabalhadores imigrantes. Dá a ideia de que o peso do betão afundará a península, veremos se ainda antes da chegada do mar que, segundo os ambientalistas, avançará no futuro pela Terra adentro.
Trata-se de Portugal no seu melhor, um país sem rei nem roca, ao sabor dos interesses mais variados, manjedoura em que alguns privilegiados do poder político comem sem gosto, sem lei e sem algum bom senso. As dunas onde ainda há pouco tempo não se podia andar, estão agora a ser escavadas em buracos de onde surgem montanhas de areia tirada do local e de pedras vindas de outros locais. Na única estrada que atravessa a península são construídas curvas, suponho que para evitar o excesso de velocidade, como se os motoristas portugueses não gostassem dos desportos motorizados. Da mesma forma que plantam pinheiros à beira da dita, como se os pinheiros não tivessem raízes, que crescem em harmonia com as resultantes lombas na estrada.
Claro que tudo isto tem autores, a começar pelas autorizações políticas, primeiro a medo das reclamações dos jornais e dos ambientalistas, mas, pouco a pouco, à medida que as associações dos ditos se juntaram para “modernizar” o País em pontes e aeroportos, vá de dar, provavelmente vender, as necessárias licenças. Com a nota humorística de que a autarquia em causa que vende as licenças se rege pela ética da extrema-esquerda da CDU, sempre na defesa do bom povo trabalhador, explorado e mal pago, no caso a autarquia de Grândola que não, penso, a terra de Zeca Afonso. A hipocrisia partidária do PCP tem aqui matéria que dá para pensar.
Tudo isto se passa com os partidos e os meios de comunicação a reclamarem que não há habitação e com cada vez mais gente a viver na rua, em tendas ou em edifícios públicos, por vezes nas barracas que constroem com as próprias mãos, mas que as autarquias se afadigam em mandar destruir, não se dê o caso de alguém pensar em Cavaco Silva que acabou com as barracas. Para aumentar a paródia, o governo da AD, através de uma nova lei, voltou a abrir as portas à construção onde se quiser, renovando a ideia de António Guterres de “dar uma casa a cada português”. Com tal dádiva o centro de Lisboa foi caindo aos bocados e as famílias foram enviadas para as periferias da construção civil e da corrupção. Pelo menos até à lei Cristas, enquanto durou.
Diziam os antigos que os portugueses não se governam nem se deixam governar, todavia a península de Troia é um mostruário de como há portugueses que conseguem governar-se tão bem e de tal forma que, mesmo quando acusados pela justiça, continuam no governo da Nação, ou fora dele, mas satisfeitos e contentes já que “governação” não falta.
Já depois de ter escrito este texto tomei conhecimento de que a autarquia de Grândola tomou a peito a defesa dos interesses das grandes empresas, como a Amorim e a Vanguard, contra os anteriores investidores individuais, nacionais e estrangeiros, que tentam evitar o atravessamento das suas propriedades por camiões com mais betão para novas explorações. Ou seja, temos a CDU a defender os grandes interesses empresariais contra os interesses dos investidores individuais ali estabelecidos há anos.